Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Atentado ao Riocentro completa 44 anos em 2025

(Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)

Há 44 anos, o Brasil testemunhava um dos momentos mais assustadores de sua história durante a ditadura militar: no dia 30 de abril de 1981, enquanto o Dia do Trabalhador era comemorado com shows de artistas como Ney Matogrosso, Chico Buarque, Gal Costa e Gonzaguinha, uma bomba explodiu no pavilhão do Riocentro. O artefato estava com dois militares, e a ação, atribuída a setores da linha-dura do regime, tinha como principal objetivo culpar a oposição e impedir a redemocratização do país. Mas não foi só uma bomba que explodiu naquele dia.

Antes de chegarmos a este atentado, precisamos voltar um pouco no tempo, mais especificamente ao dia 5 de dezembro de 1968, quando foi publicado o Ato Institucional nº 5, mais conhecido como AI-5. Este documento decretou a censura, apertou a repressão e causou um dos períodos mais sangrentos da história da ditadura civil militar no Brasil, com a perseguição a pessoas vistas como de oposição ao regime, inclusive jornalistas. Um deles foi Vladimir Herzog, que foi preso e torturado no dia 24 de outubro de 1975, tendo seu “suicídio” confirmado no dia seguinte.

De volta ao Riocentro, os shows ocorriam quando duas bombas explodiram, uma no pavilhão e outra na casa de força do local. As autoridades afirmaram que a primeira bomba explodiu em torno de 21h20. Inicialmente, o público que estava dentro do auditório, onde a cantora Elba Ramalho se apresentava, não ouviu o barulho da explosão. Alguns minutos depois, a segunda bomba explodiu na casa de força. Ao final do show, Gonzaguinha afirmou à plateia: “explodiram… eu disse: explodiram duas bombas!”. Chico Buarque, visivelmente abalado e assustado, declarou também a uma repórter da Globo que “os artistas… todos aqui assustados, com medo… tomara que não passe disso”. Beth Carvalho, que também se apresentou no Riocentro, afirmou, em 2011: “a ditadura fez isso… ia matar todos nós!”. Porém, os artistas que se apresentaram não eram as únicas personalidades no local. Este atentado contou com a presença da neta de Tancredo Neves, Andrea Neves da Cunha, que salvou o Capitão Wilson Machado – motorista que conduzia o carro que a primeira bomba explodiu no pavilhão –, um dos responsáveis pelo atentado. Depois de ser socorrido por Andrea, o capitão Machado foi levado às pressas para o hospital Miguel Couto com graves lesões.

No processo de investigações, foi comprovado que um dos líderes encarregados do Inquérito Policial Militar (IPM), o Coronel Job Lorena de Sant’Anna, de extrema direita, fez parte do atentado armado pelos militares. O resultado deste inquérito informou que os ocupantes do veículo, o sargento Guilherme do Rosário e o capitão Wilson Machado, foram vítimas do ato. A primeira bomba, que estava dentro de um carro Puma, era manuseada pelo suboficial Wilson Machado. Os dois militares citados eram agentes do DOI-Codi do 1º Exército, e planejavam detonar a bomba no auditório do pavilhão, onde 20 mil pessoas assistiam ao show. O objetivo dos militares era causar pânico entre as pessoas presentes na plateia e entre os próprios artistas. As autoridades chegaram a localizar uma das bombas atrás do palco, e felizmente ela não explodiu. A partir de várias evidências, tudo se virava para um possível “acidente de trabalho”. De acordo com o portal Memorial da Democracia, em vez de investigar e punir os responsáveis, o governo da “abertura” ajudou o comando do 1° Exército a acobertá-los, por meio de um inquérito fraudulento. Investigações mais aprofundadas apontam que quase todas as placas de trânsito foram pichadas com a sigla VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), grupo de esquerda que não atuava desde 1973, quando foi proibido pelo governo militar. Estas investigações só foram possíveis graças a três jornalistas importantíssimos, que são: Marcelo Beraba, do Globo, que conseguiu uma fonte no hospital e, consequentemente, uma fotografia do capitão terrorista com um ferimento na barriga, comprovado que a bomba estava com ele; Fritz Utzeri e Heraldo Corrêa, ambos do Jornal do Brasil, que investigaram e conseguiram provar que os militares estavam envolvidos e desmontaram a farsa do atentado organizado por militares da esquerda.

Em 1999, o caso foi reaberto pela procuradora da República Gilda Berer. Um novo IPM (Inquérito Policial Militar) foi conduzido pelo general Sérgio Conforto, que concluiu que a responsabilidade principal deste atentado foi do sargento Rosário (um dos militares que carregava uma das bombas); do capitão Wilson (que participou do atentado, dirigindo o carro Puma em que a bomba estava); do ex-chefe da Agência Central do SNI, o general Newton Cruz (mais um militar que participou do atentado e acusado por crime de prevenção); e do ex-chefe da agência do SNI do Rio, o coronel Freddie Perdigão (outro militar sobrevivente e autor do atentado).

O atentado ao Riocentro só retardou o processo de redemocratização no Brasil. Diversos militares se negaram a falar sobre o ato, escondendo provas, induzindo as investigações ao erro, e principalmente dificultando a revelação do plano da extrema direita para culpar a esquerda. O processo de redemocratização foi caminhando até culminar, em 1984, na campanha Diretas Já, um movimento de massas sem precedentes, pedindo a volta das eleições diretas para presidente e o fim do regime militar. Este movimento foi crescendo mas não teve êxito em reinstalar a eleição direta para presidente da República. No dia 15 de janeiro de 1985 ocorreu a primeira eleição de um civil desde o início da ditadura, mas de maneira indireta, por meio do Colégio Eleitoral, composto por congressistas e delegados das assembleias legislativas de todo o país. A eleição terminou com a eleição de Tancredo Neves, primeiro presidente da República civil depois de 21 anos de ditadura – que, no entanto, não chegou a tomar posse porque ficou doente, morreu e quem assumiu foi o vice, José Sarney.

O atentado ao Riocentro ainda guarda muitos mistérios até hoje. O silêncio ainda é detectável entre as pessoas que participaram do ato. Diversos políticos e militares da extrema direita dizem que tanto a ditadura quanto o atentado ao Riocentro não aconteceram. E alguns integrantes da extrema direita alegam que tanto a ditadura quanto o atentado ao Riocentro aconteceram para “salvar o povo brasileiro”. Estes mesmos integrantes da extrema direita brasileira ainda se lembram de seus “salvadores”. Jair Bolsonaro, ex-presidente do Brasil, relembrou – durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff em 2016 – do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do DOI-Codi, responsável por ter comandado as sessões de tortura da ex-presidente Dilma, chamado por Bolsonaro de “o pavor de Dilma”.

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Eduardo Sotero da Silva Neto, estudante de Jornalismo (terceiro período) da PUC-Rio.