Sábado, 14 de março de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1379

Um pequeno e (des)pretensioso manual de desmontagem da TV brasileira

Abro a janela e a luz azul não chega. Durante décadas, ela organizou nosso dia: o gol de domingo como sino de aldeia e o beijo de sexta como assinatura da semana. Diante da lareira elétrica, aprendíamos uma língua comum, o drible em coro e a trama em capítulos. Hoje tropeçamos em cabos, logins, pacotes e termos de uso. O estádio virou set, a novela virou métrica e nós, figurantes de um espetáculo que nos revende a própria vida, assistimos à demolição lenta do último fogo comum. Poeira fina sob o tapete: antenas sem céu e slogans sem praça. O fim da TV não virá com bombas, mas com funis de dados; o que não virar mercadoria de nicho vira entulho.

Houve um tempo em que a TV aberta era o relógio do país. O domingo tinha dono; à noite, a novela ensinava sotaques e modos. Víamos juntos e, por um instante, o Brasil se reconhecia. Essa praça nunca foi neutra, mas seu AO VIVO tinha força pública: o que aparecia existia.

O século virou e o fluxo linear rachou. Vieram múltiplos canais, telas de bolso e, por fim, a lógica de plataforma: audiência vira dado, grade vira algoritmo, público vira usuário. O oligopólio da antena cede lugar ao da nuvem e da atenção. Repete-se o manual: fragmentar para recompor. Direitos do futebol se pulverizam em pacotes e pay-per-views; a novela migra para temporadas calibradas por retenção. O evento de todos se quebra em miniaturas privadas. O torcedor vira assinante seriado e o espectador, persona segmentada. Na régua do investidor, a praça é desperdício: melhor o corredor estreito onde cada um passa sozinho e paga pedágio.

É aí que a financeirização entra na sala de roteiro. Métrica vira lei. A técnica manda na emoção: não vale a melhor câmera, vale a que prolonga o tempo de tela; não vale o desfecho mais justo, vale o gancho que impede a pausa e captura mais um minuto de retenção. A forma se contorce para obedecer ao painel e o tempo, antes experiência comum, vira recurso minerável.

E sequestraram o tempo…

Como? No futebol, replay sem fim e VAR esticam a dúvida até virarem conteúdo; na novela, o gancho cresce e o episódio serve migalhas. O que era experiência comum vira recurso minerável. O gol, explosão coletiva, vira gotejamento: três assinaturas para ver o próprio clube, calendário fatiado, intervalo vitrine de apostas, arquibancada encarecida. O estádio vira set: luz padrão, patrocínios, bastidor e intimidade sob demanda. Jogador vira marca; clube, ativo financeiro; SAF traz relatórios e metas e o risco de reduzir o jogo à planilha. Em campo, o VAR coreografa a dúvida; fora, apps transformam torcer em tarefa medida. O radinho vira app rastreável e a escuta, indicador de desempenho, o tal do KPI. Nos porões, equipes enxutas, operações remotas e freelancers à la carte: mais câmeras, menos decisão, mais conteúdo, menos jornalismo. Ao redor, casas de aposta vendem participação e financeirizam o afeto onde o salário não fecha o mês.

O folhetim em cativeiro

A novela sempre falou com a rua: conversa no ônibus e na fila. Folhetim industrial que ouvia o murmúrio e ajustava rumos. Com a lógica de plataforma, vira temporada e o algoritmo age como autor fantasma: se a retenção cai no minuto 17, o capítulo seguinte obedece; personagens aprovados se multiplicam, os cansados somem sem luto. Não faltam boas histórias, falta rua. O encontro simultâneo se dissolve no sob demanda e no comentário fechado; a novela imita a série, que imita o assunto. A estética segue métricas de fricção mínima e o polimento mata a aspereza que dava liga ao comum.

O folhetim não morreu! Vive em vídeos curtos, podcasts e dossiês seriados. O que morre é a infraestrutura da simultaneidade massiva. Sem praça, o coro vira nicho. Não é apocalipse: futebol e novela mudam de habitat, mas o comum se perde. Sem encontro massivo, esfarela a conversa democrática; o coletivo vira quebra-cabeça de assinaturas e a praça se submete a regras opacas e extração de dados.

Como reorganizar o comum?

Se a TV virou entulho, nosso trabalho é reaproveitar o material, não por saudosismo de antena, mas para erguer novas lareiras públicas. Isso significa tratar telecomunicação como política cultural: cidades oferecendo rede e espaço, coletivos cuidando da programação, universidades formando gente com técnica e pensamento crítico. O AO VIVO precisa voltar à rua: telões em praças, jogos com conversa depois do apito, capítulos exibidos com debate; cineclubes de bairro, jornal mural e produções radiofônicas ou podcasts de base para devolver continuidade às histórias locais. É também construir plataformas cooperativas de streaming com tecnologia aberta, acervo regional, financiamento público, métricas transparentes e propriedade coletiva, enquanto a várzea vira política de Estado, campos, arbitragem comunitária, mídias de periferia, calendário que não obedece à planilha das apostas. Nas escolas e movimentos, educomunicação estruturante para que as pessoas produzam a própria narrativa, com ética, técnica e conflito. Tudo isso custa, mas custa menos do que terceirizar a alma de um país e devolve o que o mercado não entrega: repertório comum.

Se o algoritmo virou roteiro de baixa fricção, precisamos de algoritmos públicos: código auditável, objetivos explicitados, curadoria com participação social. Do fluxo ao feed, mudou quem captura valor: antes vendia-se audiência em bloco; agora vendem-se comportamentos e dados, enquanto o usuário ainda paga para acessar. É dupla cobrança na carteira e na subjetividade. No futebol, multiplicam-se cliques, apostas, lojas oficiais, marketplaces; na novela, testes de emoção, formatos replicáveis, franquias. A finança impõe metas: sem retenção, não há existência. Na outra ponta, o trabalho se precariza: roteiristas por pacote, jornalistas transformados em conteudistas, técnicos por diária, sindicatos asfixiados. Promete-se liberdade criativa enquanto se aperta o botão do painel de controle.

A forma também muda de lugar: o antigo fluxo se estilhaça em microfluxos personalizados; a mediação vira cálculo de perfil; a estética curva-se ao painel. Vivemos a sociedade dos painéis de controle: mais ângulos de replay que esquinas no bairro; o close da lágrima alongado para agradar à retenção; o silêncio evitado por medo do minuto a minuto. Sem simultaneidade massiva, o debate público se pulveriza. A conversa antes aberta desloca-se para silos privados; crítica vira ódio, divergência vira desengajamento, curadoria vira segurança da marca. Não lamento a morte da televisão como indústria dominante; lamento a morte do comum como experiência. O problema não é o fim do monopólio, é o vazio de infraestrutura pública que ele ocupava. Se a ruína virar poeira, perdemos o mecanismo do encontro. Quando a praça vira login, o comum desloga. Precisamos de outra arquitetura: aberta, partilhada, auditável e viva.

Depois do entulho, o comum 

É possível instituir um fundo de inovação cultural voltado a formatos seriados de interesse social com licenças abertas e exibição pública obrigatória; reformar a legislação de mídia e telecomunicações para reservar espectro e banda a iniciativas comunitárias, cooperativas e universitárias como pilar e não exceção; exigir transparência algorítmica nas plataformas que operam jornalismo, esporte e dramaturgia no país com critérios publicados, auditorias independentes, instâncias de recurso e participação social; inserir educação midiática no currículo para formar produtores conscientes que leem imagens, montam planos, entendem contratos e protegem dados; transformar a cidade em estúdio público equipando escolas, associações, unidades de saúde e praças para exibir, gravar e transmitir, promovendo a democratização radical do ao vivo.

Do luto pelo fluxo à luta pelo comum, reconheço que futebol e novela tal como a televisão os organizou têm os dias contados. Em vez de nostalgia ou tecnofetiche, é hora de varrer o entulho e usar o material. Acender novas lareiras públicas. Pôr telões onde há muros, microfones onde há becos, roteiros onde há silêncio. Fazer do AO VIVO, um encontro e não um funil de dados, fazer do folhetim uma trama que volta a ouvir o povo e não a obedecer a planilhas. Que o gol volte a parar a esquina porque decidimos nos encontrar. Que o beijo de novela encenado por um grupo de bairro e transmitido por uma cooperativa reconcilie a trama com a vida. O comum não precisa de antena, precisa de vontade política e imaginação. Este é o capítulo que nos cabe escrever agora. O resto que fique às métricas.

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Richardson Nicola Pontone é Comunicador social, professor e documentarista. Docente da Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Divinópolis para os cursos de jornalismo e publicidade e propaganda.