Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

“Liberar desinformação pode ter consequências diretas na segurança das pessoas”, afirma especialista

(Foto: Lisa from Pexels)

Jaqueline Sordi é bióloga e jornalista especializada em pautas ambientais. Doutora e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e também Especialista em Sustentabilidade pela Universidade da Califórnia (UCLA). Publica em veículos nacionais e internacionais como Sumaúma, Agência Lupa, Folha de S. Paulo, Zero Hora, Mongabay e Skeptical Science.

Em 2020, recebeu financiamento do Google News Initiative para desenvolver o projeto Lupa na Ciência, focado no combate à desinformação sobre a covid-19. O projeto se tornou referência no país durante a pandemia. Em 2021, foi um dos cinco profissionais de comunicação indicados para o Prêmio Comunique-se na categoria Sustentabilidade, considerado o “Oscar” do jornalismo no Brasil. Em 2023, foi uma das três brasileiras vencedoras do programa Disarming Disinformation, do International Center For Journalists (ICFJ), focado no combate à desinformação científica e ambiental.

Em 2024, teve uma de suas reportagens publicadas em Sumaúma premiada pelo Digital Media Americas Awards. Atualmente é gerente de engajamento do Greenpeace no projeto COP-30.

Nesta entrevista, concedida no âmbito da disciplina Jornalismo e Meio Ambiente da Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) da UFRGS, Sordi destaca as implicações da desinformação climática e maneiras de combatê-la.

Valéria Baptista (VB) – Segundo pesquisa do DataFolha divulgada em 1º/05/2025, a parcela de brasileiros que nega os riscos das mudanças climáticas aumentou nos últimos meses. A pesquisa informa que o índice passou de 5% em junho de 2024 para 9% em abril de 2025. O número já havia subido para 7% em outubro de 2024, sinalizando uma tendência de alta entre os que minimizam as ameaças do aquecimento global. Os dados mostram, contudo, que a maioria da população ainda considera as mudanças climáticas um risco real:  53% dos entrevistados afirmam que o perigo é imediato, outros 35% dizem que os impactos afetarão as próximas gerações, somando 88% de percepção de risco – patamar inferior aos 94% registrados em junho e aos 92% de outubro do ano passado. Sobre a percepção pública da crise climática, pode-se dizer que as pessoas estão abertas para a informação climática e dispostas a cooperar no enfrentamento da crise?

Jaqueline Sordi (JS) – Eu entendo que sim, porque – nos últimos anos – as pessoas estão sofrendo tão diretamente as consequências da crise climática que acabam se tornando mais abertas para receber informações e para internalizar que a crise climática realmente existe. Elas estão cada vez mais abertas para as informações sobre o assunto, principalmente porque isso afeta diretamente a vida delas; no entanto, por se tratar de um tema tão difícil e complexo, tão cheio de dúvidas e de medos, também abre um caminho muito fértil para a desinformação climática. Uma das estratégias da desinformação é exatamente trazer soluções fáceis e respostas absolutas para questões complexas como a crise climática. Em um momento em que as pessoas estão mobilizadas, em que a emoção fala mais alto que a razão, elas acabam buscando essas estratégias como uma forma de conforto. E ao mesmo tempo que as pessoas estão no momento atual mais abertas à informação, estão também mais suscetíveis à desinformação.

VB – A desinformação climática vai na contramão da educação ambiental provocando um desserviço à causa ambiental, já que consegue muitas vezes ter um efeito danoso junto à opinião pública. Qual o papel da educação ambiental no combate à desinformação climática?

JS – A educação ambiental tem um papel fundamental. A gente precisa ter uma base conceitual sobre meio ambiente, sobre a natureza e sobre a nossa relação com a natureza muito bem estabelecida e internalizada para não ficar vulnerável aos discursos falsos, aos discursos de negação. E essa base só é possível pela educação primária, ou seja, desde a infância. A gente vê nas gerações que cresceram distantes da natureza e cada vez mais nas que estão crescendo as consequências disso, que é exatamente essa vulnerabilidade de acreditar nessas narrativas. E isso é muito pela deficiência dessa conexão com a natureza, não só com a ciência da natureza, mas também com a conexão física da natureza. De entender que fazemos parte de algo maior. As nossas gerações cresceram muito com a ideia de humanos de um lado e natureza do outro como sendo coisas diferentes e separadas. E essa ideia já não se sustenta mais, porque já sabemos que o mundo não funciona dessa forma. Essa deficiência nesta percepção acaba nos deixando vulneráveis. Eu entendo que a educação ambiental trabalhada na forma de reaproximar desde a infância e acabar com a construção da ideia de homem e natureza como algo separado é fundamental para não nos deixar mais vulneráveis a essas narrativas.

VB – Uma pesquisa da Broadminded realizada ao longo do mês de janeiro de 2025 entrevistou pessoas de seis países da América Latina sobre a Meta e o uso de suas redes sociais. Um dos tópicos foi a mudança na política de moderação de conteúdo e o fim do programa de checagem da empresa. Nesta pesquisa, 77% dos brasileiros discordam que disseminar notícias falsas seja “direito democrático”. Os brasileiros foram os que mais rejeitaram a mudança, com 41% discordando dela por acreditarem que a medida pode favorecer a disseminação de notícias falsas e discurso de ódio. Outros 34% disseram concordar por se tratar de liberdade de expressão. Os que concordam que remover iniciativas de checagem de fatos das plataformas de social media representa uma ameaça direta à democracia somam 54%. Diante disso, quais são as consequências da desinformação para a sociedade em geral?

JS –As consequências da desinformação são extremamente danosas. Liberar discursos de ódio sob o argumento da liberdade de expressão pode ter consequências diretas na segurança das pessoas. E liberar desinformação também. Eu entendo que, sobre essas medidas, é preciso ter um debate mais aprofundado sobre a moderação das redes, porque estamos entrando em um universo completamente novo. Antigamente a informação era passada de um para muitos, de poucos para muitos, e esses poucos trabalhavam com uma base de um processo de curadoria, de checagem de informação. Mas hoje em dia isso não existe mais. Só que essa nova realidade nos foi imposta sem que houvesse uma reflexão sobre ela. E hoje estamos vendo as consequências disso. Então, o ideal seria: parar tudo, dar um passo atrás e ver que potencial dano pode causar e, dessa forma, minimizar. Eu defendo a ideia de lugares de checagem, de restrição de publicações desde que não sejam vinculados a um viés político, mas sim científico.

VB – As redes sociais são um terreno fértil para a propagação de desinformação devido ao fácil acesso e ao grande número de pessoas conectadas. Como combater a desinformação climática neste contexto?

JS – Temos uma frente maior, que é a de combater a raiz do problema, que está dentro de grandes estratégias de desinformação oriundas de grandes empresas com interesses outros nessas narrativas, ou seja, interesses de manter o status quo. Um exemplo é a indústria do petróleo que, para manter o lucro, nega as consequências desse modelo de produção. Nós temos um trabalho maior que é o de mudar esse espectro mais complicado próprio da indústria. Mas também temos estratégias que cada um pode aplicar e exercer para evitar esse tipo de situação, entre as quais está em saber identificar uma notícia falsa, cuidar antes de circular, sempre desconfiar de informações que vêm com verdades absolutas, soluções mágicas ou certezas que contrariam o senso comum por mais atrativas que sejam. E também em situações de vulnerabilidade em que o emocional acaba falando mais alto que o racional, por exemplo, quando houve a enchente no RS. É aconselhável ter isso em mente para manter o racional sempre atento e não se deixar levar por essas narrativas que são muito atrativas nesses momentos.

VB – Devido às últimas chuvas intensas ocorridas no mês de junho no RS, alguns políticos levantaram a discussão de que a formação de bancos de areia no rio Guaíba agravaria as enchentes, sendo necessário fazer o desassoreamento do rio. No entanto, especialistas rebatem essa teoria dizendo que os bancos de areia são um tipo de formação geológica que ocorre devido a um processo natural de sedimentação e que a dragagem do rio Guaíba seria desnecessária. O que separa a desinformação climática de um ponto de vista distinto sobre uma questão como essa, por exemplo?

JS – Temos que pensar que a questão traz um ponto de vista político e um ponto de vista científico. A política não tem o papel de assumir o lugar da ciência. Os políticos têm que ouvir a ciência e, a partir do que a ciência diz, tomar as decisões. É claro que a ciência quase nunca traz certezas absolutas, pois ela é feita de consensos, é feita de maiorias que levam para um mesmo caminho. Então, o papel político é sempre ouvir e tentar entender quais são os consensos e como agir a partir daí. Discordâncias sempre vão haver. Para que as melhores iniciativas sejam tomadas, as iniciativas mais corretas ou menos danosas, temos que entender que a ciência não é feita de certezas absolutas, lembrando que em diversos casos dentro da própria ciência vamos ouvir opiniões divergentes. Em propostas do âmbito político as tomadas de decisões têm mais chances de acerto quando há espaço para discussão científica. Acredito que falta um pouco dessa capacidade que a gente perdeu de dialogar, de discutir, de entender diferentes pontos, de entender o que é ciência e o que não é, e quais são as limitações da própria ciência.

VB – Nesta questão fiquei pensando no público em geral que fica na dúvida sobre qual lado tem razão. Mas aí entra o papel da escola, não é mesmo?

JS – Talvez não precise abrir tanto essas divergências, mas sim mostrar o que é consenso ou quais são os caminhos possíveis. Isso precisa ficar claro que foi feito a partir de discussões científicas. Mas, é claro, entra o papel da escola, dos veículos de comunicação e da própria política.

VB – O homem se afastou da natureza especialmente a partir da Revolução Industrial e da intensificação da urbanização. O que o homem contemporâneo precisa mudar na sua relação com a natureza, em tempos de crise climática, de maneira que seja possível construir uma sociedade consciente, colaborativa e crítica com relação às questões ambientais?

JS –O homem precisa voltar a ouvir quem nunca se afastou da concepção de que homem e natureza são uma coisa só. Temos aí milhares de pessoas, povos indígenas, comunidades tradicionais que há milênios vivem em harmonia com a natureza. Não se afastaram desse conceito e, por isso, são exemplos de como viver sem destruir. O nosso modelo de sociedade já se mostrou insustentável, e a gente precisa aprender a escutar quem ainda vive num modelo de vida sustentável. E quem tem a resposta para essa pergunta são esses povos.

VB – Em uma de suas matérias, você cita as falsas dicotomias como uma das cinco estratégias usadas para manipular e confundir a opinião pública. Como exemplo disso, grupos de interesse econômico divulgam a falsa ideia de que desenvolvimento e preservação estão em lados opostos. Poderia falar sobre essa falsa dicotomia e apontar quais interesses estariam por trás desse tipo de desinformação climática?

JS – A gente tem a ideia de que o modelo de sociedade ocidental no qual vivemos representa desenvolvimento, mas, na verdade, ele representa um modelo de exploração insustentável com relação aos recursos que a gente tem. Na verdade, a gente nem deveria chamar de recursos. Eu usei esse termo para que fique mais fácil de entender. Não são recursos, e sim elementos naturais. A gente associa a ideia de desenvolvimento a esse nosso modelo, mas hoje em dia já se sabe que esse modelo não representa necessariamente desenvolvimento, porque é um modelo insustentável. As grandes indústrias que se sustentam  a partir desse modelo seguem alimentando essa narrativa para continuar lucrando e manter o status quo. E essa é a falsa dicotomia. A gente pode entender que desenvolvimento está muito mais ligado a estabelecer uma relação com o meio ambiente sem destruí-lo, que, no final das contas, é uma relação muito mais complexa, mais tecnológica e muito mais intensa e profunda do que esse modelo de chegar a um local, explorar, retirar recursos e ir embora. Essa falsa dicotomia está também relacionada muito com a apropriação da ideia de um desenvolvimento que não condiz mais com a realidade.

VB – A educação para a cidadania já se comprovou um processo lento na sociedade brasileira devido principalmente ao baixo investimento em políticas públicas por parte dos governos. Não dá para esperar que a sociedade atinja a maturidade nesse aspecto, ou seja, é preciso agir rápido com medidas de mitigação no que se refere à emissão de gases de efeito estufa, já que eventos extremos estão acontecendo com muita frequência. Como podemos ter esperança de que a sociedade capitalista vai se engajar na luta para salvar o planeta, a própria vida e a das gerações futuras?

JS – Acredito que temos que trabalhar com três frentes: uma a curto prazo, outra a médio e outra a longo prazo. A frente a curto prazo seria pensar em medidas que estão inseridas na lógica atual para tentar mitigar e adiar, porque a gente precisa reduzir as emissões. A gente não vai conseguir mudar esse sistema econômico nem tampouco reeducar o homem na sua relação com a natureza agora. Então temos essa dicotomia e precisamos trabalhar dentro da própria lógica para implementar ações de redução – seja por meio da própria tecnologia de captura de carbono, seja por investimento em energia renovável, seguindo o modelo de produção, só que dentro da energia renovável. E aí pensar a médio prazo em políticas públicas que ajudem nesse sentido, políticas tanto de educação como de redução de desmatamento, de taxação para poluentes entre outras; e medidas a longo prazo, sendo a principal delas a que está dentro dessa questão mais profunda da educação, a de educar pela escola, pelos sistemas de educação, retrabalhando a questão ambiental a partir de uma nova perspectiva que não separa o homem da natureza. O desafio tem que ser encarado nessas três frentes, senão fica impossível mesmo, já que não dá tempo de a gente mudar o modelo de sistema econômico atual para resolver a crise climática, porque quando a gente conseguir fazer isso o planeta já terá acabado.

Publicado originalmente em Observatório do Jornalismo Ambiental.

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Valéria Baptista é Revisora de Textos da UFRGS. Cursou a disciplina Jornalismo e Meio Ambiente em 2025/1, quando produziu essa  entrevista sob orientação da professora Eloisa Loose.