
(Foto: Wisam Alazawi/Pexels)
O Brasil caiu da 51ª para a 57ª colocação no Índice de Democracia 2024 da The Economist Intelligence Unit.
Precisamos olhar para esse indicador não só como um reflexo, bem notado pelo relatório, de “polarização das instituições” ou embate com big techs no contexto de avanço das mídias sociais no dia a dia da população, mas também a partir de um olhar para um ambiente cada vez mais hostil à liberdade de expressão e, sobretudo, ao jornalismo profissional.
Segundo um levantamento da Bites, por exemplo, mais de 703 mil ataques virtuais contra a imprensa foram registrados em 2024 no Brasil, o equivalente a quase 2 mil agressões por dia ou 2 por minuto.
Além disso, nos últimos 10 anos, o país perdeu mais de 2 mil mídias jornalísticas, de acordo com estudo do projeto Mais pelo Jornalismo (MPJ) e, no mesmo período, o jornalismo profissional, conforme números da Fenaj, perdeu 18% dos postos de trabalhos com carteira assinada. Mas, como todo contexto complexo, há outros indicadores que podem apontar caminhos e perspectivas não só de sobrevivência para a mídia, mas de reforço de seu papel enquanto pilar de uma democracia saudável.
Nesse sentido, o Digital News Report 2025, do Reuters Institute, reforça, dentre outros pontos, que a confiança da população em mídias tradicionais – que seguem, portanto, critérios profissionais de apuração, noticiabilidade, uso de fontes e de respeito ao contraditório – é muito mais expressiva para o consumo de notícias do que as mídias sociais.
Assim, enquanto veículos como Folha de S. Paulo, Record News, Band News, O Globo e SBT superam ou se aproximam da marca de 60% de confiança, canais como TikTok e Twitter estão abaixo de 20% no mesmo índice – e o YouTube, melhor rankeado entre as redes, não alcança 40% de confiabilidade.
Em outras palavras, mesmo diante de uma crise, o jornalismo profissional ainda é o principal ponto de ancoragem quando se trata de credibilidade para a população. Mas então o que fazer para o enfrentamento de um cenário instável crescente que alcança não só o diálogo da grande mídia com os novos públicos/gerações, mas também a sustentabilidade financeira da mídia?
Essa tensão entre importância e fragilidade exige mais do que retórica em defesa da liberdade de imprensa. Exige também ação e coragem para enfrentar um tema ainda tabu em muitas redações: a viabilidade dos negócios.
O jornalismo possui, antes de tudo, uma função pública. Mas essa função precisa ser financiada. A defesa da imprensa passa, necessariamente, pela busca por novos modelos de negócio, complementares ou centrais na dinâmica dos novos tempos midiáticos.
Em outras palavras: ou o jornalismo se reinventa, ou será sufocado não apenas por ataques autoritários, mas pela própria incapacidade de se manter de pé.
O modelo como caminho
A reinvenção da imprensa não virá apenas pela via editorial, mas também pelo modelo de negócio. É preciso romper com a ideia de que pensar em sustentabilidade financeira compromete o valor do jornalismo. Não compromete: viabiliza.
Essa mudança de mentalidade já começa a acontecer, ainda que de forma desigual. Modelos baseados em relacionamento direto com o público — como newsletters pagas, clubes de assinatura, financiamento recorrente e micropagamentos — vêm se consolidando em veículos como The New York Times, The Guardian, El Diario e, no Brasil, The Shift, Nexo, TheNews, DROPS, e outras iniciativas independentes.
Outro vetor promissor é a descentralização da distribuição. O crescimento de criadores de conteúdo jornalístico no YouTube, em podcasts, newsletters e plataformas de nicho revela uma transformação na forma como o público consome e se engaja com a informação. A credibilidade agora também é encarnada em rostos, não apenas em marcas. Jornalistas que se tornam influenciadores não estão banalizando o ofício. Estão abrindo novas frentes de legitimidade.
Desde que essa visibilidade venha acompanhada de rigor, responsabilidade e ética, ela pode fortalecer — e não enfraquecer — a função pública do jornalismo.
Os veículos também precisam saber como operar melhor no ambiente digital, se utilizando, por exemplo, de novas plataformas com recursos de IA que agregam notícias e ajudam as pessoas a consumirem conteúdo fora do Google e das redes sociais, como no caso do Feedly e do Notjournal.
Gatekeepers com um olhar para o negócio
Fato é que, em um ambiente onde as fake news são o motor da desinformação crônica, o jornalismo profissional deixou de ser apenas o espaço da difusão dos fatos, mas também a ponte para desmentir, contestar e contrapor “notícias” falsas que desestabilizam nossa democracia.
E isso exige também agilidade, domínio tecnológico, presença digital e investimento, porém nenhum investimento será possível se os profissionais da imprensa não buscarem novos caminhos para a viabilidade financeira da imprensa.
Os profissionais de comunicação e da mídia precisam recuperar a ousadia de imaginar novas possibilidades que, em outros anos, revolucionaram a forma de se consumir notícias no Brasil e no mundo.
Isso significa experimentar novos formatos, testar modelos híbridos, buscar diálogo com as comunidades que informa, analisar estratégias diante do avanço da IA e das big techs, atuar em múltiplas plataformas, criar produtos relevantes e encontrar formas de cobrar por isso.
É hora de abandonar a resistência passiva. A democracia não sobreviverá sem o jornalismo, que segue sendo o gatekeeper da credibilidade. Mas o jornalismo não sobreviverá sem um modelo viável que abra seus caminhos no presente e no futuro.
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Guga Peccicacco é Gerente de Comunicação e RP da Infor. Executivo com +15 anos de experiência em relações públicas, marketing de conteúdo, branding e marca empregadora, liderou projetos e times de comunicação para empresas tech em 10 países da Europa e Américas, conquistando 14 prêmios e reconhecimentos.
