Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

O ranço que pode levar Curitiba a ser trincheira bolsonarista

(Foto: Cláudio Emanuel/Pexels)

Curitiba, cidade símbolo de inovação urbana e de orgulho cultural, carrega hoje uma pecha que para muitos é no mínimo incômoda: a de capital da extrema direita brasileira. Um rótulo que não surgiu por acaso. Foi forjado na última década, na esteira da Operação Lava Jato, da prisão do presidente Lula, do avanço do bolsonarismo e da influência direta das ideias de Olavo de Carvalho.

O preço desse rótulo, que agrada apenas uma parcela da elite e do ar aristocrático local, tem se mostrado salgado. A imagem que Curitiba passa e que tem se consolidado não é apenas a de uma cidade conservadora, mas de um espaço onde o falso moralismo – desnudo nos contos de Dalton Trevisan – se confunde com autoritarismo, e onde o ranço da ditadura parece nunca ter cicatrizado por completo.

Da Lava Jato ao bolsonarismo

Curitiba foi palco da Lava Jato, operação que começou com promessas de moralizar a política, mas terminou manchada por ilegalidades, parcialidade e perseguições políticas. O que deveria ser justiça virou espetáculo midiático, alimentando o antipetismo e preparando o terreno para o crescimento de Jair Bolsonaro.

Olavo de Carvalho, ideólogo da extrema direita, também deixou sua marca. Suas falas inflamaram uma geração de seguidores que enxergaram em Curitiba um reduto fértil para espalhar a intolerância olavista. A cidade passou a ser vista nacionalmente como berço de um conservadorismo intolerante, pouco comprometido com valores democráticos e liberdades constitucionais. Uma trincheira do lavajatismo e do bolsonarismo. 

O ódio nas ruas e nas universidades

O episódio mais recente desse ambiente tóxico ocorreu no coração da Universidade Federal do Paraná, um espaço que deveria ser sinônimo de pluralidade e respeito. Na última sexta-feira (12), a professora e diretora da Faculdade de Direito, Melina Girardi Fachin, foi alvo de uma agressão covarde.

Segundo relato de seu companheiro, Marcos Gonçalves, ao sair da universidade, Melina foi abordada por um homem que cuspiu nela e a chamou de “lixo comunista”. A cena, descrita como “uma agressão covarde cometida por um porco imundo”, revela até onde pode chegar a brutalidade política quando se perde qualquer limite ético.

Melina é filha do ministro do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, mas, mais do que isso, é uma acadêmica que construiu sua trajetória no ensino e na defesa da democracia. O ataque que sofreu não é contra uma pessoa apenas, mas contra o próprio direito à livre expressão e à convivência respeitosa em uma universidade pública.

O ranço da ditadura e o falso moralismo

Não é coincidência que extremistas escolham hostilizar professores e acadêmicos. Desde a ditadura militar, intelectuais são alvos preferenciais de regimes autoritários, que enxergam no pensamento crítico uma ameaça. Em Curitiba, esse ranço ganhou nova roupagem: o discurso moralista, travestido de conservadorismo, mas sustentado pelo ódio que há tempos já ultrapassou apenas o discurso.

O bolsonarismo pode estar em derrocada, marcado na história como movimento golpista, mas seus resquícios ainda circulam nas ruas e corredores universitários. A cusparada contra Melina é, antes de tudo, o reflexo de uma cidade que precisa olhar para si mesma e questionar: como aceitou se tornar palco de tanto ódio e desinformação?

O desafio de recuperar a imagem da cidade

Curitiba não merece carregar para sempre a pecha de cidade reacionária, “república” ou “capital da direita raivosa”. A cidade que é referência em urbanismo, cultura e cidadania pode reencontrar seu espírito democrático e pacífico. Mas isso exige coragem para enfrentar o extremismo e denunciar cada ato de intolerância.

Se a história recente colocou Curitiba no mapa da direita, talvez esteja na hora de escrever um novo capítulo – um que não se renda à violência, mas que volte a valorizar a diversidade, a justiça e a liberdade.

Em nota oficial, a UFPR disse que está analisando o caso da agressão contra a Dra. Melina Fachin e promete discutir as medidas a serem adotadas em reunião do Conselho de Administração da Universidade.

“A UFPR analisa a situação ocorrida com a professora Melina Fachin na última sexta-feira (12/9). Ela será debatida em reunião do Conselho de Planejamento e Administração (Coplad) da universidade na próxima terça-feira (16/9)”, diz a nota.

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Ronald Sanson Stresser Junior é jornalista e radialista curitibano.