Monday, 26 de February de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1276

Recomeça na Itália -e pode terminar no Brasil

(Foto: Trimlack/ Pixabay)

Começo a escrever diante do teletexto suíço. A notícia principal vem da Itália: Giorgia Meloni, 45 anos, conseguiu maioria na Câmara de Deputados e no Senado para governar o país. Pela primeira vez, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o fascismo retorna ao poder, e, pela primeira vez, é uma mulher quem governará a Itália, uma fascista, admiradora de Benito Mussolini desde sua juventude.

(O sobrenome Meloni me lembra outra Meloni com opção política oposta, a destemida e corajosa Catarina Meloni, da União Estadual de Estudantes, militante da AP, autora de um livro – 1968 O Tempo das Escolhas – que conheci fazendo, como repórter, cobertura dos movimentos estudantis em São Paulo, pelo Estadão e pela sucursal da Última Hora do Rio. Catarina acabou sendo presa numa passeata de estudantes contra a ditadura. Logo depois, deixei a capital paulista por Paris, e perdi seus traços.)

A vitória de Giorgia Meloni, no domingo, uma semana antes das eleições brasileiras seria um mau agouro? Sem entrar nesse jogo de crendices, embora nosso fascista verde-amarelo tenha origem italiana, a vitória da extrema-direita italiana não irá influenciar em nada nossas eleições de domingo, nas quais as sondagens dão grande vantagem para o ex-presidente Lula, capaz mesmo de ganhar no primeiro turno.

Entretanto, é verdade, é a ideologia neofascista a responsável pelo governo Bolsonaro e por sua campanha eleitoral, marcada por ameaças e propagação de mentiras, ou fake news, em profusão, numa tentativa de se manter no poder. A própria ONU fez um apelo, em Genebra, para que as eleições ocorram num clima de paz, diante da existência de sinais de possíveis violências.

Assim, a ONU divulgou um comunicado assinado por diversos especialistas dirigido às autoridades, candidatos e partidos políticos brasileiros para assegurar eleições normais sem violência. A ONU está preocupada com a campanha de difamação e com os contínuos ataques contra as instituições democráticas, contra o Judiciário e contra o sistema eleitoral, incluindo as urnas eletrônicas. Embora sem declarar, o comunicado reflete as constantes declarações do presidente Bolsonaro, deixando pairar a ameaça de não aceitar o resultado das urnas. Destacamos um trecho significativo da preocupação internacional:

“Pedimos às autoridades que protejam e respeitem devidamente o trabalho das instituições eleitorais. Expressamos ainda nossas preocupações sobre o impacto que esses ataques podem ter nas próximas eleições presidenciais e enfatizamos a importância de proteger e garantir a independência judicial”.

“Estamos preocupados que este ambiente hostil represente uma ameaça à participação política e à democracia e instamos o Estado a proteger os candidatos de quaisquer ameaças, atos de intimidação ou ataques online e offline”.

“Todos os envolvidos no processo eleitoral devem se comprometer com uma conduta pacífica antes, durante e depois das eleições. Candidatos e partidos políticos devem abster-se de usar linguagem ofensiva que possa levar à violência e abusos dos direitos humanos”.

Ainda esta semana, circulam pela Internet convocações feitas por fontes não identificadas para, no caso de derrota de Bolsonaro, serem atacados os órgãos representativos da democracia, a Câmara federal, o Senado e o STF. Tais ameaças estão sendo levadas a sério.

O jornal suíço Le Temps, publicou uma reportagem de sua correspondente no Brasil, Chantal Rayes, com o preocupante título “O Brasil vota armado até os dentes”, e com a seguinte chamada: “Sob Jair Bolsonaro, o número de armas em mãos de civis conheceu um aumento exponencial. Uma política que deixa marcas profundas na sociedade brasileira e põe em perigo a democracia às vésperas da eleição presidencial de 2 de outubro”.

Haverá realmente uma reação comandada pelo presidente Jair Bolsonaro caso perca as eleições como preveem as sondagens? A maioria dos comentaristas políticos não leva a sério a ameaça do presidente de não aceitar o resultado das urnas no caso de derrota. Citam para acalmar o clima, ter havido ameaças de Bolsonaro nos 7 de setembro de 2021 e de 2022. Em 2021, Bolsonaro chegou a assinar uma carta, redigida por Michel Temer, pedindo desculpas ao ministro Alexandre de Moraes por ofensas e ameaças. Neste 7 de setembro, depois de sérias ameaças, nada ocorreu, para decepção dos bolsonaristas mais ousados.

A repetição da ladainha “desde que as eleições sejam limpas” seria verdadeira ameaça ou conversa mole de um falastrão, alguém sem coragem para concretizar suas ameaças? Não se pode esquecer que Bolsonaro continuará ainda presidente, se for derrotado, por dois meses no mínimo, ou por três meses, se Lula ganhar no primeiro turno.

Terá ele condições de utilizar a máquina presidencial para articular sua permanência no poder? Essa hipótese é remota, pois os deputados e senadores eleitos não aceitarão esse tipo de aventura depois dos esforços de suas campanhas eleitorais. Os grupos econômicos que apoiaram Bolsonaro há quatro anos já estão dando sinais de apoio a Lula, considerado o provável vencedor das eleições. Muitos eleitores anti-Bolsonaro, que não iriam votar em Lula, parecem estar se decidindo pelo chamado “voto útil” para garantir a derrota de Bolsonaro no primeiro turno e evitar um segundo turno.

O sonho de Bolsonaro de criar uma dinastia permanente no poder com seus filhos terá sido em vão? Sem dúvida, vão lhe restar como apoiadores apenas os evangélicos enganados por seus pastores, mas que, provavelmente, não aceitarão entrar numa tentativa armada.

Ou será que a tentativa de golpe, no caso de derrota, será desfechada apenas pelos seguidores de Bolsonaro, repetindo o que ocorreu com Trump depois de sua derrota? Neste caso, poderá haver alguns dias ou semanas de agitações, mas a lei, a ordem e a democracia acabarão por se impor. Em todos os casos, parece difícil para a família Bolsonaro escapar dos processos evitados por Augusto Aras, no caso da anunciada vitória de Lula.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro sujo da corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A rebelião romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.