
(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
No século XXI, enquanto bilhões de dólares circulam diariamente pelos mercados financeiros globais e avanços tecnológicos moldam uma nova era de inteligência artificial, mais de 673 milhões de pessoas ainda dormem com fome no mundo. O pensamento de Josué de Castro em 1940, se mantém vivo: “a fome é um fenômeno político, e não natural”, ou seja, a persistência dela não é um acidente, mas o reflexo brutal de desigualdades estruturais e escolhas políticas. O chamado Mapa da Fome, elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), expõe com frieza estatística uma tragédia silenciosa: milhões de vidas humanas que vivem à margem do direito mais básico, o de se alimentar.
No caso do Brasil, a presença ou ausência do país nesse mapa revela muito mais do que números: traduz o impacto direto de políticas públicas, de projetos de sociedade e da forma como o Estado lida com sua população mais vulnerável. Entender o Mapa da Fome, no Brasil e no mundo, é, portanto, um passo essencial para compreender o nosso tempo e a geopolítica da desigualdade global.
Origem e evolução
O termo Mapa da Fome foi popularizado a partir de 1974, durante a Conferência Mundial da Alimentação, promovida pela FAO na qual estabeleceram que “todo homem, mulher, criança, tem o direito inalienável de ser livre da fome e da desnutrição.
A versão mais conhecida do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) passou a ser divulgada anualmente a partir do relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo”, mais tarde integrado ao Relatório de Segurança Alimentar e Nutricional (SOFI), que combina dados da FAO, do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (IFAD), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), do Fundo das Nações Unidas para a Infância (PAM) e da Organização Mundial da saúde (OMS).
Objetivos
O Mapa tem por objetivo identificar os países em que parte significativa da população não tem acesso regular e adequado a uma alimentação suficiente para garantir uma vida saudável.
Segundo o Centro de Excelência contra a Fome do WFP no Brasil (2025), “a fome ainda atinge 673 milhões de pessoas no mundo, o que equivale a 8,2% da população global”.
Segundo o relatório, a fome continua a crescer em diversas regiões da África e da Ásia Ocidental, enquanto na América Latina os índices apresentaram avanços significativos em sua redução. Assim sendo, as regiões mais atingidas pela fome são: Ásia, 323 milhões de pessoas, África, 307 milhões de pessoas e América latina, 34 milhões de pessoas. (…) Apesar de representar uma leve melhora em relação aos anos anteriores (8,5% em 2023 e 8,7% em 2022), os índices ainda permanece acima dos níveis pré-pandemia”.
O relatório também destaca os fatores que ameaçam reverter os avanços no combate à fome em escala global, como os impactos crescentes das mudanças climáticas e os conflitos armados em curso ao redor do mundo.
A insegurança alimentar
De acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura), considera-se que uma pessoa vive em situação de insegurança alimentar quando não tem acesso físico, econômico ou social a alimentos em quantidade e qualidade suficientes para realizar todas as refeições necessárias ao longo do dia.
Essa condição é classificada em três níveis de gravidade. A insegurança alimentar leve ocorre quando há incerteza sobre a capacidade de obter alimentos, levando a pessoa a reduzir a qualidade da dieta para manter a quantidade. No nível moderado, a situação se agrava: há uma diminuição efetiva no consumo de comida, com refeições sendo puladas ou porções reduzidas. Já a insegurança alimentar grave é o estágio mais crítico, caracterizado pela privação total de alimentos durante um ou mais dias.
Segundo o levantamento, o percentual da população brasileira em risco de subnutrição caiu para menos de 2,5%, limite estabelecido pela ONU para a classificação de insegurança alimentar grave.
A fome, tanto no Brasil quanto no mundo, é um fenômeno de raízes profundamente estruturais, marcado por desigualdades históricas de ordem econômica, política e social. Segundo Sen (2010), a fome não é necessariamente resultado da escassez de alimentos, mas da incapacidade das populações de acessá-los, o que evidencia seu vínculo com relações de poder e com a distribuição desigual de renda, terra e recursos.
No cenário global, a concentração fundiária, o modelo agroexportador e o avanço de monoculturas são fatores estruturantes da insegurança alimentar, como apontado por Ribeiro (2020), (…) “O predomínio do agronegócio, orientado à exportação e à lógica do lucro, compromete a soberania alimentar e empurra pequenos produtores para a marginalidade”.
No Brasil, a fome está historicamente associada à exclusão social e à ausência de políticas públicas efetivas de redistribuição de renda. A desigualdade no acesso à terra, como já denunciava Josué de Castro, alimenta um sistema de produção que privilegia poucos e deixa muitos à margem.
Combater a fome exige enfrentar suas causas estruturais: a concentração de riqueza, o modelo de desenvolvimento excludente e a mercantilização da alimentação. Sem uma reforma agrária efetiva, políticas públicas de renda e fortalecimento da agricultura familiar, a fome continuará sendo uma expressão brutal das desigualdades sistêmicas.
A geografia da fome brasileira
Segundo o IBGE (2024), as regiões Norte (60,3%) e Nordeste (61,2%) tinham as menores proporções de domicílios em segurança alimentar, enquanto Centro-Oeste (75,7%), Sudeste (77,0%) e Sul (83,4%) tinham os maiores percentuais.
O histórico das políticas de combate à fome no Brasil
No Brasil, a fome está historicamente associada à exclusão social e à ausência de políticas públicas efetivas de redistribuição de renda.
Por décadas, a fome no Brasil foi tratada como um problema circunstancial, resolvido com ações pontuais de distribuição de alimentos e medidas assistencialistas. Até meados da década de 1940, não havia qualquer articulação entre essas iniciativas e uma estratégia de desenvolvimento social de longo prazo. A questão só passou a ocupar espaço relevante na agenda pública a partir dos anos 1990, quando a mobilização social liderada por Herbert de Souza, o Betinho, com a Ação da Cidadania contra a Fome, expôs a dimensão estrutural do problema e sua relação direta com a desigualdade e a exclusão social (BEZERRA, 2013).
A partir desse momento, abriu-se caminho para um modelo que enxergava a alimentação não como favor, mas como direito humano fundamental.
Em pleno século XXI, diante de todo aparato tecnológico, o homem conseguiu ter uma produção alimentícia mais do que suficiente para nutrir toda a sua população do planeta, mas a fome se revela como uma contradição ética e política, e não como uma limitação biológica ou produtiva. Ela existe porque a alimentação, em vez de ser tratada como um direito fundamental, garantido a todos de forma incondicional, é tratada como uma mercadoria. A escassez não está na oferta de comida, mas na falta de acesso a ela, uma lacuna que é resultado direto da desigualdade social, da concentração de renda e da ausência de políticas públicas estruturantes.
Essa mudança de paradigma foi decisiva para a criação do Programa Fome Zero em 2003, que, de acordo com Graziano da Silva (2010), articulou transferência de renda, fortalecimento da agricultura familiar e ações emergenciais de forma integrada e inovadora. Em 2014, o Brasil foi reconhecido pela FAO (2014) por ter saído do Mapa da Fome.
Mas o que parecia uma conquista definitiva revelou-se frágil diante das escolhas políticas. Como alertam Belik e Takagi (2003), políticas públicas de segurança alimentar só se sustentam quando respaldadas por um pacto de Estado que resista a mudanças de governo. O Brasil não consolidou esse pacto.
Os primeiros sinais de fragilidade surgiram no segundo mandato de Dilma Rousseff, quando a crise econômica e a austeridade fiscal começaram a limitar investimentos sociais (MENEZES, 2022). Com o impeachment em 2016 e a ascensão de Michel Temer, veio a aprovação do “teto de gastos“ que congelou por 20 anos os gastos sociais. Para Renato Maluf e Elisabetta Recine (2018), essa medida representou um “retrocesso civilizatório”, comprometendo áreas como saúde, educação e segurança alimentar.
O governo seguinte aprofundou o desmonte. Em 2019, Jair Bolsonaro extinguiu por medida provisória o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (CONSEA), principal órgão de articulação entre Estado e sociedade civil. O orçamento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) foi drasticamente reduzido e o Bolsa Família não teve reajustes compatíveis com a inflação.
Com a pandemia de Covid-19, o resultado foi devastador. Segundo a Rede PENSSAN (2022), 33,1 milhões de brasileiros estavam em situação de insegurança alimentar grave em 2021. Em 2022, a FAO (2022) anunciou oficialmente que o Brasil havia voltado ao Mapa da Fome. Assim sendo, o que se observa é que a fome voltou não por falta de comida, mas por falta de vontade política.
Com o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder, em 2023, procurou-se reconstruir o sistema de segurança alimentar: o CONSEA foi recriado, o Bolsa Família ampliado, e programas como o PAA e o PRONAF retomaram recursos e prioridade no orçamento público. A meta, como declarou o ministro Wellington Dias, é clara: “O Brasil vai sair novamente do Mapa da Fome. Mas será preciso reconstruir o que foi destruído nos últimos anos.” (Agência Brasil, 2023).
A saída do mapa da fome
Em 2025, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, um feito que vai além das estatísticas e se impõe como um marco civilizatório. Essa vitória, no entanto, só será duradoura se for blindada contra disputas ideológicas e cortes que desmantelam políticas públicas estruturantes. A fome no Brasil não é um fenômeno natural, tampouco inevitável: ela resulta de escolhas políticas, de prioridades orçamentárias e de mobilização social.
Não basta reduzir números: é preciso consolidar um Estado que transforme a segurança alimentar em política de Estado, capaz de atravessar governos e resistir às tempestades econômicas e políticas. O país que conseguiu derrotar a fome duas vezes em menos de vinte anos tem a obrigação histórica de jamais permitir que ela retorne. Um Brasil sem fome não é apenas uma meta: é o fundamento mínimo para a democracia, a dignidade e o futuro.
BIBLIOGRAFIA
AGÊNCIA BRASIL. “Consea é reinstalado e Lula promete que Brasil sairá novamente do Mapa da Fome”. Brasília: EBC, 2023.
BEZERRA, J. Políticas de combate à fome no Brasil: trajetória e desafios. Editora Cortez, 2013.
BELIK, W.; TAKAGI, M. “Políticas de segurança alimentar no Brasil”. Estudos Avançados. São Paulo: USP, 2003.
CASTRO, Josué. Geografia da fome. 10ª ed. Rio de Janeiro: Antares Achiamé, 1980
CENTRO DE EXCELÊNCIA CONTRA A FOME DO WFP NO BRASIL. Relatório SOFI 2025 mostra que 673 milhões passam fome no mundo e que Brasil deixa o Mapa da Fome. 2025. Disponível em: https://centrodeexcelencia.org.br/relatorio-sofi-2025-mostra-que-673-milhoes-passam-fome-no-mundo-e-que-brasil-deixa-o-mapa-da-fome/. Acesso em: 4 ago. 2025.
FAO. The State of Food Insecurity in the World. Roma: FAO, 2014.
FAO. Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional na América Latina e no Caribe. Santiago: FAO, 2022.
GRAZIANO DA SILVA, J. Fome Zero: A experiência brasileira. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2010.
IBGE – Segurança alimentar nos domicílios brasileiros volta a crescer em 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/39838-seguranca-alimentar-nos-domicilios-brasileiros-volta-a-crescer-em-2023
MALUF, R.; RECINE, E. “Sistemas alimentares, crise e retrocesso no Brasil”. Revista Brasileira de Política Social. Brasília: ABPPS, v.1, n.2, 2018.
MENEZES, F. “A política pública de segurança alimentar no Brasil: um ciclo em risco”. IHU On-line. São Leopoldo: UNISINOS, 2022.
ONU, Declaração para a erradicação da fome e da subnutrição. 1996. Disponível em: https://dcjri.ministeriopublico.pt/sites/default/files/decl-erradicacaofome.pdf. Acesso em: 4 ago. 2025.
REDE PENSSAN. II Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar. Rio de Janeiro: Rede PENSSAN, 2022.
RIBEIRO, Silvia. “Agronegócio é fome.” Outras Palavras, 2020.
SEN, Amartya. Pobreza e Fomes: Um Ensaio sobre Direito e Privação. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
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Mauricio Alfredo é Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior. Autor de material didático junto à Editora Companhia da Escola.
