Quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

Imprensa tem que cavar mais fundo no caso da derrubada do decreto do IOF

(Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

Foi criada uma oportunidade para nós jornalistas colocarmos uma lupa sobre alguns detalhes que temos deixado de lado em relação ao perfil do Congresso Nacional. A oportunidade foi dada pelo intenso debate que se espalhou pela imprensa, mídias sociais e outras plataformas de comunicação com a decisão tomada na terça-feira (1) pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 79 anos, de recorrer ao Supremo Tribunal Federal (STF) contra a decisão do Congresso que, por iniciativa dos presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), 48 anos, e da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), 35 anos, derrubou (25/05) o decreto presidencial que reajustou as alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). A intenção do governo, com o decreto, era equilibrar as contas públicas e preservar programas sociais como o bolsa família e outros. A decisão de Motta e Alcolumbre consolidou o discurso de Lula sobre justiça tributária, que pode ser resumida em cobrar dos ricos para atender aos pobres. Trocando em miúdos: Lula defende os pobres e Motta e Alcolumbre, a preservação dos privilégios dos ricos. É assim que a história está circulando.

Ocaso vem merecendo vastos espaços nobres na imprensa diária, que acompanha o assunto online. Na terça-feira (1), publiquei o post Derrubada do decreto do IOF consolida o discurso de “justiça tributária” de Lula. Um dos argumentos que usamos para explicar a tensão entre o Congresso e o governo é o fato da maioria dos parlamentares serem da direita conservadora. Escrevi várias vezes sobre este argumento. Durante uma conversa com um colega, que também é historiador, citei a questão dos parlamentares da direita conservadores. Ele ouviu com atenção e depois disse o seguinte: “Não é tão simples assim como os jornalistas estão escrevendo”. E explicou que o problema não é ser da direita conservadora. Chamou a atenção que há vários grupos atuando no Congresso que estão longe dos olhares dos jornalistas. Citou o que considera o mais atuante e conhecido do grande público:  os bolsonaristas radicalizados. Lembrou que no seu segundo ano de governo, em 2020, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), 70 anos, para evitar que fosse cassado, colocou vários deputados federais e senadores do Centrão, como são chamados os partidos que estão presentes em todos os governos, em postos-chave da sua administração. Na época, o círculo pessoal de Bolsonaro reclamou contra a presença do Centrão no governo. Soma-se a este fato que, em 2022, o ex-presidente concorreu à reeleição e foi derrotado por Lula, mas o seu prestígio elegeu mais de 130 parlamentares para a Câmara e o Senado. Além de vários governadores. Aqui é o seguinte. O ex-presidente exigiu dos que ajudou a eleger que seguissem os fundamentos dos seus seguidores, que são: lealdade  à família Bolsonaro, organização no modo de fazer a disputa política, destreza no uso das redes sociais e um discurso antissistema. Não interessa em que partido atuem, eles agem em grupo. E quem desobedecer perde a proteção política de Bolsonaro, o que significa um risco real de não se reeleger.   Esta é uma das raras vezes na sua história que o Congresso tem um grupo com este tipo de organização.

Só para esclarecer. Não estou dizendo que todos os bolsonaristas agem de maneira truculenta. Estou afirmando que há entre eles um “grupo de radicalizados” que tumultuam o ambiente e tornam o Congresso um lugar insalubre, como têm reclamado vários parlamentares, inclusive de oposição. Vou citar dois casos de tumulto que  envolveram a ministra Marina Silva, 67 anos, do Meio Ambiente e Mudança do Clima.  Um deles aconteceu na quarta- feira (2), em uma audiência na Comissão de Agricultura, Pecuária, Abastecimento e Desenvolvimento Rural da Câmara. O deputado Evair de Melo (PP-ES), 53 anos, xingou a ministra, acusando-a de agir como se fosse uma guerrilheira das Forças Armadas  Revolucionárias da Colômbia (Farc) ou uma terroristas do grupo palestino Hamas. Também a comparou com um câncer. O outro caso aconteceu em 28 de maio, na Comissão de Infraestrutura do Senado, presidida pelo senador Marcos Rogério (PL-RO), 46 anos. Depois de um bate-boca entre eles, o senador disse para a ministra: “Ponha-se no seu lugar”. Há muitos outros casos de ministros recebendo desaforos. Um dos parlamentares bolsonaristas  mais articulados é o deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-AL), 50 anos. Ele é o articulador da PL da Anistia, como foi apelidado pela imprensa o Projeto de Lei 2.858/2022, que tem como objetivo anistiar os líderes,  organizadores, financiadores e manifestantes que estavam acampados na frente das unidades militares entre o final de 2022 o início de 2023, exigindo que as Forças Armadas dessem um golpe de estado. E que culminou com o 8 de janeiro de 2023, ocasião em que os manifestantes acampados em Brasília (DF) invadiram e quebraram tudo que encontraram pela frente no Palácio do Planalto, no STF e no Congresso. Este grupo de parlamentares bolsonaristas radicalizados seguidamente  coloca contra a parede os presidentes da Câmara e do Senado. Qual foi a participação dos radicalizados na articulação da derrubada do decreto do IOF? É uma pergunta que a imprensa precisa responder. O negócio é o seguinte: pouca coisa se tem publicado sobre a rotina dos parlamentares bolsonaristas radicalizados no Congresso. Contribuiria para o leitor entender melhor como as coisas acontecem. Vários colegas com quem conversei disseram que eles não se comportam como adversários políticos. Mas como inimigos.

Para arrematar a nossa conversa. Tenho repetido que, independentemente do que irá acontecer no embate entre o governo Lula, a Câmara dos Deputados, o Senado e o STF sobre o IOF, para termos uma ideia do que aconteceu entre quatro paredes entre os parlamentares é necessário conhecer melhor os grupos políticos que atuam no pedaço. A começar pelos bolsonaristas radicalizados. Atirar a  responsabilidade dos ambientes insalubres do Congresso no colo da direita conservadora é simplificar demais a situação. O grupo de bolsonaristas radicalizados não é o único a agir nesta história. A imprensa precisa cavar mais fundo para explicar o que aconteceu.

Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.