Domingo, 1 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

Jornalismo pós-industrial

(Foto: Pexels/Pixabay)

A fusão de três mercados – telecomunicações, mass media e informática – em um só, comunicações, ocupa lugar de centralidade essencial na construção das representações coletivas, vale dizer, na construção da própria realidade. Ao pensar o jornalismo semântico, muitos se perguntam se um algoritmo pode fazer uma notícia de maneira mais eficiente que um repórter humano. Entretanto, parece-nos mais adequado pensar em quantas vezes não permitimos que o próprio fazer jornalístico se robotize, nos deixando levar pela técnica, pelo declaratório ou pelo senso comum, sem a devida introjeção e reflexão da experiência.

O jornalismo localiza-se estranhamente entre o “trabalho industrial” e a “arte”. Em outras palavras: devido aos deadlines de produção e outras noções do que o jornalismo deveria ser, algumas pessoas o encaram como algo que um computador pudesse ou devesse fazer. E a velocidade da internet só tornou as coisas ainda piores. É muito mais provável que nós, como sociedade, simplesmente nos “acostumemos” com um mundo onde a indústria de notícias seja mais fraca e sempre envolta em uma constante turbulência. As organizações jornalísticas sempre tentarão ser tão rápidas quanto podem ser, e o que precisamos fazer é educar o público sobre como o jornalismo funciona e por que a primeira publicação de uma notícia nem sempre será a mais precisa.

Em jornalismo, a noção de notícia é frequentemente vinculada com a de fato, de acontecimento. Um eixo no qual o repórter se baseia para a construção noticiosa. Especialmente no modelo ocidental de jornalismo, que possui grande influência de paradigmas estadunidenses de objetividade e factualidade, a relação do acontecimento com o “real” – no sentido de concreto e palpável – é ainda mais forte.

No entanto, como compreender a lógica de acontecimentos organizados, articulados e executados em âmbito digital? Ainda existe razão, afinal, para pensar uma dicotomia entre real e virtual? Os modos de subjetivação contemporâneos, tecidos na textura das redes digitais, são todos, potencialmente, acontecimentos públicos, e isso dinamiza a cultura, transformando-a: o jornalismo precisa dar conta disso, com narratividades que tocam delicadamente ao campo do sensível. E saber narrar o outro, com toda a complexidade que isso comporta, é um dos principais desafios do jornalismo, em qualquer modalidade.

As novas mídias, a produção independente, a interatividade e as redes sociais não alteraram o maior e mais fundamental preceito do jornalismo: contar uma boa história baseada em fatos. Assim como é necessário que o antropólogo “mergulhe” nas culturas que pesquisa, o jornalista também precisa “imergir” nas suas pautas. A grande diferença atual do “jornalismo imersivo” em relação ao que chamamos de “jornalismo tradicional” é o acesso maior a tecnologias digitais e espaços virtuais que permitem ao profissional praticar esse ideal de “mergulho mais profundo” ou investigação mais intensa de suas histórias. Não devemos cometer o erro de confundir “jornalismo imersivo” simplesmente com a possibilidade de utilização de novas tecnologias para a produção de notícias.

Como bem dizia Machado de Assis (1839-1908), enquanto jornalista e crítico da imprensa: “O jornal é a verdadeira forma da república do pensamento. É a locomotiva intelectual em viagem para mundos desconhecidos, é a literatura comum, universal, altamente democrática, reproduzida todos os dias, levando em si a frescura das ideias e o fogo das convicções” (O jornal e o livro, 1859).

O jornal artesanal deu lugar ao jornal empresa. Apareceu a televisão e mais recentemente a internet. O que “desumaniza” a cobertura jornalística é a falta de talento, de preparo adequado (educação/treinamento apropriados) e principalmente falta de “humanidade” da parte dos jornalistas. Ou seja, não são as tecnologias que “desumanizam” os jornalistas. Elas são meros instrumentos de acesso aos fatos. O que desumaniza o profissional de jornalismo é o individualismo ou egoísmo exacerbados, a ambição desmedida, a falta de objetivos sociais e principalmente a falta de empatia ou de generosidade em relação aos demais seres humanos.

Nem toda inovação se resume à tecnologia. O que precisamos é de novas tecnologias com novas ideias ou novas narrativas. Texto pobre e chato não tem leitor. Defendendo o jornalismo criativo, Nelson Rodrigues (1912-1980) acreditava que a vida nunca se encaixaria no gesso da objetividade: “Ora, o jornalista que tem o culto do fato é profissionalmente um fracassado. Sim, amigos, o fato em si mesmo vale pouco ou nada. O que lhe dá autoridade é o acréscimo da imaginação” (Manchete, 31/03/1956).

É importante frisar a declaração de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) à entrevistadora Lya Cavalcanti (1901-1998) na Rádio MEC, em 1954: “O jornalismo é a escola de formação e de aperfeiçoamento para o escritor, isto é, para o indivíduo que sinta a compulsão de ser escritor. Ele ensina a concisão, a escolha das palavras, dá noção do tamanho do texto, que não pode ser nem muito curto nem muito espichado. Em suma, o jornalismo é uma escola de clareza de linguagem, que exige antes clareza de pensamento. E proporciona o treino diário, a aprendizagem continuamente verificada. Não admite preguiça, que é o mal do literato entregue a si mesmo. O texto precisa saltar do papel, não pode ser um texto qualquer. Há páginas de jornal que são dos mais belos textos literários. E o escritor dificilmente faria se não tivesse a obrigação jornalística”.

Do impresso para o mundo virtual, o jornalismo continua sendo altamente criativo, adaptativo e relevante. Uma sociedade midiatizada imersa em uma lógica conectiva tem interesse, apoia e patrocina a investigação jornalística “de qualidade”. O problema é identificar o que ainda é considerado relevante e de qualidade.

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Marcos Fabrício Lopes da Silva é doutor e Mestre em Estudos Literários pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (FALE/UFMG). Poeta, escritor, professor e pesquisador. Jornalista, diplomado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), e autor do livro 𝗠𝗮𝗰𝗵𝗮𝗱𝗼 𝗱𝗲 𝗔𝘀𝘀𝗶𝘀, 𝗰𝗿𝗶́𝘁𝗶𝗰𝗼 𝗱𝗮 𝗶𝗺𝗽𝗿𝗲𝗻𝘀𝗮 (Outubro Edições, 2023-2024). É participante do Coletivo AVÁ, coorganizador do Sarau Marcante e Membro da Academia Cruzeirense de Letras – ACL (Cruzeiro-DF).