
(Foto: Ron Lach/Pexels)
Denúncia, adultização, regulamentação das redes e combate à pedofilia. Essas provavelmente têm sido as palavras mais mencionadas nos últimos dias, efeito da denúncia viral feita pelo influenciador Felipe Bressanim Pereira, de 27 anos, mais conhecido como “Felca” em seu canal no YouTube, que levantou a pauta junto ao debate público a respeito de problemas já conhecidos, porém ainda não combatidos de forma efetiva: a adultização de crianças como forma de monetizar conteúdos e a impunidade da exploração sexual infantil na internet.
Com aproximadamente cinquenta cirúrgicos e muito bem trabalhados minutos de duração, o vídeo postado por Felca no início deste mês sob o título “Adultização” começa abordando a problemática de tratarmos crianças e adolescentes como figuras adultas em situações aparentemente “inofensivas”, como referências estéticas, de “lifestyle” e até “coaches financeiros”, culminando com uma contundente denúncia da mais grave e ilegal forma de “adultização”: a exploração sexual infantil na internet, com o “bônus” de uma demonstração em tempo real de como o algoritmo das redes sociais entrega sem qualquer limite ou triagem responsável, este tipo de conteúdo para a rede de pedofilia alimentada pela impunidade.
Muitas são as camadas do “acontecimento” que representou essa publicação. Da noite para o dia, pautas já incansavelmente abordadas por setores e organizações sociais atuantes pelos direitos das crianças passaram a eclodir na internet, invadindo todos os grupos de WhatsApp, debates, até chegar na grande mídia em horário nobre. Como em um despertar coletivo, a necessidade imediata de regulamentar as redes e combater a pedofilia virtual passou a ser uma pauta emergencial.
Ocorre que, infelizmente, esse não é um problema novo, nem tampouco oculto para ter sido “revelado” agora. A ciência coletiva já era um fato, até porque boa parte dos perfis citados na referida denúncia não só são públicos como reconhecidamente populares, com milhares de visualizações e seguidores. Mas então, o que mudou com o vídeo divulgado por Felipe Bressanim Pereira?
Felca não foi o primeiro e, com sorte, não será o último a trazer luz para esse tema. Mas, sem dúvida, a sua marca que já fez história tem em dois ingredientes os seus principais pilares.
O primeiro é o alcance e comunicação assertiva com um público cultivado com tempo, consistência e muita habilidade. Com o avanço da internet e a pulverização das formas de criação e veiculação de conteúdo, a comunicação passou por uma inexorável mudança de paradigma.
Se antes o conteúdo para consumo nacional era definido de forma única e padronizada pelas grandes corporações de telecomunicação e radiodifusão, que, quando muito, brigavam entre si pela audiência, hoje temos, paralelamente, uma eclosão de micro conteúdos criados com baixo custo, de forma individualizada e com potencial ilimitado de número de exibições, voltados para os mais variados “nichos” de públicos.
Com esse movimento, nascem os denominados influenciadores digitais e suas legiões de consumidores que, sob o efeito da credibilidade já conquistada, não só corroboram o que assistem, mas atuam como verdadeiros promotores, compartilhando e difundindo as ideias e posicionamentos de seus “ídolos”.
Dentro dessa reflexão e voltando para a figura do Felca: estamos tratando aqui de um influenciador ainda na casa dos 20 anos, que começou sua carreira na internet como “streamer” de games, falando diretamente com uma parcela expressiva de um público jovem consumidor ávido do digital, que inicialmente “viralizou” com conteúdos cômicos, resenhas divertidas de produtos polêmicos e práticas curiosas como as lives de NPC (“Non-Playable Characters”), mas que, com o tempo, foi ganhando cada vez mais relevância e “furando a bolha” de seu público-alvo inicial ao se posicionar publicamente em pautas como o combate às Bets.
Além disso, ao compartilhar de forma empática questões de saúde mental, como a fobia social, Felca gerou automaticamente em seu público (agora bem mais expandido) um sentimento automático de identificação e credibilidade. Um terreno fértil e receptivo para o segundo principal pilar desse fenômeno: um conteúdo meticulosamente criado com critérios e cuidado jurídico.
O vídeo “Adultização” que, no ato de escrita deste artigo já conta com aproximadamente 42 milhões de visualizações, reúne uma série de elementos essenciais que possibilitaram sua veiculação, sem medo, em salas de aulas, palestras, eventos institucionais, até chegar nas grandes emissoras de televisão e se transformar em pauta legislativa. Sem deixar pontas soltas, trata-se de um conteúdo criado com fontes seguras de pesquisas, escolha criteriosa das palavras e do roteiro, recursos de edição para ocultar imagens impróprias, participação de profissional da área de saúde mental para corroborar e legitimar o discurso e, por fim, auxílio jurídico prévio para análise dos riscos e adoção das medidas que fazem desse vídeo, não só uma indignação virtual, mas uma denúncia concreta com providências efetivas concretizadas em ações judiciais e boletins de ocorrência.
Felca, cercado por esse time de profissionais de conhecimentos e áreas de expertises transversais, e no lastro da estrada de liberdade de expressão “capinada” por tantas corajosas personalidades que o antecederam, entregou para os seus mais de 30 milhões de seguidores um prato pronto para ser servido às nossas instâncias públicas. Só que, agora, sob a mira de centenas de milhares de olhos e ouvidos atentos aos seus desdobramentos, mostrando ainda para o universo dos criadores de conteúdo, como transformar influência numa efetiva ferramenta de transformação social.
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Carol Bassin é advogada e sócia fundadora do escritório Bassin Advocacia Cultural, especializado em propriedade intelectual, legislação de incentivo e proteção autoral. É também membro efetivo da Comissão de Direitos Autorais, Direitos Imateriais e Entretenimento da OAB/RJ.
