
(Foto: Wendy Maxwell)
Brasil, Equador, México e Venezuela foram pressionados pelo presidente dos Estados Unidos e seus colaboradores nas últimas semanas. Nada de novo, sem dúvida. Assim que assumiu a Casa Branca, Donald Trump colocou os hispânicos na lista de expulsões, os governos latino-americanos na linha dos interesses norte-americanos, e a Espanha, mãe das pátrias da América Espanhola, na lista de demonizados.
Essa insistência persistente, embora tenha se manifestado de maneira diferente de um país para outro, levanta questões. A América Latina é uma periferia geopolítica, sem influência real na diplomacia mundial, sem forças armadas dignas desse nome, sem influência econômica particular. A releitura dos eventos atuais mostra, no entanto, que a América Latina mobilizou o Departamento de Estado (Ministério das Relações Exteriores) e o de Defesa, apesar da guerra de Israel em Gaza e do conflito europeu entre a Rússia e a Ucrânia.
As iniciativas comerciais unilaterais de Donald Trump afetaram a América Latina como o resto do mundo. Todos foram colocados na taxa básica de + 15%. O Brasil, com + 50%, é uma exceção. Cuba, já sujeita a um severo regime de sanções, foi vítima de um aperto adicional. Enquanto isso, a Venezuela, também sob sanções, conseguiu reativar suas atividades petrolíferas com os Estados Unidos, uma vez que a empresa Chevron obteve as autorizações necessárias. A luta contra o tráfico de drogas e a migração para os Estados Unidos justificaram outras intervenções.
O secretário de Estado, Marco Rubio, visitou o Equador e o México nos dias 2, 3 e 4 de setembro de 2025. Ele se congratulou com as transferências para os Estados Unidos, a pedido deles, de cidadãos mexicanos suspeitos de narcotráfico para serem julgados. 29 foram transferidos em fevereiro de 2025 e 26 em 13 de agosto. Ele solicitou ao Equador que acolhesse em suas prisões os migrantes considerados indesejáveis nos Estados Unidos, seguindo o modelo experimentado com El Salvador. No Equador, ele também sinalizou que os Estados Unidos responderiam positivamente a qualquer pedido de presença militar permanente. Como havia sido o caso em Manta, às portas da Colômbia, até 2009. Uma frota de navios militares, incluindo um submarino nuclear e uma dezena de aviões F-35, foi enviada para o Caribe para bloquear as costas da Venezuela, país denunciado como exportador de drogas.
Foi denunciado o papel de um cartel de militares na ativa próximo ao presidente Nicolas Maduro, conhecido como “Los Soles”, emblema que figura nos bonés e ombreiras desses oficiais. Um pequeno barco, suspeito de transportar drogas, foi afundado em 3 de setembro com 11 pessoas a bordo. O cartel dos “Soles é desconhecido dos especialistas no assunto. Nenhuma prova foi apresentada para validar a tese de um barco de narcotraficantes.
O Brasil foi sancionado comercialmente por vários motivos. O primeiro é ter instaurado um processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de ter sido o organizador da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023. Esse processo foi apresentado como contrário aos direitos humanos pelas autoridades dos Estados Unidos. Elas adotaram medidas contra o juiz responsável pelo caso, Alexandre de Moraes, proibindo-o de entrar nos Estados Unidos, assim como o ministro da Justiça brasileiro, Ricardo Lewandowski. O Brasil também é severamente criticado por Donald Trump por ter criado um sistema de pagamento digital chamado Pix. Em poucos meses, esse sistema passou a competir com sucesso com as redes norte-americanas Mastercard e Visa, situação considerada desleal por Washington, que exige sua suspensão.
Um argumento ideológico também foi apresentado por Donald Trump. O Brasil teria dado uma guinada para a extrema esquerda. A Venezuela também, confirmando um passado conturbado e antidemocrático. É difícil entender, com base nas justificativas apresentadas, a coerência dessas iniciativas e declarações. Por que esse envio de forças militares contra a Venezuela, que está longe de ser o centro do tráfico de drogas na América Latina? Os grandes produtores de coca são a Bolívia, a Colômbia e o Peru. A principal logística de exportação passa pelos portos equatorianos e pelo México. As decisões tomadas em relação à Venezuela são contraditórias. Às vezes, elas sinalizam uma possível aproximação após trocas de pessoas e uma abertura petrolífera. Outras vezes, elas cortam de imediato qualquer evolução, com gesticulação militar. A denúncia do comunismo por parte de um presidente que se encontrou com o ditador da Coreia do Norte, cujo regime é oficialmente marxista-leninista e se diz aberto a uma nova reunião bilateral, não faz sentido.
Qualificar Lula, e até mesmo Maduro, de esquerdistas é um argumento das redes sociais, convincente para os convencidos; ele que é verdadeiro amigo dos políticos do Partido Republicano. Então?
Uma declaração feita pelo secretário de Estado Marco Rubio, durante sua visita ao Equador, em 4 de setembro, traz mais esclarecimentos sobre o que não foi dito nessas diversas iniciativas. “Nossa condenação ao tráfico de drogas é modulada pela receptividade demonstrada pelos governos. As autoridades amigas não serão tratadas da mesma forma que aquelas que privilegiam a contestação.” Ele já havia feito esse julgamento em 3 de setembro, na Cidade do México. “Nenhum governo coopera mais conosco na luta contra o crime do que o governo do México, o governo da presidente do México [1]”, disse ele, elogiando a qualidade da cooperação bilateral.
A Venezuela e o Brasil, por outro lado, foram particularmente visados como países pouco confiáveis. Caracas não esconde suas boas relações com a China, o Irã e a Rússia. Quanto ao Brasil, além de ser membro do BRICS, entidade internacional que resiste à influência dos Estados Unidos em todos os domínios, reivindica uma relação igualitária, o que implica, por exemplo, a adoção de contramedidas tarifárias em resposta às medidas dos Estados Unidos. O Brasil também recorreu à OMC contra as decisões alfandegárias do governo Trump. Esforça-se por encontrar mercados substitutos no México, na Ásia e na Europa. Reforçou os seus laços econômicos e diplomáticos com a China. Outros latino-americanos privilegiaram esta via. A Colômbia recorreu à CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e do Caribe) para exigir o respeito pela soberania e pela desnuclearização das Américas, em vigor desde a adoção do Tratado de Tlatelolco em 1968.
A interligação das economias permitiu ao Brasil obter alguns resultados que validam sua estratégia. A tarifa alfandegária de 50% está cheia de lacunas. A maior parte das exportações brasileiras não é afetada, como o suco de laranja, por exemplo. A França confirmou sua cooperação militar. Um grupo naval assinou novos acordos relativos à construção no Brasil de um submarino de propulsão nuclear. Mas a implementação de estratégias comerciais e diplomáticas alternativas está se mostrando difícil.
Dez países membros da CELAC se recusaram, em 5 de setembro, a condenar a presença militar dos Estados Unidos na costa venezuelana[2] . O número de países que censuraram esse envio, que era de 20, pode diminuir de uma eleição para outra. A Guatemala retirou sua assinatura em 5 de setembro. A Bolívia elegerá, em 19 de outubro, um governo de direita, pró-norte-americano. O Chile também pode mudar de lado em novembro próximo. Assim como a Colômbia em 2026. Na Europa, apenas a Espanha manifestou, em palavras e ações, sua recusa em questionar qualquer soberania. O país suspendeu as negociações para adquirir aviões F-35 da empresa norte-americana Lockheed Martin para privilegiar a compra de caças europeus. Seu presidente do governo não foi a Canossa (Washington) em 18 de agosto de 2025.
Permanecem com o Brasil os parceiros do grupo BRICS, a África do Sul e a Índia, maltratados por Washington, a Rússia visitada por Lula, mas que oferece poucas perspectivas econômicas, e a China, há vários anos o principal parceiro comercial. Parceira respeitosa da soberania brasileira, certamente, mas concorrente industrial temível. Lula e sua diplomacia soberana devem passar por uma fase difícil nas próximas eleições presidenciais, em 2026, diante de uma oposição estimulada pelo apoio dos Estados Unidos e, como na Venezuela, que não hesita mais em adotar posições “colaboradoras”.
Notas
Texto publicado originalmente em francês, em 10 de setembro de 2025 no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Donald Trump en grandes manœuvres latino-américaines”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/129250. Tradução de Andrei Cezar da Silva e Ricardo José Liani Filho.
[1] Publicado no El Pais, em 4 de setembro de 2025, p.7.
[2] Argentina, Costa Rica, Equador, Guiana, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana, El Salvador, Trinidad e Tobago.
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Jean Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
