Wednesday, 25 de May de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1188

Rússia-Ucrânia: Lenta deriva latino-americana em doca seca

(Foto: Espaces Latinos)

Mudando a direção dada à barcaça ibérica perdida entre a Europa e as Américas por José Saramago, maliciosos ventos alísios fazem lentamente o barco latino-americano derivar em direção ao Mar dos Sargaços. Esta navegação num oceano sem costa permite se esquivar das rochas do Mar Negro e daquelas de Azov, marcadas pelas bombas russas e ucranianas, e ignorar os lembretes do curso diplomático dado por Washington e Bruxelas. 

O rumo do navio latino-americano não está claramente seguindo o norte da bússola dos “Países Antigos”. Os almirantes de Haren, o porto de Bruxelas e a sede da Aliança Atlântica estão preocupados. Por que razão esta rota latino-americana se perde no meio do caminho? Alguns veículos midiáticos apontam um dedo denunciador para a esquerda latino-americana insinuando que ela perpetua as ilusões soviéticas da Guerra Fria [1]. Outros jornais veem isto como o efeito de manobras conspiratórias russas [2]. O que há nisso? Que óculos devemos colocar para medir o significado deste passo extra ocidental da América do Sul?

A votação nas Nações Unidas sobre as resoluções relativas ao conflito russo-ucraniano é um termômetro com a vantagem de forçar os membros da ONU a tomarem uma decisão transparente. Os latino-americanos não poderiam escapar a esta obrigação, que muitos gostariam de ter evitado. À medida que as semanas foram passando, e as votações foram sendo realizadas, tornou-se claro que havia um embaraço persistente e crescente. A maioria dos países condenou a agressão russa. Ninguém se opôs a esta sanção diplomática. No entanto, cada vez mais alguns países têm ficado em cima do muro. A abstenção, a recusa de votar, está gradualmente tornando-se uma tentação. Em 4 de março de 2022, a resolução condenando a agressão russa não foi rejeitada por nenhum dos países latino-americanos que eram membros da ONU. Quatro abstiveram-se:  Bolívia, Cuba, Nicarágua e El Salvador. A Venezuela não participou da votação. Um mês mais tarde, em 7 de abril de 2022, Bolívia, Cuba e Nicarágua recusaram-se a suspender a Rússia do Conselho de Direitos Humanos. O Brasil, México e El Salvador abstiveram-se. A Venezuela não participou da votação. Esta escolha, tal como vista nos fóruns da ONU, reflete um certo clima. A imprensa latino-americana retirou a guerra de suas manchetes. O conflito é relegado para as colunas menos importantes, e geralmente sem comentários qualitativos.

Este é um deslize que merece ser comentado. A América Latina, como o Embaixador Alain Rouquié assinalou há vários anos, é um Extremo-Ocidente. Em algum lugar, portanto, é também um Ocidente, partilhando os seus valores. É verdade que os votos foram frequentemente acompanhados por declarações explicativas baseadas no respeito por esta moralidade. Um Estado membro da ONU não pode invadir outro com os seus exércitos e bombardeá-lo. Do norte do México, ao sul da Argentina e do Chile, os presidentes Andrès Manuel Lopez Obrador, Alberto Angel Fernandez e Gabriel Boric Font denunciaram a agressão e condenaram o agressor. É verdade que desde o início desta crise, alguns, como Cuba, censuraram a violação da lei sem denunciar o desordeiro. Outros, como o Brasil e o Uruguai, têm vacilado, retificando os seus votos na direção da lei após uma fase hesitante.

As bancadas eram inicialmente escassas: Bolívia, Nicarágua, El Salvador, Venezuela. Hoje em dia, elas estão mais cheias. É como se a defesa da lei, que sempre foi o escudo soberano defendido com unhas e dentes pelos governos latino-americanos, tivesse perdido a sua relevância. Isto seria esquecer a outra faceta da autodefesa praticada pela América Latina, a da dependência concorrente. Sem capacidades militares, sem potencial econômico e industrial, sem superfície tecnológica, nem redes de influência, cultural e diplomática, a América Latina está em risco de uma soberania limitada, a menos que jogue conforme os apetites concorrentes dos países mais fortes, os Estados Unidos, durante muito tempo, a Rússia e ontem a URSS, e hoje a China, a Coreia, a Índia, o Irã, o Japão e a Turquia. A dificuldade, numa situação de grande crise internacional, como é o caso do conflito russo-ucraniano, é conseguir navegar o mais próximo possível de Caríbdis e Cila, evitando qualquer colisão fatal. A doca seca nos vários fóruns da ONU, dependendo do leque de motivações, parece ser, portanto, uma via de fuga de emergência. Ronaldo Costa Filho, representante do Brasil no Conselho de Segurança, justificou a abstenção do seu país em 7 de abril de 2022 pela “incapacidade do Conselho para falar a uma só voz (…) e as sanções que estão afetando o mundo, aumentando o preço dos combustíveis, gás, cereais e fertilizantes (…) Quanto mais longo for o conflito, maior será o risco de novas instabilidades (…) na Ucrânia como no resto do mundo”.

Não há necessidade de ver qualquer alinhamento com este ou aquele país. Os Estados Unidos têm os seus fiéis aliados, como a Colômbia, ou outros, forçados pelas suas circunstâncias, como Honduras e Guatemala. A Rússia tem uma presença relativamente antiga e preservada em Cuba, mas também, mais recentemente, na Nicarágua e Venezuela, e ainda mais recentemente na Bolívia e El Salvador. Mas num caso como nos outros, não é uma questão de submissão voluntária, nem de fidelidade a cem por cento. Os governos dos Estados mencionados equalizaram suas preferências, tentando contemplar tanto as demandas norte-americanas quanto os apelos comerciais russos. Como diz o ditado, “quem muito ama muito castiga”. A amizade latino-americana com Washington e Moscou é assim expressa verbalmente. É um prazer e não faz mal. Os navios e aviões latino-americanos que transportam e vendem minerais, petróleo e outros alimentos uns aos outros estão de fato seguindo o seu curso habitual.

Resta apenas convencer os mestres do mundo internacional. No final da sua reflexão novelista sobre a deriva dos continentes, José Saramago inventa um diálogo entre um presidente americano e a sua comitiva, diálogo aliás bem atual: “se o mundo começa a ir e vir vagueando de um lugar para outro, qual é a estratégia para lidar com isto (…) e como esta oscilação pode produzir benefícios, mas também pode agravar a indisciplina da região” (latino-americana).

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Notas:

Texto publicado originalmente em francês, em 15 de abril de 2022, na seção ‘Actualités – Amérique Latine’, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original “Russie-Ukraine: lente dérive latino-américaine en cale sèche”. Disponível aqui. Tradução de Andrei Cezar da Silva e Luzmara Curcino.

[1] Correspondentes na América Latina: “En Amérique latine, les accents pro-Poutine de la gauche”, Le Monde, 27 de março de 2022.

[2] Daniel Lozano: “Los tentáculos en español de la propaganda bélica rusa”, El Mundo, 8 de abril de 2022, p 12.

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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris, e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014), e colabora frequentemente com o Observatório da Imprensa, em parceria com o LABOR – Laboratório de Estudos do Discurso e com o LIRE – Laboratório de Estudos da Leitura, ambos da UFSCar – Universidade Federal de São Carlos.