
(Foto: Mike van Schoonderwalt/Pexels)
No desenho do Papa-léguas, todos os dias, o Coyote aparece com um plano infalível pra derrubar o Papa-léguas: coloca bombas na estrada, cava buracos na rodovia, veste-se de ovelha e até lança foguetes. Mas, todas as vezes, ele falha miseravelmente e cai nas próprias armadilhas. O sensacionalismo, igualmente grotesco, mereceria o mesmo destino: o fracasso retumbante de sua encenação vazia. Refere-se a uma prática jornalística imprudente que prioriza a atração do público mediante o uso acentuado de conteúdos emocionais e impactantes.
Para alcançar esse efeito, o nocivo modelo editorial recorre frequentemente a exageros, lacunas informativas e, em certos casos, à veiculação de dados imprecisos ou enganosos. Sua marca está na teatralização dos acontecimentos, na espetacularização das tragédias e na negligência dos princípios éticos que regem o ofício jornalístico. Apesar de seu apelo nas grandes mídias, o sensacionalismo é alvo de críticas por comprometer a veracidade da informação e influenciar negativamente a percepção do público.
Imprensa marrom é um termo pejorativo usado para designar veículos jornalísticos que priorizam o sensacionalismo em detrimento da ética e da veracidade. Surgiu como uma adaptação brasileira do conceito de yellow press (imprensa amarela), popular nos Estados Unidos no final do século XIX. O nome “marrom” foi escolhido por jornalistas brasileiros para representar algo ainda mais degradante que o “amarelo”, associando-o à ideia de conteúdo de baixa qualidade.
O sensacionalismo é a principal característica da imprensa marrom: exagero, exploração emocional, manchetes apelativas e foco em tragédias pessoais são suas ferramentas favoritas. Essa abordagem transforma fatos reais em espetáculos midiáticos, muitas vezes distorcendo a realidade para atrair audiência. A imprensa marrom frequentemente ignora princípios éticos do jornalismo, como o respeito à privacidade, à dignidade das vítimas e à checagem rigorosa dos fatos.
Com o avanço das redes sociais, o sensacionalismo ganhou ainda mais força, sendo amplificado por algoritmos que favorecem conteúdos chocantes e virais. A educação midiática é uma ferramenta essencial para combater o sensacionalismo e fortalecer o jornalismo responsável. Convém frisar a importância do princípio da responsabilidade compartilhada, segundo o qual a ética não é só dever do jornalista — o público também precisa desenvolver consciência crítica para não consumir e compartilhar conteúdos apelativos.
Cabe salientar que os primórdios das fake news remontam a muito antes da era digital — elas são quase tão antigas quanto a própria comunicação humana. A diferença atual está na velocidade de propagação, alcance global e uso de algoritmos que amplificam conteúdos sensacionalistas.
Jornalistas e outros observadores situados na popa da barca da vida, essa nau que navega sem descanso, têm o delicado ofício de ir remendando, um a um, os retalhos que compõem o tecido do passado. Sem essa tarefa primordial, o presente passa a não fazer sentido algum, e o porto do futuro, tão almejado por todos, deixa de existir, perdido em alguma região incerta e não sabida.
Portanto, é preciso ir catando esses pequenos recortes e migalhas deixados desordenadamente por todos os cantos, selecionando-os, e, assim, estabelecer uma conexão racional entre eles. Em nosso caso particular, esse é um trabalho que necessita ser feito com o maior rigor e fidelidade possível, dada a tentação contínua, sobretudo de nossas autoridades, em reescrever o passado, apagando os fatos e construindo narrativas fictícias sobre os escombros deixados para trás.
Os critérios de noticiabilidade são os elementos que orientam a seleção e hierarquização dos fatos jornalísticos, como relevância, atualidade, proximidade, impacto social, interesse público e ineditismo. Esses critérios não apenas definem o que será notícia, mas também moldam a percepção coletiva sobre o que importa na esfera pública.
Nesse sentido, o jornalismo que aplica tais critérios com responsabilidade torna-se um pilar essencial na defesa da democracia, ao garantir o acesso à informação de qualidade, promover o debate plural e fiscalizar o poder. Em tempos de desinformação e ataques às instituições, a imprensa comprometida com a ética e a verdade fortalece a cidadania e protege os valores democráticos, funcionando como um contrapeso aos discursos autoritários e às manipulações midiáticas.
Da sabedoria de Machado de Assis (1839–1908), precursor do jornalismo brasileiro e crítico arguto da imprensa nacional, emana o que há de mais elevado em filosofia comunicacional: “O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções” (𝗢 𝗷𝗼𝗿𝗻𝗮𝗹 𝗲 𝗼 𝗹𝗶𝘃𝗿𝗼, 1859).
Trata-se de um modelo paradigmático — ousado e relevante — orientado para atender às exigências profissionais do ofício jornalístico, entre as quais se incluem a defesa intransigente da ética, a responsabilidade social da mídia e o enfrentamento eficaz do sensacionalismo.
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Marcos Fabrício Lopes da Silva é Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, diplomado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), e autor do livro 𝗠𝗮𝗰𝗵𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗔𝘀𝘀𝗶𝘀, 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗱𝗮 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮 (Outubro Edições, 2023-2024). É participante do Coletivo AVÁ, coorganizador do Sarau Marcante e Membro da Academia Cruzeirense de Letras – ACL (Cruzeiro-DF).
