Sábado, 14 de março de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1379

Um livro para refletir sobre os noticiários internacionais da grande mídia

(Foto: Divulgação)

Quando escrevi o livro A Ideologia dos Noticiários Internacionais – finalizado em 2020 e lançado dois anos depois devido à pandemia de Covid-19 –, tinha em mente que um volume seria suficiente para divulgar a um público amplo algumas das questões que já vinha trabalhando há cerca de uma década, tanto aqui no Observatório da Imprensa, principal veículo brasileiro de crítica de mídia, quanto em minhas atuações profissionais como professor e pesquisador. No entanto, desde então, ocorreram fatos importantes da geopolítica mundial – como a retirada das tropas estadunidenses do Afeganistão, após vinte anos de ocupação do país asiático; a guerra entre Rússia e Ucrânia; a onda de golpes de Estado de caráter anticolonial no continente africano; e o recrudescimento do genocídio do povo palestino por Israel.

Como de costume, as coberturas midiáticas sobre esses e outros acontecimentos foram marcadas por grotescas manipulações e falsificações históricas, alinhadas aos interesses das grandes potências imperialistas, sobretudo dos Estados Unidos. Diante disso, concluí que uma única obra não seria suficiente para analisar as manipulações presentes nos discursos geopolíticos da grande mídia brasileira.

Desse modo, em A Ideologia dos Noticiários Internacionai

s – Volume 2, lançado pela Editora Emó, dou continuidade à análise crítica sobre como a grande imprensa brasileira manipula a cobertura de acontecimentos geopolíticos globais, transformando-os em “espetáculos midiáticos”. Essas narrativas frequentemente reforçam os interesses das potências imperialistas, valendo-se de “atalhos cognitivos” – como maniqueísmos, estereótipos e personalizações – para simplificar questões complexas e impor uma visão binária (bem versus mal) da realidade internacional.

No primeiro capítulo, destaco o declínio da hegemonia estadunidense e o advento de um mundo multipolar, liderado por China e Rússia, com a expansão dos BRICS e os movimentos anticoloniais na África como sintomas dessa transição. Também abordo o crescimento da extrema direita global (Trump, Bolsonaro, Le Pen, entre outros), vinculando-o a crises econômicas, manipulação digital e ao abandono de pautas populares pela esquerda. Além disso, critico o “capitalismo verde”, que instrumentaliza a agenda ambiental para manter países pobres em estado de subdesenvolvimento, enquanto nações ricas perpetuam a exploração de recursos naturais.

No segundo capítulo, examino o papel da grande mídia na disseminação de desinformação geopolítica. Um exemplo recente é a falsa acusação de decapitação de bebês israelenses pelo Hamas durante a Operação Dilúvio de Al-Aqsa, amplamente divulgada pela GloboNews e similares, mesmo após ser desmentida.

Do terceiro ao sétimo capítulo, analiso acontecimentos-chave da geopolítica recente, anteriormente citados, a partir de artigos que publiquei na imprensa progressista. Sobre a retirada dos Estados Unidos do Afeganistão, aponto como a mídia ignorou os reais interesses por trás da ocupação. No conflito Rússia-Ucrânia, a cobertura midiática reduziu a guerra a uma narrativa simplista, omitindo contextos históricos como a expansão da Otan. Já os golpes de Estado em países africanos como Níger e Gabão — noticiados como episódios isolados — são interpretados como resistência ao neocolonialismo francês. A Venezuela, alvo constante de estigmatização, recebe atenção no sexto capítulo, enquanto o último aborda a geopolítica palestina, denunciando a cobertura pró-Israel que desumaniza palestinos e omite décadas de ocupação, apartheid e genocídio.

Mais do que expor as distorções midiáticas, proponho um exercício de desconstrução crítica. Convido o leitor a questionar as narrativas dominantes e a desconfiar das “verdades” prontas. O livro busca ser uma ferramenta para decifrar as complexidades do cenário global. Espero que esta obra não chegue apenas a estudantes de comunicação, jornalismo e relações internacionais, mas a todos que buscam entender como a mídia tenta moldar — e, não raro, deforma — nossa percepção da realidade.

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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Unicamp, especialista em Jornalismo pela Faculdade Iguaçu e professor da UFSJ.