Sábado, 14 de março de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1379

Ataque israelense a jornalistas em Gaza é faceta extrema da violência e da censura

(Foto: Fernando Arcos/Pexels)

O ataque que causou a morte de seis jornalistas em Gaza, no último dia 10, foi o mais mortal para trabalhadores da mídia na guerra de Israel e Gaza até o momento. Entre as vítimas estavam o repórter palestino Anas al-Sharif, um dos principais correspondentes da TV Al Jazeera na cobertura da guerra, o jornalista Mohammed Qreiqeh e os operadores de câmera Ibrahim Zaher, Mohammed Noufal e Moamen Aliwa, além do jornalista freelancer Mohammad al-Khaldi. Segundo a emissora catari, o exército israelense já assassinou dez de seus correspondentes desde o início da guerra, em 7 de outubro de 2023.

Segundo informações da emissora e das autoridades de Gaza, o grupo foi alvo de um ataque aéreo direcionado e admitido por Israel contra a tenda de imprensa em que estavam, nas proximidades do Hospital Al-Shifa, na região leste da Cidade de Gaza. Esta foi a primeira vez que as Forças de Defesa de Israel (IDF) assumiram rapidamente a responsabilidade pela morte de um jornalista, justificando o ataque pois Anas al-Sharif seria um “chefe de uma célula terrorista do Hamas”. Uma reportagem da BBC afirma que, embora ele possa ter atuado em uma equipe de mídia do Hamas antes do conflito atual, há poucos indícios de que o repórter tivesse ligação com o grupo, e a alegação foi negada tanto por Sharif quanto pela Al Jazeera.

Segundo o Committee to Protect Journalists (CPJ), mais profissionais de mídia foram mortos na cobertura deste conflito do que em qualquer outro que o comitê documentou em suas mais de três décadas de atividade. Além disso, 2024 foi considerado pelo CPJ o ano mais mortal para jornalistas até hoje: segundo o relatório do comitê, foram ao menos 124 mortes no ano passado, das quais cerca de 70% foram resultado de ataques israelenses. Conforme dados do Repórteres Sem Fronteiras (RSF), as forças armadas de Israel foram as principais “predadoras da liberdade de imprensa” e, até abril deste ano, a guerra já contabilizava cerca de 230 mortes de jornalistas: uma média de 13 por mês desde o início do conflito, e mais do que o total de profissionais mortos nas duas guerras mundiais, Guerra do Vietnã, guerras na Iugoslávia e no Afeganistão somadas, como aponta o relatório “News Graveyards: How Dangers to War Reporters Endanger the World (Turse, 2025), do projeto Costs of War, conduzido por pesquisadores da Watson School of International and Public Affairs da Universidade Brown, nos EUA.

Número de jornalistas e trabalhadores de mídia mortos por guerras:

Fonte: Turse, 2025, p. 2.

Em análise publicada no The Guardian, Emma Graham-Harrison, correspondente-chefe sobre Oriente Médio do jornal britânico, afirma que a guerra está sendo conduzida em duas campanhas simultâneas: uma, pelo controle da Faixa de Gaza, e outra, pelo controle da narrativa sobre o conflito. No mês de junho, em comentário publicado neste site, a pesquisadora Clarissa Peixoto destacou que, “para o jornalismo, o desafio é a construção de narrativas a partir de uma disputa de ideias acirrada e articulada a interesses geopolíticos e econômicos, mas que também perpassam relações culturais, lados opostos em extrema tensão e violência deliberada”.

Enquanto Israel nega que esteja cometendo um genocídio em Gaza, também está em curso a “conflação” entre os conceitos de judaísmo e sionismo, segundo a historiadora Arlene Clemesha, professora da Universidade de São Paulo (USP), fundadora e diretora do Centro de Estudos Palestinos (CEPal-FFLCH/USP) e autora do livro Marxismo e judaísmo: História de uma relação difícil, lançado originalmente em 1998 e reeditado em 2025 pela editora Boitempo. Para a pesquisadora, a fusão semântica entre os dois termos contribui para reforçar a ideia de que o Estado assume a posição de “protetor” da comunidade judaica e do judaísmo. Desse modo, as críticas à ideologia sionista assuem, por consequência, um caráter que é tido quase que automaticamente como antissemita: “o genocídio palestino, em suma, está provocando uma mudança em relação à ideia da inevitabilidade do sionismo e da necessidade de todo judeu protegê-lo enquanto garantia da sua própria segurança e sobrevivência” (Clemesha, 2025, p. 16).

No Brasil, o pesquisador Michel Gherman, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos (NIEJ/UFRJ), aponta uma particularidade na forma como Israel, o sionismo, a religião e a comunidade judaicas são compreendidos e midiatizados: a “colonização” do judaísmo por parte da extrema-direita no país. Por meio da apropriação de símbolos judaicos e israelenses – a menorá, a bandeira de Israel e o chofar, por exemplo –, a extrema-direita, representada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro e pelo bolsonarismo, passou a ser percebida por muitos como “uma espécie de movimento filojudaico, aliados de Israel e, efetivamente, quase judaico” (Gherman, 2022, p. 110). Segundo Gherman, considerando que grande parte da comunidade judaica brasileira pertence à classe média urbana e é vista como branca, “o apoio das vítimas históricas do nazismo tornou-se fundamental para um político suspeito de simpatizar com as ideias da extrema-direita e do nazismo” (ibid.). Isso contribuiu para a produção de um grupo político conservador que ressignificou esses símbolos e causou fraturas internas na comunidade judaica brasileira, que o autor chama, em seu livro O não judeu judeu: A tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo, de “judeus de dentro” e “judeus de fora”.

Na imprensa brasileira, isso se reflete em uma postura alegadamente “neutra” e “isenta” em relação às investidas do governo e do exército israelense contra a Palestina, o que acaba por naturalizar certas ações. A mídia hegemônica do país – controlada por uma dezena de oligarquias –, portanto, assume uma postura de “neutralidade” e “equilíbrio” em suas coberturas, criticando o posicionamento crítico do atual presidente sobre as ações da IDF em território palestino e defendendo a manutenção das relações diplomáticas com Israel. Porém, quando o ataque é deliberadamente feito à imprensa, como esses mesmos veículos reagem? É possível manter o mesmo discurso de falsa neutralidade?

Além de ataques direcionados como o do último dia 10, outra estratégia utilizada por Israel é a inanição, tanto dos palestinos quanto dos jornalistas e profissionais que atuam na cobertura da guerra. Segundo a diretora regional do CPJ, Sara Qudah, “Israel está silenciando os jornalistas de Gaza por meio da fome. Eles não são apenas repórteres, são testemunhas da linha de frente, abandonados quando a mídia internacional se retirou e teve sua entrada negada” (tradução minha). A tontura, confusão mental e enjoo – consequências da inanição – afetam diretamente a saúde dos jornalistas e sua capacidade de reportar a guerra em Gaza, como relatam seis jornalistas que deram seus depoimentos ao CPJ.

Além da exposição a ataques diretos e ao risco de morte, repórteres de guerra estão frequentemente sujeitos a fatores como estresse mental, emocional e psicológico, incluindo a exposição repetida ou extrema a eventos traumáticos. A violência da zona de guerra faz com que os jornalistas de conflito corram um risco significativo de sofrer traumas como alvos da violência ou indiretamente como testemunhas, bem como por meio dos relatos das vítimas e testemunhas da violência. A visualização repetida de imagens vívidas e filmagens de derramamento de sangue e sofrimento humano também podem levar a traumatização vicária. (Turse, 2025, p. 11-12, tradução minha)

A violência contra os profissionais da mídia continua sendo um dos principais problemas enfrentados pela categoria em todo o mundo, tanto em áreas de conflito quanto no dia a dia. Passando por autocensura, assédio, perseguição e ataques físicos e virtuais, a violência chega também a casos extremos: desde 1993, o Observatory of Killed Journalists da Unesco contabiliza quase 1800 mortes de jornalistas no mundo, dos quais apenas 14,82% (211) são considerados judicialmente resolvidos; muitos casos ficam impunes e, segundo Turse (2025), isso encoraja novos ataques direcionados. Para Jesper Højberg, diretor executivo da International Media Support (IMS), a quantidade de casos sem resolução “é uma estatística impressionante que transmite uma mensagem sombria: ‘se você quer matar jornalistas, vá em frente; o risco de ser responsabilizado é mínimo’”. No Brasil, a profissão é especialmente perigosa para jornalistas mulheres e pessoas que fazem parte de grupos minoritários, que são os principais alvos de ataques cibernéticos relacionados a seu trabalho.

Apesar dos esforços crescentes para a proteção de jornalistas, seja nas redações ou na cobertura de guerra, ainda há um longo caminho a ser percorrido para garantir a segurança dos profissionais. As agressões aos trabalhadores da mídia são uma tentativa de silenciamento e censura e ameaçam também o ecossistema de informação no qual esses repórteres, cinegrafistas, fotojornalistas e demais colegas estão inseridos. O ataque israelense aos jornalistas da TV Al Jazeera é apenas uma das facetas mais extremas dos constantes ataques políticos à liberdade de imprensa que ocorre também por parte de governos ditos democráticos, como quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chamou a imprensa de “inimigos do povo” em seu primeiro mandato, ou quando o ex-presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, confinou os repórteres a um cercadinho em frente ao Palácio da Alvorada, por exemplo, e proferiu constantes agressões a jornalistas e veículos, levando muitos a suspenderem a cobertura presidencial.

A situação é, muitas vezes, desesperadora. Casos extremos como o ocorrido em Gaza deixam uma sensação de impotência; porém, quantos ataques estão sendo normalizados em nosso dia a dia? A situação do Brasil é classificada como problemática pelo Ranking da Liberdade de Imprensa do Repórteres Sem Fronteiras (RSF), e o país ocupa a 63ª posição global em 2025, logo atrás da Ucrânia, que desde fevereiro de 2022 tem seu ecossistema de mídia ameaçado pela invasão em grande escala pela Rússia. O ranking leva em consideração indicadores políticos, econômicos, sociais, legislativos e de segurança. Na última década, pelo menos 30 jornalistas foram mortos no Brasil, que é o segundo país da região mais perigoso para os profissionais da área, e “o país carece de uma política robusta para proteger os jornalistas, uma prioridade quando se considera a história de violência contra a imprensa”, segundo a RSF. Apesar de o Brasil ter subido 19 posições no ranking do ano passado para cá, ainda enfrentamos desafios como a violência estrutural contra jornalistas (Fenaj/objETHOS, 2022), a alta concentração privada da mídia, a fragilidade orçamentária dos canais de comunicação públicos e a desinformação, fatores que dificultam o avanço da liberdade de imprensa no país.

Nada disso é novidade para quem acompanha o cenário midiático brasileiro. Mesmo que não estejamos enfrentando uma guerra ou uma ditadura militar, por exemplo, é urgente continuar batendo na tecla da liberdade de imprensa como um pilar fundamental para a manutenção da democracia e dos direitos humanos. Isso passa pela violência contra jornalistas, que não deve, de forma alguma, ser tratada como corriqueira ou inevitável: ela é uma ameaça direta ao bem-estar e à vida desses profissionais e também ao direito da sociedade à informação. Ignorar agressões, por menores que possam parecer, é compactuar com censura e autoritarismo; por isso, é preciso promover um ambiente no qual os jornalistas e demais profissionais da mídia possam desempenhar suas atividades sem medo.

Referências

CLEMESHA, A. Marxismo e judaísmo: história de uma relação difícil. 2ª ed. São Paulo: Boitempo, 2025.

FENAJ – FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS; OBJETHOS – OBSERVATÓRIO DA ÉTICA JORNALÍSTICA. Ataques ao jornalismo e ao seu direito à informação. Fenaj/objETHOS. Florianópolis: UFSC, 2022. Disponível em: https://objethos.wordpress.com/wp-content/uploads/2022/04/dossie_fenaj_objethos.pdf. Acesso em: 12 ago. 2025.

GHERMAN, M. O não judeu judeu: a tentativa de colonização do judaísmo pelo bolsonarismo. São Paulo: Fósforo, 2022.

TURSE, N. News Graveyards: How Dangers to War Reporters Endanger the World. Costs of War. Thomas J. Watson Jr. School of International and Public Affairs, 2025. Disponível em: https://watson.brown.edu/costsofwar/papers/2025/news-graveyards-how-dangers-war-reporters-endanger-world. Acesso em: 12 ago. 2025.

Publicado originalmente por objETHOS.

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Natália Huf é Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC