
(Foto: Mktomasik/Pexels)

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Não sei com precisão qual é o número exato de pessoas envolvidas com o problema. Mas sei que faço parte de um grande contingente que empurra para frente a hora de trocar o telefone celular velho, desencorajadas pelo medo de perder dados na hora da transferi-los para o novo aparelho. Vivi a experiência recentemente e acredito ser a minha obrigação como repórter fazer um relato do que aprendi para ajudar as pessoas a dar um drible de craque no medo. Para não escrever bobagens, não vou me aprofundar nas questões técnicas da operação. Vamos conversar sobre o assunto.
Antes vou fazer um relato para explicar ao leitor que não é jornalista sobre os medos que acompanham a vida profissional dos repórteres. Comecei a trabalhar em redação em 1979 e fiquei por lá até 2014. Logo nos primeiros passos na profissão entendi que era necessário se especializar em alguns assuntos para ser relevante para o leitor. Tornei-me referência em conflitos agrários, migrações e crime organizado nas fronteiras com os países vizinhos, em especial o Paraguai. Por conta disso, sempre viajei muito pelos rincões do Brasil e da América do Sul. E foi em uma destas viagens que bati de frente com “o maior de todos os medos” presentes no cotidiano do repórter: perder o bloquinho de anotações. Na época, aprendi com os colegas mais experientes que cada bloco deveria ser numerado pela ordem em que fosse usado. E que as anotações deveriam ser escritas com uma letra que não deixasse dúvidas na hora de redigir a matéria. Porque, ao redigir a matéria, não tinha mais como entrar em contato com a maioria dos entrevistados. O celular ainda não existia e mesmo os telefones fixos eram raros. No meu caso, em uma viagem de três semanas eram preenchidos uns 30 blocos de 40 páginas. Nas viagens, fazia parte da rotina do repórter, antes de fechar a bagagem pela manhã no hotel, verificar se todos os blocos de anotações estavam na mala. À medida que o final da apuração se aproximava aumentava o estresse com a segurança das anotações. Vou contar um episódio que vivi em uma manhã, na hora de acertar as contas na recepção de um hotel em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. Eram os dias finais de uma viagem de dois meses pelos sertões do Brasil trabalhando em uma reportagem sobre as famílias dos gaúchos e seus descendentes que haviam migrado para as fronteiras agrícolas, como eram chamadas as regiões escassamente povoadas do território brasileiro. Na hora de verificar a bagagem que tinha sido trazida do apartamento por um funcionário do hotel notei a ausência das minhas botas, que eu usava na hora de transitar pelas lavouras. O carregador da bagagem voltou ao apartamento para verificar se as botas tinham ficado para trás. Instantes depois, ligou de lá avisando a portaria que as botas não estavam no apartamento. A notícia causou uma pequena discussão minha com as funcionárias do hotel. Foram poucos minutos de bate-boca, mas que na ocasião pareceram intermináveis. Tudo acabou quando uma funcionária se debruçou sobre o balcão e me perguntou: “Por acaso as suas botas não são estas nos seus pés?” Eram. “São, me desculpem”, respondi, envergonhado. Claro, o meu estresse com a bagagem era causado pelos bloquinhos de anotações. Com diferentes versões, a história das botas é contada ainda hoje nas mesas dos botecos entre os jornalistas.
Na época, além do bloquinho de anotações, os repórteres tinham uma agenda de papel onde eram anotados os nomes das fontes, seus telefones, endereços e outras informações úteis na hora de redigir a matéria. Nos dias atuais, as anotações e a agenda de fontes estão todas guardadas dentro do celular. Pelo que me lembro, desde que tive meus primeiros celulares sempre tive medo de perder informações na hora de trocar o aparelho por um novo. Medo que foi aumentando à medida que surgiam aperfeiçoamentos técnicos que garantiam o armazenamento de novas e diversificadas informações. Lembro de uma troca de aparelho que fiz em 2018. Foram duas semanas de caos na minha rotina de repórter. Várias informações simplesmente desapareceram. Foi este medo que senti no início de julho, quando o meu celular simplesmente “deu os doces”, gíria de redação para descrever pane. Tinha um compromisso agendado entre os dias 10 a 13, em São Paulo, no 20º Congresso Internacional de Jornalistas Investigativos, promovido pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Estavam dentro do meu celular todas as informações sobre a minha participação no evento (passagens aéreas, hospedagem, roteiro das palestras que participaria e outras). Além da minha agenda de fontes, informações sobre um novo livro que comecei a escrever e do blog Histórias Mal Contadas. Uns quatro dias antes de viajar para São Paulo levei celular a uma loja de consertos da qual sou antigo freguês. Em nome da minha fidelidade com a loja pedi ao técnico que me desse a real sobre o meu aparelho. Ele explicou: “Tem conserto. Mas não tem como garantir que o defeito não volte”. Eu perguntei. “Por que não tem garantia?”. Ele respondeu: “Ele é muito velho e tem um exagero de dados armazenados”. No dia seguinte comprei um aparelho novo e me preparei para o pior. Fazendo várias anotações em um bloco de informações para ter como garantia caso desaparecesse algum dado na transferência para o novo equipamento. Comprei o celular em uma das lojas da operadora da qual sou cliente. Fui atendido por um jovem que iniciou a conversa falando sobre a capacidade técnica do celular que tornava o seu preço uma barganha. A primeira pergunta que fiz foi sobre a transferência de dados. Ele respondeu: “Uma nova lei proíbe que a operadora faça a transferência dos dados entre os aparelhos. Agora, quem faz é uma consultora do fabricante do aparelho. Ela vai estar na loja amanhã, às 10h30min”.
O “amanhã” era véspera da minha viagem para São Paulo. Confesso que não dormi direito à noite preocupado com a transferência de dados. Era confortado com a certeza de que, se desse errado, eu tinha as anotações que fiz no bloco. Faltando alguns segundos para as 10h30min eu estava na loja, onde fui recebido pela consultora. Relatei que era um velho repórter que tinha um drama com a transferência de informações. Ela disse: “Fica tranquilo, hoje é feito por um aplicativo”. Perguntei quanto tempo duraria a operação. “Em média, duas horas”, respondeu. A transferência de dados começou pelas 10h40min e foi terminar pelas 19h15min. Arredondando, durou 10 horas. Durante todo o tempo a consultora ficou conversando comigo, dizendo que tudo iria dar certo. Eu insistia na pergunta sobre o motivo da demora. Ela respondeu que era devido ao excessivo volume de informações estavam sendo transferidas. Lembrei que havia feito uma faxina no aparelho. Ela perguntou: “O senhor colocou no lixo?”. Respondi que sim. “Limpou o lixo?”, foi a próxima pergunta. Respondi que não. “Deveria ter limpado”, ela explicou. “Sabe quantas fotos estão sendo transferidas?” Disse que não sabia. “Estão sendo transferidas 34.804 fotos”, afirmou, me mostrando o número no aplicativo de transferência. A minha preocupação seguinte foi com as senhas dos aplicativos, como Facebook, WhatsApp, Uber e outros que eu não lembrava. Ela me disse para eu ficar tranquilo que o problema seria resolvido. No final da transferência, a consultora falou de uma maneira que me faz lembrar das minhas filhas. Ela disse: “Posso dar um conselho para o senhor?” Respondi que sim. “O ideal é trocar de celular de dois em dois anos para evitar dores de cabeça na hora da transferência de dados”. Pedi para uma das filhas fazer o check-in da passagem aérea no meu novo celular. Ouvi dela umas dicas de como usar o novo aparelho. E fui à luta. No fim, deu tudo certo em São Paulo. Talvez na próxima troca de celular já exista uma nova tecnologia.
Publicado originalmente em “Histórias Mal Contadas”
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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.