
(Foto: Karolina Grabowska/Pexels)
Das fábricas e fazendas paulistas (aviões, máquinas, café, laranja, carne) do Estado de São Paulo saem um terço das exportações brasileiras com destino aos Estados Unidos. Seria natural, portanto, que a imposição de uma sobretaxa de 50% às exportações brasileiras, anunciada pelo presidente Donald Trump no dia 9 de julho, mobilizasse a imprensa paulista.
Ouvir empresários que serão prejudicados com essa barreira tarifária, empresas que estão perdendo contratos, como estão se preparando para buscar novos mercado para compensar e especialistas do tema são pautas obrigatórias para ajudar o leitor a entender o impacto da medida e os efeitos na economia, nos empregos.
Mas não foi isso o que se viu na imprensa nos dias seguintes. Algumas matérias trouxeram sim o impacto esperado na economia. Mas os editoriais dos dois maiores jornais do estado, Estadão e Folha de S. Paulo, colocam o foco sobre o governador Tarcísio de Freitas. Não exatamente sobre suas decisões ou mesmo declarações. Mas sobre as consequências para sua possível candidatura a presidente, no próximo ano. De quebra, ressuscitaram o velho “e o Lula, hein?”, muito utilizado por bolsonaristas quando querem desviar o assunto do ex-presidente, que nesta semana teve a condenação pedida pela PGR pela trama golpista e pode ser condenado a qualquer momento pelo STF.
A falta de cobertura sobre o governo estadual já é uma prática antiga da imprensa. Pouco sabemos sobre votações na Assembleia Legislativa, os serviços de saúde e a educação no estado e até mesmo a venda de empresas importantes passa longe das pautas. Os jornais cobrem o governo estadual não pelas políticas públicas ou mesmo pela gestão. Cobrem apenas a política partidária.
E, desde que Tarcísio foi ungido como o candidato preferido pelo “mercado”, pela “Faria Lima” e considerado “direita moderada”, não se cobre o seu governo, mas as suas chances de derrotar Lula. Praticamente toda semana ganha destaque uma pesquisa sobre as eleições do ano que vem, embora o cenário mude muito pouco.
E foi essa lógica que pautou os editoriais na última semana. Já na noite do dia 9, o Estadão publicou “Coisa de Mafiosos”, um editorial dizendo que “a reação inicial de Lula foi correta”, e condenando a reação de Tarcísio, que no dia anterior havia endossado uma crítica de Trump ao Brasil. “É absolutamente deplorável que ainda haja no Brasil quem defenda Trump, como recentemente fez o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que vestiu o boné do movimento de Trump, o Maga (Make America Great Again). Vestir o boné de Trump, hoje, significa alinhar-se a um troglodita que pode causar imensos danos à economia brasileira.”
Foi tão fora da curva que no dia seguinte o texto circulava intensamente nos grupos de Whatsapp com comentários surpresos.
No dia 13, o jornal voltou ao assunto no texto “Aprendizes de Bolsonaro”. Dizia que o ex-presidente não virá a público condenar a sobretaxa de Trump e que “é ultrajante a complacência de governadores como Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO) diante dos ataques promovidos pelo presidente dos EUA ao Brasil” e ainda que “Tarcísio, Zema e Caiado, todos aspirantes ao cargo de presidente da República, usaram suas redes sociais para tentar impingir a Lula, cada um a seu modo, a responsabilidade pelo “tarifaço” de Trump contra as exportações brasileiras”.
Dois dias depois, o Estadão voltou ao assunto, no editorial “Bolsonaro, o patriota fajuto”. “Passou da hora de as lideranças políticas conservadoras, entre as quais se destaca o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, escolherem de que lado estão, afinal: do Brasil ou de Bolsonaro. São dois caminhos absolutamente antitéticos.”
No dia 16, novo texto, “O Teorema de Tarcísio”, o jornal afirma que “Tarcísio de Freitas se encardiu de bolsonarismo e, em troca, recebeu dos Bolsonaros o mais absoluto desprezo”, sobre a briga pública do governador com o deputado Eduardo Bolsonaro, que o criticou por suas declarações contra a sobretaxa de Trump. O jornal criticou, mas não desistiu de seu candidato. “A boa notícia, para Tarcísio, é que ainda há uma porta de saída honrosa aberta diante do governador paulista: esconjurar Bolsonaro, pública e peremptoriamente.”
E de certa maneira pede que ele desista de buscar a benção bolsonarista para a próxima eleição. “Se Tarcísio de Freitas é um genuíno democrata, e não temos razões para duvidar disso, então ele não se importará de perder a próxima eleição se esse for o preço a pagar pela reafirmação dos mais caros valores da democracia brasileira”.
A Folha ignorou o assunto no primeiro dia, mas no dia seguinte também se aliou às críticas a Trump com o texto “Chantagem rasteira de Trump não passará”. Começa elogiando o sangue frio de Lula. “Nesse quesito, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem se portado bem, o que ficou mais uma vez atestado na reação sóbria do Planalto ao anúncio do tarifaço” e cobra uma posição do governador Tarcísio de Freitas. “Chegou a hora de lideranças como o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) escolherem de que lado estão. Ou bem Tarcísio defende os exportadores paulistas e a soberania brasileira ou continua posando de joguete de boné de um agressor estrangeiro e da família Bolsonaro, cujo patriotismo de fancaria se dissolve e se transforma em colaboracionismo diante da perspectiva da cadeia.”
No dia seguinte, com o texto “Agressão de Trump dificulta equilibrismo na direita”, concede que “a truculência ignara do republicano deu de imediato a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o papel de defensor dos interesses nacionais ante a chantagem de uma potência estrangeira”, mas volta a se preocupar com a atuação de Tarcísio, que juntamente com outros postulantes à presidência de direita, Romeu Zema (MG) e Ronaldo Caiado (GO), “corre o risco de não parecer confiável a ninguém”.
A inversão de valores e a torcida por Tarcísio ficam mais evidentes no texto publicado no dia 14, “Tarcísio se queima no tiroteio entre Trump e Lula”, afirmando que a crise provocada pelo presidente americano deixou como vítima o governador de São Paulo. “Sua inabilidade no manejo do episódio causou espanto mesmo entre aqueles que acreditam em suas juras de moderação, que vinham dando a ele a posição de principal alternativa na direita para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ano que vem”, afirma o editorial.
O jornal também relembra a postura errática do governador, e demonstra seu descontentamento com esse fato, que pode ter consequências eleitorais. “Até aqui o governador colhe o pior de dois mundos, além de presenciar Lula ganhar um ativo político em momento de desgaste”, diz. E já muda de tom em relação ao presidente. “Por óbvio, envergar a armadura de defensor da pátria não retira responsabilidades do petista. O atraso do Brasil na integração ao mundo, marca dos governos Lula, resulta em vulnerabilidade e dependência maior dos EUA.”
Para os jornais paulistas, o prejuízo às empresas brasileiras, diretamente afetadas, é tema secundário: o que importa mesmo é o quanto a guerra comercial declarada por Trump prejudica a candidatura de Tarcísio de Freitas. Acima de tudo, para eles, é preciso evitar a reeleição do presidente Lula.
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Denize Bacoccina é jornalista, com especialização em Relações Internacionais e em Antropologia. É editora do site do Observatório da Imprensa e cofundadora e diretora da plataforma A Vida no Centro. Foi repórter do jornal O Estado de S. Paulo, correspondente da BBC Brasil em Londres, Washington e Brasília, chefe da sucursal da IstoÉ Dinheiro em Brasília, superintendente de digital da EBC, country manager da agência de vídeos Ruptly e Head de Conteúdo Editorial do Experience Club.
