
(Foto: Ivan Aleksic/Unsplash)
A história da comunicação humana pode ser lida como uma sucessão de revoluções que transformaram não apenas o modo como nos comunicamos, mas a própria estrutura de nossa percepção e pensamento. Marshall McLuhan, nos anos 1960, já alertava que “o meio é a mensagem”, pois cada tecnologia de comunicação não é um canal neutro, mas uma força que molda nossa forma de ver e organizar o mundo. No entanto, essas análises têm negligenciado um fenômeno crítico, haja vista que cada mudança midiática não apenas transforma a sociedade, mas gera uma nova forma de analfabetismo que se acumula sobre as anteriores, criando um efeito cascata de incompetências progressivamente debilitantes.
Este fenômeno pode ser compreendido através do conceito de “cascatas de analfabetismo”, uma estrutura de planos históricos correspondentes aos principais períodos midiáticos dos últimos séculos. O primeiro plano, o analfabetismo textual, emergiu com a difusão da prensa de Gutenberg e persiste até hoje em suas múltiplas dimensões: funcional, interpretativa, crítica e contextual. Como Paulo Freire demonstrou, alfabetização não é mera decodificação mecânica de símbolos, mas um ato político de “leitura do mundo” que precede a “leitura da palavra”. Apesar dos avanços educacionais globais, este primeiro nível de analfabetismo permanece como base sobre a qual outras formas se acumulam.
O segundo plano, o analfabetismo cinematográfico, se desenvolveu com a consolidação do cinema narrativo no início do século XX. Cada meio desenvolve sua própria gramática, no cinema, isso inclui a linguagem da montagem, do enquadramento, da elipse temporal e do simbolismo visual. O analfabeto cinematográfico assiste passivamente sem decodificar essas categorias semióticas; vê “um filme sobre um homem rico” em que deveria reconhecer uma crítica estrutural ao capitalismo através de metáforas visuais sofisticadas. Esta forma de analfabetismo tornou-se particularmente perniciosa na era contemporânea, onde conteúdo audiovisual domina plataformas digitais desde o YouTube até o TikTok, exigindo capacidade crítica de leitura de imagens em movimento que grande parte da população simplesmente não possui.
Os planos seguintes, analfabetismos radiofônico, televisivo e digital, seguem padrão similar de acumulação. O rádio criou analfabetos incapazes de decodificar paisagens sonoras; a célebre transmissão de A guerra dos mundos por Orson Welles, em 1938, demonstrou como audiências sem literacia radiofônica não conseguiam distinguir ficção dramatizada de noticiário real. A televisão gerou analfabetos que não percebem edição, seleção e construção de narrativas; acreditam que reality shows são realidade e telejornais apresentam fatos objetivos em vez de recortes ideologicamente mediados. Finalmente, a internet e as mídias sociais digitais produziram a forma mais perigosa de analfabetismo, a incapacidade de compreender arquitetura algorítmica, verificar fontes, identificar desinformação coordenada e reconhecer como plataformas monetizam atenção através de manipulação comportamental.
A emergência da Inteligência Artificial Generativa representa uma nova virada nas cascatas de analfabetismo, inaugurando um plano de complexidade inédito. Diferentemente das mídias anteriores, a IAG não apenas mediatiza mensagens, mas passa a produzir conteúdo autônomo, criando textos, imagens e sons que simulam autoria humana. Essa automação da criação simbólica amplia o desafio da literacia digital, pois exige que os indivíduos desenvolvam competências para reconhecer autoria algorítmica, avaliar a veracidade de conteúdos sintéticos e compreender os processos de treinamento e viés que moldam essas ferramentas. Em um cenário de abundância artificial de informações e desinformações indistinguíveis, o analfabetismo generativo torna-se o plano mais recente da cascata, uma incapacidade de distinguir o humano do maquínico e de exercer leitura crítica sobre inteligências que também “leem o mundo”. Assim, a alfabetização midiática do século XXI precisa incorporar a literacia algorítmica e a ética da IA, capacitando sujeitos não apenas a usar, mas a compreender e questionar os sistemas que produzem o próprio ambiente informacional em que vivem.
O viés sistêmico se manifesta como uma das dimensões mais sutis e perigosas das cascatas de analfabetismo no contexto das tecnologias digitais e da IA, uma vez que ele não se limita a preconceitos individuais ou erros acidentais, mas emerge das estruturas de poder inscritas nos próprios sistemas de dados e algoritmos, reproduzindo desigualdades históricas sob aparência de neutralidade técnica. As plataformas digitais e modelos de IA aprendem a partir de grandes volumes de dados que refletem padrões sociais discriminatórios de gênero, raça, classe ou território, e, ao replicá-los em recomendações, predições e classificações, consolidam uma forma de discriminação automatizada e invisível. Assim, o viés sistêmico reforça as assimetrias de poder já presentes nas cascatas de analfabetismo, pois a ausência de literacia algorítmica impede a maioria dos usuários de reconhecer a natureza política dessas operações. Enfrentá-lo requer uma alfabetização crítica capaz de revelar como a tecnologia participa ativamente da produção e manutenção de desigualdades estruturais.
À vista disso, o que torna o conceito de cascatas de analfabetismo teoricamente produtivo é precisamente seu caráter acumulativo e não-substitutivo, pois, diferentemente de modelos que sugerem que novas literacias substituem antigas, as cascatas operam através de três mecanismos específicos. Primeiro, acumulação exponencial, pois cada novo analfabetismo não apenas se adiciona aos anteriores, mas os amplifica. Um indivíduo analfabeto digitalmente é mais vulnerável se também for analfabeto televisivamente, pois não reconhece manipulação em nenhum dos formatos dominantes de informação contemporânea. Segundo, interação sinérgica, pois os analfabetismos se reforçam mutuamente, o analfabetismo textual dificulta a alfabetização digital, pois grande parte da verificação de fatos online requer leitura crítica de múltiplas fontes textuais. Terceiro, velocidade crescente, pois o intervalo temporal entre revoluções midiáticas vem diminuindo drasticamente, deixando progressivamente menos tempo para que sociedades desenvolvam literacias adequadas antes que uma nova camada se adicione à cascata.
As cascatas de analfabetismo criam, dessa maneira, uma nova forma de estratificação cognitiva que se sobrepõe e reforça desigualdades econômicas tradicionais. Inspirado em Pierre Bourdieu, podemos falar de um “capital midiático-cognitivo”, em que famílias das classes dominantes transmitem não apenas leituras e educação formal, mas também competências múltiplas de decodificação midiática através de discussões críticas sobre filmes, mediação parental do consumo televisivo e orientação sobre verificação de fontes digitais. Essas competências tornam-se disposições corporificadas que funcionam como vantagens invisíveis, mas decisivas no sistema educacional e no mercado de trabalho. Em contraste, crianças de classes populares frequentemente crescem expostas apenas à televisão aberta e smartphones sem mediação crítica adulta, acumulando múltiplos analfabetismos desde a infância. O sistema educacional, ao focar quase exclusivamente em alfabetização textual básica e ignorar literacias midiáticas, não reduz, mas amplifica esse abismo inicial.
Uma das consequências mais profundas das cascatas é a erosão de uma realidade compartilhada que sustente o diálogo democrático. Jürgen Habermas argumentou que democracias modernas dependem de uma esfera pública onde cidadãos racionais deliberam sobre questões comuns a partir de premissas factuais compartilhadas. As cascatas destroem esse pressuposto ao fragmentar a sociedade em grupos que literalmente habitam realidades diferentes. Durante a sindemia de Covid-19, por exemplo, não havia simplesmente desacordo sobre políticas públicas, mas múltiplas realidades paralelas incomunicáveis. Esta fragmentação deriva diretamente das cascatas, pois indivíduos com múltiplos analfabetismos não conseguem avaliar autoridade de fontes científicas, são mais vulneráveis a documentários conspiratórios, acreditam em “especialistas alternativos” na TV e vivem em bolhas algorítmicas impermeáveis à contradição.
As cascatas também criam condições ideais para manipulação sistemática em escala industrial, pois cada camada de analfabetismo representa uma superfície de ataque que pode ser explorada por atores mal-intencionados. Como demonstrado pelo escândalo Cambridge Analytica, plataformas digitais não apenas permitem, mas incentivam manipulação comportamental através de microtargeting psicográfico. Esta manipulação é particularmente eficaz contra populações com múltiplos analfabetismos, porquanto não compreendem que estão sendo perfiladas, não identificam técnicas de persuasão visual, não reconhecem edição manipulativa, não avaliam qualidade de argumentos. A vulnerabilidade não é individual, mas estrutural e escalonável, já que os algoritmos podem identificar automaticamente usuários mais vulneráveis e direcionar conteúdo maximamente manipulativo com precisão cirúrgica.
Por outro lado, o sistema educacional moderno revela-se estruturalmente incapaz de enfrentar as cascatas, tendo em conta que os sistemas educacionais globais foram desenhados no século XIX para produzir trabalhadores industriais alfabetizados textualmente, e continuam enfatizando quase exclusivamente esta única literacia, ignorando os outros planos. Grande parte dos estudantes passam anos em escolas, mas saem sem competências para avaliar a credibilidade de fontes online, identificar manipulação em imagens, compreender funcionamento de algoritmos ou distinguir jornalismo de propaganda. O problema é agravado pelo fato de que muitos professores também se encontram inseridos neste universo, alfabetizados textualmente, mas carregando outros analfabetismos, particularmente o digital. Assim, como podem ensinar a literacia midiática que não possuem? O resultado são escolas que não apenas falham em reduzir as cascatas de analfabetismo, mas as perpetuam intergeracionalmente.
Enfrentar as cascatas exige, por conseguinte, reformulação curricular radical que vá muito além de “adicionar aulas de tecnologia”, pois uma educação emancipatória deve desenvolver consciência crítica através da qual os estudantes compreendam as estruturas de poder que moldam suas vidas. No contexto das cascatas, isso significa uma pedagogia que trata cada mídia não como ferramenta neutra, mas como estrutura de poder que molda percepção e precisa ser desmistificada. Estudantes precisam aprender a questionar quem produz mensagens midiáticas e com quais interesses, identificar técnicas de persuasão, reconhecer silêncios e exclusões em representações, conectar representações midiáticas a sistemas mais amplos de poder e produzir contranarrativas.
O conceito de cascatas de analfabetismo revela, deste modo, que não enfrentamos simplesmente o problema da desordem informacional ou uma crise democrática temporária, mas uma transformação estrutural nas capacidades cognitivas da população que ameaça os fundamentos de sociedades democráticas. Cascatas criam estratificação cognitiva que reforça desigualdades econômicas, fragmentam a realidade compartilhada necessária para deliberação pública, possibilitam manipulação sistêmica em escala industrial e se perpetuam intergeracionalmente através de sistemas educacionais anacrônicos. Mais que nunca, a alfabetização midiática crítica emerge não como complemento desejável, mas como competência fundamental para a própria sobrevivência da democracia no século XXI.
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Ramsés Albertoni é Professor de Artes, Pesquisador de Pós-doutorado em Artes (PPGCA-UFF), Doutor em Artes (PPGACL-UFJF), Pesquisador dos Grupos de Pesquisa Arte & Democracia e Comcime.
