Sunday, 03 de July de 2022 ISSN 1519-7670 - Ano 22 - nº 1194

Nova estratégia política de extrema direita aumenta importância do jornalismo local

(Foto: Wikipedia/Creative Commons)

As eleições municipais passaram a ser o objetivo principal da nova estratégia política da extrema direita norte-americana conforme pronunciamentos recentes de Steve Bannon, o líder da organização The Movement (O Movimento), cujo representante no Brasil é o deputado Eduardo Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro.

Ao deslocar o foco de sua atenção para a política municipal, os seguidores do ex-presidente Donald Trump, aumentam a importância do ambiente informativo local, tradicionalmente um espaço noticioso onde as notícias falsas (fake news) podem circular com mais facilidade devido a pouca diversificação na imprensa das pequenas e medias cidades do interior.

A extrema direita norte-americana já começou a se mobilizar visando aumentar as suas bases políticas municipais, especialmente nas pequenas e medias cidades norte-americanas nas eleições de novembro deste ano (2022). A forte ligação entre Bannon e Eduardo Bolsonaro, muito provavelmente, levará o filho do presidente a tentar implantar a mesma estratégia aqui no Brasil, levando em conta a quase certa derrota de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de outubro próximo.

A opção pela disputa política local faz parte da lógica da extrema direita de tomar de assalto os redutos eleitorais da elite parlamentar em Washington e isolar a administração federal em relação às bases sociais e econômicas no interior do país. A estratégia visa captar o histórico descontentamento e queixas do eleitorado norte-americano em regiões agrícolas pobres e os desempregados urbanos em relação ao que os seguidores de Trump e Bannon rotulam de práticas discriminatórias e centralizadoras pela burocracia estatal em Washington.

Os blogs, redes sociais e sites da extrema direita norte-americana já começaram a dar visibilidade nacional para líderes locais simpáticos a teses negacionistas destacando especialmente o desejo de reduzir drasticamente o poder de órgãos federais como o congresso e o sistema judiciário. Trata-se de uma retórica que soa como música aos ouvidos da empobrecida classe média rural e dos milhões de desempregados urbanos nos Estados Unidos.

No século XXI, ações políticas e movimentos sociais de todos os tipos precisam usar a informação para crescerem, o que implica na inevitabilidade da ativação dos fluxos noticiosos locais. Como a maioria dos jornais impressos e emissoras convencionais de radio estão em crise ou já fecharam as portas, todo o debate político local tende a se deslocar para as redes sociais, blogs e páginas web, ambiente no qual a extrema direita tem uma ampla experiência do uso de fake news, desinformação e assassinato de reputações.

As experiências fracassadas de Donald Trump e de Jair Bolsonaro como chefes de governos federais mostrou à extrema direita brasileira e norte-americana que o desejo de destruir estruturas políticas e administrativas em vigor a décadas foi incapaz de derrotar a resistência do establishment tradicional. O despreparo intelectual e político de Trump e Bolsonaro foi determinante para tornar pública a sua incapacidade de lidar com à oposição de setores administrativos e financeiros da administração pública federal. Com isto o desgaste da imagem popular de ambos se agravou a ponto de inviabilizar sua permanência no poder.

Os líderes da extrema direita norte-americana perceberam a enorme dificuldade em destruir a estrutura nacional do establishment político, por isto decidiram mudar de estratégia, sinalizando um novo rumo para aliados noutros países como a família Bolsonaro, no Brasil. A aposta passou a ser a arena municipal onde é o ambiente político é bem menos sofisticado e onde a opinião pública é menos preparada para identificar notícias falsas e desinformação.

Os guetos locais da extrema direita

Isto deve fazer com que a batalha pelo controle dos fluxos municipais de notícias passe a ser de importância estratégica dada a nova realidade em que a distância entre a política local e a nacional está diminuindo rapidamente. Aqui no Brasil, esta possibilidade serve como alerta para o eventual surgimento de guetos ultraconservadores no interior do país, o que pode ser usado por extremistas de direita como ferramenta para tornar muito difícil a vida política de governos regionais e da administração pública federal.

Uma previsível batalha da notícia no interior coloca os extremistas de direita numa vantagem inicial não só porque eles têm estratégias editoriais já preparadas para usar intensivamente as notícias falsas e a desinformação, como atraem as simpatias de eleitores com base em sua retorica de culpar todos os males nacionais ao que chamam de “burocracia corrupta de Brasília”.

Nos Estados Unidos, foi criada uma organização chamada County Citizens Defending Freedom in USA (Cidadãos Municipais na Defesa da Liberdade nos EUA) que tem como principais canais de divulgação as redes sociais Telegram (com usuários em todo mundo) e GETTR criada recentemente por Donald Trump já com a preocupação de focar no eleitorado de pequenas e medias cidades dos Estados Unidos.

É preciso levar em conta que a esmagadora maioria da imprensa interiorana é conservadora, apoiou Bolsonaro e resiste à mudança, mesmo enfrentando uma irreversível crise no modelo de negócios de seus jornais impressos e rádios convencionais. Um aporte financeiro mínimo os transformará em influentes formadores de opinião, aproveitando o que ainda o que resta da confiança que outrora os moradores do interior depositavam na imprensa local.

A exemplo do que já está ocorrendo nos Estados Unidos, o principal alvo dos extremistas de direita e dos veículos online que controlam é questionar a confiabilidade do sistema eleitoral, colocando em dúvida os processos de votação e os resultados apurados nas urnas. É um tema onde o uso de notícias falsas acaba tendo mais impacto junto a eleitores historicamente pouco informados do que as explicações técnico-jurídicas das instituições responsáveis pela organização dos pleitos previstos para este ano aqui e nos Estados Unidos.

A mesma conjuntura se repete na questão da luta contra a pandemia da Covid 19 e suas variantes. O eleitor interiorano tem muito menor acesso à informação técnica e científica do que as pessoas que moram em cidades médias e grandes, logo está também muito mais vulnerável à desinformação e às notícias falsas. Não importa se analisarmos o problema aqui ou nos Estados Unidos, onde a resistência à vacinação é até maior do que entre os brasileiros.

Esta conjuntura confere aos fluxos informativos locais uma importância inédita na história política dos dois países, e provavelmente em vários outros também contagiados pela crescente polarização ideológica. Caso não haja uma imediata preocupação em criar veículos jornalísticos locais capazes de neutralizar os efeitos da desinformação e das fake news, os movimentos sociais democráticos podem sofrer revezes eleitorais significativos nas pequenas e médias cidades interioranas, com importantes repercussões nacionais.

Texto publicado originalmente na plataforma Medium.

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.