Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

As viagens de Lula na imprensa e a construção de sentidos

(Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Resumo
Este trabalho analisa a construção de sentidos na cobertura da imprensa sobre as viagens internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2025, à luz da Análise do Discurso de Michel Pêcheux e Dominique Maingueneau. O corpus inclui reportagens de O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, publicadas no início de junho de 2025. A metodologia consistiu na análise dos títulos, leads e estruturas argumentativas, com atenção especial aos silenciamentos e enquadramentos ideológicos. Os resultados apontam que as matérias priorizam narrativas centradas em gastos públicos e frequência de viagens, omitindo resultados diplomáticos e econômicos. Observa-se que os títulos funcionam como dispositivos estratégicos de orientação da leitura, influenciando a percepção do público e reforçando efeitos de memória negativos sobre o presidente. A partir do conceito de silenciamento (Abramo, 2006), conclui-se que a imprensa, ao destacar certos aspectos e omitir outros, atua como agente político na disputa por sentidos, contribuindo para a despolitização das ações de governo Lula no campo da diplomacia internacional.

Introdução

A linguagem nunca é neutra, como nos ensina Michel Foucault. Toda produção discursiva está atravessada por posições ideológicas que determinam o que pode ser dito, como pode ser dito e, principalmente, o que deve ser silenciado. Partindo dessa premissa e amparado na Análise do Discurso proposta por Michel Pêcheux, este trabalho examina como sentidos são construídos e direcionados na cobertura da imprensa sobre as viagens internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no ano de 2025. Com base na ideia de formação discursiva — “o que faz com que, de uma posição dada num aparato ideológico, se diga uma coisa e não outra” (Pêcheux, 1990) —, o objetivo é investigar como determinados discursos são privilegiados e outros apagados na produção jornalística. A análise se apoia na minha trajetória profissional de mais de 30 anos no jornalismo televisivo e parte do entendimento de que a imprensa deve ter papel fiscalizador, mas isso não pode justificar manipulações ou omissões que desinformam a população.

Tenho acompanhado a desconstrução da imagem de Lula pela imprensa, que começou nos anos 1970, quando ainda era um metalúrgico inflamado à frente das grandes greves nas fábricas do ABC Paulista.  Também como jornalista, vou defender sempre que a imprensa tenha acesso à informação pública, que tenha papel fiscalizador de qualquer governo, seja ele de esquerda ou direita e que também possa se ater aos fatos sem manipulação e revelando todos os lados da questão, não se esquecendo de que a verdade deve prevalecer num discurso jornalístico.

O objeto de análise é o modo como as viagens de Lula foram noticiadas por três grandes veículos de comunicação: O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo. O artigo se propõe a analisar se as reportagens foram fiéis aos princípios básicos do jornalismo e não silenciaram fatos relevantes, como os resultados trazidos ao país em função das viagens ao exterior do presidente. Para Maingueneau (2004), o discurso jornalístico por si só tem um peso relevante, legitimado, uma vez que o leitor o adquiriu sabendo que o próprio veículo responde a demandas explícitas. Ou seja, quando o jornal se propõe a uma sessão de saúde ou política, como é o caso da nossa análise, ele valoriza a face positiva do leitor, isto é, a face social a que se valoriza.

Fundamentação Teórica

A Análise do Discurso proposta por Dominique Maingueneau e Michel Peux parte do princípio de que todo discurso está inserido em condições específicas de produção que o constituem e o tornam possível. Ao contrário das abordagens linguísticas tradicionais que tratam o discurso como expressão de um sujeito autônomo, Maingueneau entende que o discurso é atravessado por formações ideológicas e inscrito em dispositivos institucionais e sociais. Assim, a linguagem não é vista como um meio neutro de comunicação, mas como um lugar de disputa por sentidos e de exercício de poder.

Um dos conceitos centrais de sua teoria é o de formação discursiva, entendido como o conjunto de regras e restrições que definem o que pode ou não ser dito em determinado campo discursivo. Para Maingueneau, os discursos não existem isoladamente: eles pertencem a campos nos quais certos enunciados são autorizados e outros, silenciados. A formação discursiva, nesse sentido, não é um acervo de frases prontas, mas um regime de regularidades que determina os sentidos possíveis e os modos de dizer que se legitimam em determinada conjuntura.

No caso do discurso jornalístico, há uma formação discursiva bastante marcada por práticas institucionais e expectativas sociais. O jornalismo opera, segundo Maingueneau, com uma dupla cena de enunciação: a cena englobante, que corresponde à instituição jornalística como um todo (seus valores editoriais, sua autoridade simbólica, sua posição no espaço público), e a cenografia, que diz respeito ao espaço do texto, ao jogo de vozes, à escolha dos interlocutores, à forma como o leitor é interpelado. Essa distinção é fundamental para entender como os sentidos são produzidos: o que o jornalista escreve não é fruto de uma decisão individual, mas do lugar que ocupa nessa cadeia institucional e do contrato de leitura firmado com seu público.

Outro conceito importante na perspectiva de Maingueneau é o de interdiscurso, que designa o conjunto de discursos anteriores que atravessam e estruturam todo novo dizer. Ou seja, nenhum discurso se produz do nada; ele retoma, refuta, reforça ou transforma discursos anteriores. Essa noção é essencial para compreender os efeitos de memória que certos enunciados produzem — como ocorre, por exemplo, nos títulos das reportagens analisadas, que mobilizam sentidos cristalizados sobre o presidente Lula e seu histórico político.

O discurso jornalístico, embora se apresente como objetivo e factual, é marcado por uma instância enunciativa que escolhe o que destacar, o que omitir, a ordem das informações e os efeitos de verdade a serem produzidos. No presente trabalho, a abordagem de Maingueneau permite identificar como os sentidos atribuídos às viagens do presidente Lula não são naturais nem neutros, mas construídos a partir de determinadas posições ideológicas, historicamente situadas. O que se noticia, como se noticia, e o que se cala, faz parte de um jogo discursivo que sustenta e legitima determinadas interpretações do real em detrimento de outras.

Ao operar com o conceito de discurso como prática social e ideológica, Maingueneau nos oferece instrumentos analíticos para compreender como a imprensa, mesmo sob o manto da imparcialidade, participa ativamente da disputa por sentidos no espaço público. E, nesse sentido, a crítica ao discurso jornalístico não se volta apenas ao conteúdo, mas às condições de produção e aos efeitos de sentido que nele se inscrevem.

Metodologia 

O corpus do estudo é composto por três reportagens publicadas no início de junho de 2025 por grandes veículos de imprensa brasileiros — O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo — todas tratando das viagens internacionais do presidente Lula.  Para Maingueneau (1984), a organização do corpus em suas especificidades produz um sistema de restrição.  Por exemplo, “enunciados de direita são produzidos a partir de semas como natureza e mérito e enunciados de esquerda, a partir de semas como sociedade e reparação” (POSSENTI; BITTAR, 2016, p. 118).

No Brasil, percebe-se claramente que os discursos se tornaram bem mais explícitos nos últimos anos e poupam os pesquisadores de erros durante a separação de corpus de uma pesquisa.  Porém, quando se trata da imprensa, esse estudo é mais delicado porque há sempre um esforço discursivo de neutralidade, o que torna os posicionamentos ideológicos mais sutis e, muitas vezes, dissimulados sob a forma da objetividade jornalística.

As viagens do presidente Lula ao exterior tomam muitas das principais páginas dos jornais brasileiros. Como o material é extenso, restringimos pela mesma data (início de junho de 2025) os jornais, em formato digital, O Globo, O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo. Ainda assim, também analisamos quantas matérias cada um dos jornais publicou sobre o tema em 6 meses, tendo foco apenas na viagem ou usando o título para dar ênfase que “Lula está sempre em viagem “e quantas são as matérias que mostraram o porquê das viagens e os resultados das missões diplomáticas.

As matérias selecionadas foram:

“Viagens de Lula ao exterior já custaram mais de R$ 50 milhões” – O Globo

“Viagem de Lula à França teve gastos pagos pelo governo brasileiro, ao contrário do que diz post” – Estadão Verifica

“Lula retoma padrão de 1º mandato, intensifica agenda de viagens e vai a 34 países” – Folha de S. Paulo

Além das reportagens, foram observados os títulos, leads e estruturas argumentativas. O critério central da análise foi a presença (ou ausência) de informações sobre os resultados políticos e econômicos das viagens, bem como os mecanismos de silenciamento e enquadramento ideológico empregados.

Discussão

A análise das reportagens revela que os títulos funcionam como elementos-chave na orientação ideológica dos textos. A matéria de Rafael Moraes Moura, publicada no Blog da jornalista Malu Gaspar no site do jornal O Globo, em 06 de junho de 2025, com o título “A cifra milionária dos gastos com as viagens internacionais de Lula”, insere-se em uma formação discursiva que associa o presidente a desperdício de recursos públicos. A construção do sentido se ancora não apenas no conteúdo, mas no modo como a informação é apresentada — ou ocultada. A ausência de menção a resultados econômicos ou diplomáticos reforça a ideia de improdutividade e abuso.

Por sua vez, o jornal O Globo sempre teve um posicionamento liberal, conservador e apoiou governos de direita, inclusive a ditadura militar, com posicionamento assumido num editorial de 2013.

As Organizações Globo sempre foram aparelho ideológico a serviço do capital, do empresariado, a serviço dos governos de direita, portanto contra Luiz Inácio Lula da Silva desde quando ainda era sindicalista e despontava como liderança de esquerda. Apesar disso, o jornal continua usando suas páginas e seus jornalistas alinhados ao ideal de uma direita brasileira avessa a projetos sociais, a um governo de esquerda e a Luiz Inácio Lula da Silva.

Na matéria d’O Globo, percebemos claramente que o título induz o leitor a uma noção de que Lula está gastando dinheiro público, portanto dinheiro do leitor para “suas viagens”. Coloquei o pronome pessoal “suas” para que se perceba que aqui também houve uma intenção discursiva.

No título da matéria do Estadão: “Viagem de Lula à França teve gastos pagos pelo governo brasileiro, ao contrário do que diz post” o mesmo ocorre. Toda viagem internacional de um presidente leva uma comitiva, devido aos diversos encontros laterais e, por ser diplomática, isto é, feita para estabelecer relações comerciais e alianças políticas entre países, é paga com dinheiro público, assim como fazem deputados, senadores, prefeitos, governadores e ministros. Em tal matéria, o título sugere a correção de uma “fake news”, mas a ênfase está novamente nos gastos e na ideia de que o governo mente ao divulgar números. Embora travestida de verificação, a reportagem silencia os objetivos e benefícios das missões diplomáticas, contribuindo para um efeito de desconfiança generalizada.

As viagens feitas por Lula não são privadas, não são de lazer, são diplomáticas e tiveram um real sentido e resultado em cada uma delas. O título deve ser o convite ao leitor, mas a que custo?  Em tempos de redes sociais, cada vez menos o brasileiro lê textos extensos e um título como o da reportagem da coluna de Malu Gaspar faz o leitor acreditar que já sabe do conteúdo, que não precisa se estender na informação. Afinal, Lula gasta cifras milionárias. A informação no título dá o tom de totalidade. O “porquê” do jornalismo se perde com um título que é quase cirúrgico, estratégico e desorienta o leitor em vez de informá-lo. “Para a Análise do Discurso, a retomada de outros acontecimentos e discursos não é aleatória, mas está ligado ao que a formação discursiva permite lembrar ou obriga esquecer” (POSSENTI; BITTAR, 2016, p. 126).

Já na Folha de S. Paulo, o título “Lula retoma padrão de 1º mandato, intensifica agenda de viagens e vai a 34 países” aparenta neutralidade, mas constrói um efeito de memória que remete a um passado criticado, reiterando uma crítica velada. Ao destacar frases do presidente fora de contexto ou com teor quase caricatural — como “não viajo para passear” ou “abra seu coração ao Mercosul” — a matéria oscila entre o factual e o deboche, minando a legitimidade do discurso presidencial. Ainda que o leitor não se lembre do primeiro mandato, o segmento do texto “intensifica a viagens e vai a 34 países”, bate o martelo que, para Lula, viajar é uma pauta das mais importantes do seu governo. É uma crítica velada. O título, nesse caso, que parece ser mais objetivo e, superficialmente, menos ideológico, desorienta mais uma vez quando, mesmo sendo mais extenso que os outros dois, não trata dos resultados e objetivos das viagens. A questão ali é expor o presidente a uma crítica pelo excesso de viagens. O título, em questão, tem um discurso estabelecido de crítica política.

Nesse contexto, é fundamental considerar o conceito de silenciamento. Perseu Abramo (2006) afirma que o que não é dito também comunica — e manipula. A imprensa, ao optar por omitir os acordos assinados, os investimentos estrangeiros captados ou os avanços diplomáticos, constrói um discurso incompleto, que reforça uma imagem pública negativa do presidente e despolitiza as ações de governo.

Considerações Finais

A análise do discurso jornalístico sobre as viagens internacionais do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, à luz da perspectiva da Análise do Discurso de Dominique Maingueneau, evidenciou que os sentidos construídos nas matérias analisadas não são frutos do acaso, tampouco resultado de uma neutralidade informativa. Os títulos, as escolhas lexicais e os silenciamentos observados revelam uma lógica discursiva sustentada por formações ideológicas historicamente estabelecidas, que atuam na produção de sentidos e na construção de um imaginário político específico sobre o presidente e seu governo.

As reportagens publicadas por O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo exemplificam estratégias discursivas que apagam os objetivos diplomáticos e os resultados concretos das missões internacionais, em favor de uma narrativa que enfatiza os gastos públicos e a frequência das viagens. Sob a aparência de objetividade, essas matérias operam dentro de cenas de enunciação que reproduzem e reforçam determinadas posições ideológicas, ainda que de forma velada.

A noção de silenciamento, conforme discutida por Perseu Abramo, mostrou-se fundamental para compreender que, no jornalismo, o que não se diz também comunica — e manipula. Ao omitir os efeitos econômicos, políticos e simbólicos das viagens, o discurso jornalístico analisado reforça uma representação negativa e incompleta do presidente, contribuindo para a despolitização de suas ações no campo da diplomacia internacional.

Como destaca Maingueneau, nenhum discurso é neutro: ele está sempre situado em um cenário de enunciação que impõe limites, determina o que pode ser dito e define quais sentidos são autorizados. Nesse contexto, a imprensa, ao destacar certos aspectos e silenciar outros, atua como agente político na disputa por sentidos. O jornalismo, portanto, não apenas informa, mas participa ativamente das lutas ideológicas que atravessam a sociedade — e, por isso, deve ser permanentemente analisado e problematizado. Portanto, o jornalismo não é neutro! Um título de jornal também é uma forma de interpelar o leitor e de posicioná-lo diante de um acontecimento. E quando esse título opera mais para julgar do que informar, para sugerir do que explicar, ele participa ativamente de um jogo de poder. Assim, a imprensa, ao tratar as viagens como pauta de escândalo e não de política externa, participa da construção de uma narrativa que despolitiza o gesto diplomático e reforça sentidos contraditórios sobre o papel de Lula e do governo brasileiro no mundo. A imprensa se posiciona como ator que corrobora com a disputa de poder, hora atuando para favorecer um dos lados, hora para favorecer o outro lado, como empresas de comunicação que são, favorecer antes de mais nada o detentor dos modos de produção. “A ideologia de classe dominante não se torna dominante pela graça do céu”, o que quer dizer que os aparelhos ideológicos de Estado não são a expressão da dominação da ideologia dominante, isto é, da ideologia da classe dominante (sabe Deus onde a ideologia dominante obteria, então, sua supremacia!), mas sim que eles são seu lugar e meio de realização: “é pela instalação dos aparelhos ideológicos de Estado, nos quais essa ideologia, a ideologia da classe dominante,  é realizada e se realiza que ela se torna dominante”, Pecheux, Semântica do Discurso, 1995, pag 145.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABRAMO, Perseu. Padrões de manipulação na grande imprensa. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. São Paulo: Cortez, 1984.

MAINGUENEAU, Dominique. Novas tendências em Análise do Discurso. 3. ed. Campinas: Pontes, 2004.

PÊCHEUX, Michel. Análise automática do discurso. 5. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1990.

PÊCHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Campinas: Editora da Unicamp, 2009.

PÊCHEUX, Michel. Semântica do discurso. 2. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 1995.

POSSENTI, Sírio; BITTAR, Marlene Guirado. Sentidos em movimento: uma introdução à Análise do Discurso. São Paulo: Contexto, 2016.

Katia Marchena é jornalista com 30 anos de profissão em emissoras como TV Globo, Record, SBT, TV Bandeirantes, Rádio CBN e Rede TV, pós-graduada em Sociedade, Política e Mídia pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e mestranda pela Laboratório de Jornalismo da Unicamp.