
(Foto: Valter Campanato/Agência Brasil)
Semana passada, escrevi um artigo aqui no Observatório da Imprensa, apontando como a esquerda, enfim, deixou de lado as ideias identitárias e conseguiu pautar a agenda pública. O motivo de tal acontecimento comunicacional foram os vídeos gerados por Inteligência Artificial (IA) sobre o “Congresso inimigo do povo”, tendo como protagonista o personagem “Hugo Nem se Importa”, em alusão ao presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta.
Todavia, como bem frisou o professor Wilson Ferreira, no blog Cinegnose, apesar de ser fundamental que a esquerda domine a agenda pública, há uma perigosa ambiguidade nos vídeos em IA citados acima: utilizam o mesmo léxico moralista (mamatas, supersalários etc.) responsável por fortalecer o sentimento antipolítica que, posteriormente, pariu o bolsonarismo.
Além disso, Wilson Ferreira chama a atenção para a contraofensiva midiática, que recorreu à retórica do “nem-nem”. Ou seja, tentaram emplacar o discurso de que esquerda e extrema direita seriam duas faces da mesma moeda: a polarização. A solução contra o extremismo: a (tão almejada) terceira via. Assim como bolsonaristas têm suas milícias digitais, os vídeos de IA teriam sido produzidos e divulgados pelas “milícias digitais de esquerda”, uma espécie de gabinete do ódio petista.
Por outro lado, com a esquerda ainda comemorando seu protagonismo no debate político, eis que, na quarta-feira (9/7), o presidente estadunidense Donald Trump anunciou a taxação de 50% sobre produtos brasileiros. Entre outros motivos, essa ação enérgica teria como objetivo salvar Jair Bolsonaro da condenação judicial. Não por acaso, os principais nomes da extrema brasileira saíram em defesa do presidente dos Estados Unidos.
Assim, o tarifaço de Trump, além de permitir ao governo Lula e à esquerda em geral levantarem a bandeira da soberania nacional, também desmascarou e explicitou o falso patriotismo dos bolsonaristas. Novamente, os setores progressistas tomaram a dianteira na agenda pública. Mataram dois coelhos com uma cajadada só.
Como medir as consequências de seus atos não é uma especialidade bolsonarista, desta vez eles mexeram num dos cânones do liberalismo econômico: o livre-comércio. O tarifaço de Trump contraria, sobretudo, os interesses do agronegócio, ironicamente um dos principais pontos de apoio do bolsonarismo. Mas a ideologia termina quando os lucros são colocados em risco.
Em compensação, para os articulistas da grande mídia, diferentemente dos vídeos de IA e o personagem “Hugo Nem se Importa”, a repercussão sobre tarifaço de Trump serviu como pretexto para criarem a imagem de algo que nunca foram: defensores da soberania brasileira em relação aos Estados Unidos. “Não podemos aceitar interferência internacional em nosso Judiciário”, foi o mantra repetido nos noticiários da grande mídia brasileira. Diga-se de passagem, a mesma imprensa que, há poucos anos, apoiou a Lava-Jato, maior operação lesa-pátria da história brasileira. Enfim, a hipocrisia editorial.
De repente, uma imprensa historicamente vassala de Washington, que boicotou todos os projetos de desenvolvimento nacional autônomo, passou a se vender com a maior patriota da face da Terra. Em sua coluna no Jornal O Globo, Merval Pereira, inclusive, chegou a falar em “imperialismo”.
Como não poderia deixar, o tarifaço também foi usado para reforçar a campanha midiática pela “despolarização”, representada atualmente pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, o “bolsonarista moderado”, segundo infeliz definição de Joel Pinheiro da Fonseca.
De acordo com o anteriormente mencionado professor Wilson Ferreira, a política tarifária de Trump abriu uma espécie de portal semiótico, através do qual passaria supostamente uma terceira via, focada tão somente na economia, e não na política. Assim, nos noticiários, foi apontado que um extremista de direita (Trump) entrou numa briga política com um extremista de esquerda (Lula).
Por outro lado, como dizia Garrincha, faltou combinar com os russos. Nesse caso, faltou combinar a estratégia discursiva com Tarcísio de Freitas. De imediato, o governador de São Paulo celebrou o tarifaço, saindo em defesa de Trump e Bolsonaro, culpando Lula. Jogou no lixo o esforço semiótico do jornalismo corporativo. O tiro saiu pela culatra!
E assim há um novo episódio no cenário político nacional: o “dilema de Tarcísio”. Se incorporar o personagem contrário à polarização, como quer a mídia hegemônica, ele terá o apoio massivo do grande capital, mas perderá o núcleo duro bolsonarista (pejorativamente conhecido como gado). Se assumir sua verdadeira identidade, à extrema direita, garante pelo menos a fidelidade de quase 25% do eleitorado, o “bolsonarismo raiz”, mas afastará o eleitor “moderado” (eufemismo para isentão).
Como diz o senso comum, não dá para agradar a todos.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutor em Geografia pela Unicamp e professor da UFSJ. Autor do recém-lançado livro “A ideologia dos noticiários internacionais – volume 2” (Editora Emó).
