
(Foto: Huỳnh Đạt/Pexels)
Oito da noite. A novela terminava e entrava o horário eleitoral, sempre com a mesma vinheta, aquele som curto avisando que o país ia falar de política pela próxima meia hora. Passava em todos os canais ao mesmo tempo. Não tinha para onde correr.
Eu não sei o que acontecia nas outras casas. Na minha tinha um homem que ficava.
Meu avô, seu Maviel. Baiano. Um homem a quem a vida não deu quase nada e que mesmo assim se interessava por política de um jeito que eu não vi em mais ninguém. Não tinha diploma, tinha opinião. Para mim, naquela sala, ele era a pessoa mais inteligente que eu conhecia.
Ele via tudo. Candidato que ele detestava, ele via. Candidato que não tinha a menor chance, ele via. Ia comentando, às vezes falando com a televisão, e no fim tinha um veredito.
Hoje eu entendo o que estava acontecendo ali, e não é nostalgia. Aquela meia hora era a informação que ele tinha. Não existia outra. A política, naquele tempo, tinha hora e tinha endereço.
O que a escassez organizava
Esse mundo acabou. Não acabou com estrondo, acabou como acaba quase tudo, um pouquinho por ano, sem ninguém anunciar.
Em 2005, só 13 em cada 100 casas de cidade no Brasil tinham internet. Hoje são 85 em cada 100, segundo a pesquisa TIC Domicílios, feita pelo comitê que cuida da internet no país. E 6 em cada 10 brasileiros conectados acessam tudo apenas pelo celular. Não pelo computador da sala. Pelo aparelho que vai no bolso, que dorme na cabeceira e acorda antes da gente.
A política saiu da sala e foi morar aí dentro.
Mas a mudança que interessa é outra, e ela é mais silenciosa. Para entender, é preciso voltar ao meu avô e olhar para os vizinhos dele.
Em 2018, o horário eleitoral juntava, em média, 24 milhões de pessoas por dia na frente da televisão. Vinte e quatro milhões. Duas vezes a cidade de São Paulo.
Só que o Ibope mediu outra coisa naquele mesmo ano, e essa parte quase ninguém comentou. No instante em que a propaganda entrava no ar, a audiência das cinco maiores emissoras caía 26% na hora do almoço. Um quarto da plateia evaporava.
Meu avô era a exceção. A regra era o controle remoto.
Aquele público gigante nunca foi um público apaixonado. Ele era um público sem saída. E gente sem saída não é gente fiel, é gente presa. Bastou aparecer uma porta para ela sair.
A porta apareceu
No dia 16 de agosto deste ano, à meia-noite e um minuto, um deputado publicou um vídeo no Instagram anunciando a candidatura dele. Dez horas depois, o vídeo tinha 16 milhões de visualizações.
Ninguém foi convocado. Não teve vinheta, não teve emissora, não teve lei obrigando canal nenhum a exibir aquilo. E não teve conta a pagar, porque post orgânico não custa.
Do outro lado da comparação está o horário eleitoral, que nunca foi de graça. Em 2018, o desconto que o governo concede às emissoras para exibi-lo custou mais de 1 bilhão de reais aos cofres públicos. Trinta e cinco dias de veiculação obrigatória, em rede nacional, para reunir aqueles 24 milhões por dia.
Um vídeo gravado para o celular chegou perto disso antes do almoço.
Não são medidas iguais, e eu não vou fingir que são. Visualização de vídeo e ponto de audiência se contam de jeitos diferentes. Mas a distância entre os dois mundos, que já foi um abismo, virou um degrau. E degrau qualquer um sobe.
A televisão também não morreu, e quem diz que morreu está vendendo alguma coisa. Levantamento do Datafolha de março mostra que ela segue presente na dieta de informação de quase 6 em cada 10 eleitores. O que ela perdeu não foi o tamanho, foi o trono. Em julho, a Quaest mediu que 41% dos brasileiros se informam sobre política principalmente pelas redes sociais, contra 36% pela televisão. Dois anos antes, a televisão tinha 45%.
Mudou de casa e mudou de dono
Aqui está o que eu realmente queria dizer.
Não é só que a política agora encontra a gente em mais lugares. É que a maior parte desses lugares não pertence mais a político nenhum.
Pense na última coisa de política que você comentou com alguém. Provavelmente não veio de um programa de candidato. Veio do grupo da família no WhatsApp. De um corte de podcast que apareceu sozinho no seu feed. De um comentário embaixo de um post. De uma piada que um primo mandou às onze da noite.
Nada disso é campanha. Nenhum marqueteiro escreveu. Nenhuma lei alcança.
E tem uma ironia boa nisso. A lei eleitoral brasileira regula com precisão cirúrgica as duas únicas coisas que o candidato ainda controla, que são o perfil oficial e o post pago. Todo o resto, que hoje é quase tudo, passa por fora.
O eleitor deixou de ser plateia. Virou entrega.
O que a gente ganhou e o que a gente carrega
Tem coisa boa nisso, e não é pouca. Ninguém mais decide sozinho o que você vai ouvir. Gente sem estrutura consegue ser vista. Assunto que a televisão ignorava por trinta anos consegue circular numa tarde. Meu avô teria adorado essa parte, porque ele nunca engoliu nada só porque estava passando na televisão.
E tem o peso que veio junto. Quando quem espalha é a gente, a conta também é da gente. Aquele vídeo que você repassou sem checar chegou em vinte pessoas que confiam em você, e confiança é a moeda mais forte que existe. Nenhum horário eleitoral jamais teve esse poder de convencimento, porque horário eleitoral vinha de um estranho de terno e o seu WhatsApp vem de você.
O algoritmo, aliás, também escolhe. Ele te mostra mais daquilo que você já gostou. Ter trinta fontes não adianta muito quando as trinta repetem o que você já pensava antes de acordar.
Meu avô via o que mandavam ver, e depois pensava.
Hoje a gente vê o que quer, e repassa.
Não é a mesma coisa. E vale lembrar disso antes de apertar o encaminhar.
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Victor Lafayett é sócio-diretor da Storia Media, com experiência em campanhas audiovisuais para grandes marcas e projetos de comunicação política em diferentes municípios do Rio de Janeiro. Pós-graduado em Gestão pela FGV e mestrando em Comunicação Digital, é especialista em produção e estratégia de vídeos.
