Domingo, 1 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

Na Argentina, São Caetano repreende o presidente Milei

(Foto: Mariano Di Luch/Pexels)

No dia 7 de agosto, a Argentina celebra um santo italiano, São Caetano, o santo “do pão e do trabalho”. Todos os anos, em todo o país, mas simbolicamente em Buenos Aires, no bairro popular de Liniers, na rua Cuzco, 150, uma missa reúne milhares de fiéis que enfrentam dificuldades na vida.

Uma missa é celebrada na igreja dedicada ao Santo, inaugurada em 1875, presidida pelo arcebispo da capital. Este ano, no dia 7 de agosto, Dom Jorge Garcia Cuerva, percorreu o caminho da cruz de forma abreviada para dizer em voz alta o que tinha no coração e, sem dúvida, também no estômago. O pão, disse ele, não se recusa a ninguém. E acrescentou, em alusão direta ao chefe de Estado: “Muitos não têm termômetro social, ignoram o que os argentinos comuns estão passando”. A homilia não teve nada de improvisada.

A Comissão Executiva da Conferência Episcopal Argentina, dois dias antes da festa de São Caetano, enviou uma mensagem “ao nosso povo”. “A devoção a São Caetano”, afirma a mensagem, “expressa profundamente uma fé que não se resigna ao sofrimento. Neste dia, somos convidados a ouvir o clamor de tantos de nossos irmãos e irmãs que acreditam na contribuição para o bem comum através do trabalho. […] A falta de trabalho fere profundamente a dignidade das pessoas […]. Na economia, preservar o trabalho deve ser uma prioridade absoluta. Nenhuma medida pode ser vista como positiva à custa da perda de emprego dos trabalhadores” [1].

Uma marcha de vários quilômetros, após a missa, conduziu milhares de peregrinos sociais até as portas da Casa Rosada, sede da presidência argentina, que seguiam atrás das efígies do Santo e da Padroeira da Argentina, a Virgem de Luján, bem como atrás das bandeiras dos sindicatos. Esta procissão incomum foi patrocinada pela Frente pela Soberania, Trabalho Digno e Salários Justos, uma intersindical composta pela ATE (Associação dos Trabalhadores do Estado), pela CGT (Confederação Geral do Trabalho), pela CTA (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Argentina), pela CTA Autônoma, pela ACTT (Confederação Argentina dos Trabalhadores dos Transportes) e pela UTEP (União dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Economia Popular). O lema ecumênico e social cruzava as palavras do Santo com as dos sindicatos: “Terra, Teto, Paz, Pão e Trabalho”.

Foi o agravamento da crise argentina e a figura social do Papa Francisco, antigo arcebispo de Buenos Aires, que permitiu, em 2016, essa convergência entre São Caetano e as centrais sindicais. Há muito tempo que São Caetano permitia conciliar a fé popular nesse Santo com vocação trabalhista e com a doutrina social da Igreja. Em 2016, data da primeira marcha religiosa e sindical, o chefe de Estado, Mauricio Macri, defendia os méritos do liberalismo para tirar a Argentina do atoleiro. Ao final de seu mandato, a Argentina estava fortemente endividada com o FMI e a pobreza atingia quase 40% da população ativa. O mandato de Alberto Fernández, seu sucessor justicialista, embora prejudicado pelo desastre financeiro que herdou, não mudou nada. Esse duplo fracasso econômico, político e ideológico levou ao poder um ilusionista do mercado, que supostamente faria com que os dólares arrancados com uma motosserra de um Estado ineficiente fossem distribuídos à sociedade.

A magnitude da manifestação sindical e religiosa de 7 de agosto de 2025 é um fato comprovado. Javier Milei, o presidente, reduziu drasticamente o alcance do Estado. Um ministério da “desregulamentação do Estado” foi criado para esse fim.  Os serviços públicos, culturais, de educação, saúde, pesquisa, aposentadorias e assistência a pessoas com deficiência foram reduzidos ao mínimo. O capital estrangeiro viu se abrir um Eldorado que, visto dos Estados Unidos, de Bruxelas ou dos novos países industrializados da Ásia, incluindo a China, é qualificado, com pudor e elegância, como um lugar de “oportunidades” de negócios. A última dessas oportunidades, aproveitada em 6 de agosto, diz respeito às empresas internacionais de extração de minerais, que foram isentas de impostos. Paralelamente, para equilibrar as contas prejudicadas por esses presentes e pagar a dívida externa, Javier Milei usa seu direito de veto constitucional opondo-se a qualquer reajuste dos rendimentos recebidos por universitários, pesquisadores, aposentados e deficientes, corroídos pela inflação. O atual inquilino da Casa Rosada cristalizou a divisão de sua Argentina em duas partes. Uma, minoritária, ligada às empresas estrangeiras e a um peso supervalorizado. Esta é a parte satisfeita. A outra, majoritária, marchou no dia 7 de agosto pela longa avenida Rivadavia para gritar sua frustração até chegar diante das janelas da presidência.

Ela se manifesta, segundo as palavras do sindicalista Alejandro Gramajo, secretário-geral da UTEP, “para pôr um fim à política de miséria planejada” [2]. Caberá ao Partido Peronista e às formações partidárias da oposição, que não se aliaram ao partido La Liberté Avance, de Javier Milei, compreender como deixaram o campo livre para uma figura que, segundo as palavras do arcebispo de Buenos Aires durante a missa dedicada ao Santo, “recusa o pão àqueles que precisam dele” e “por falta de termômetro social, não conhece o cotidiano do argentino médio”.

Clarividentes e mágicos de todos os tipos, mediante pagamento, oferecem seus serviços. Jimena La Torre, astróloga renomada, por exemplo, recomenda captar a energia positiva do Santo por meio de uma vela colorida, uma fita da mesma cor, a carta 7 de um baralho de pôquer e sete espigas de milho. Tudo isso deve ser colocado em um pequeno altar diante de uma imagem de São Gaetano. Depois de acender a vela, o ritual é considerado infalível.

Os sindicalistas, embora se coloquem sob a bandeira do homem santo, preferem a comunhão do 1º de maio e do 7 de agosto. Eles invocam a memória do Papa Francisco, neste “primeiro 7 de agosto sem ele. Sua marca e suas convicções nos encorajam a continuar a luta por uma pátria sem excluídos nem marginalizados” [5]. Se “a estratégia do governo”, conclui o secretário-geral da CTA Autônoma, Hugo “Cachorro” Godoy, “é nos fragmentar, nós, ao comemorarmos São Caetano, construímos a união de todos os trabalhadores”.

Texto publicado originalmente em francês, em 08 de agosto de 2025 no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Argentine : 7 août ou 1er mai 2025 ? Saint Gaétan sermonne le président Milei”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/128869. Tradução de Andrei Cezar da Silva e Luzmara Curcino.

[1] Conferência Episcopal Argentina, Mensagem da CEA, Festa de São Caetano, CEA N° 121/2025, 5 de agosto de 2025.

[2] Em Resumen Latinoamericano, 6 de agosto de 2025.

[3] Ramiro Berdesegar, em Infobae, 30 de julho de 2025.

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Jean Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).