Quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

O nós contra eles da Grande Mídia no Brasil

(Foto: Terje Sollie/Pexels)

Nos últimos dias, as propostas de revisão do IOF e a taxação dos super ricos, apresentadas pelo governo Lula, receberam especial atenção da Grande Mídia. Em editorial intitulado “Lula é quem mais tem a perder com o ‘nós contra eles’”, publicado em 30/06, o jornal O Globo defendeu com unhas e dentes o decreto do Congresso que revogou as medidas do governo sobre o IOF, concordando com a afirmação de Motta de que “quem alimenta o nós contra eles acaba governando contra todos”. Por fim, o texto classifica o discurso de justiça social do governo como embolorado, culpando-o pela ascensão da extrema direita, que ameaçou a democracia. No dia 3 de julho o Jornal Nacional dedicou 7 minutos de sua programação para uma reportagem sobre o tema, defendendo claramente as decisões do Congresso Nacional contrárias às propostas do Executivo.

Já a Folha de S. Paulo publicou 49 reportagens sobre o tema entre 25 de junho (quando Motta pautou a derrubada da proposta de IOF do governo) e 7 de julho, revelando a centralidade do tema na cobertura da Grande Mídia. Assim como a Globo, a Folha também deu maior espaço para opiniões de políticos do centrão que justificaram a derrubada da proposta de revisão do IOF. No dia 25/06, por exemplo, o portal publicou 6 reportagens sobre o tema, porém apenas uma repercutiu a fala de um governista, no caso a opinião do líder do PT no Congresso, classificando a votação da derrubada do IOF como “provocação infantil”.

Por outro lado, repercutiu a fala de aliados de Motta negando a radicalização do presidente da Câmara dos Deputados e defendendo que a atitude de Motta teria sido uma “reação contra a falta de medidas concretas do governo para a redução de gastos”. No mesmo dia, o jornal ainda publicou a justificativa de Motta, afirmando que a derrubada da revisão do IOF ocorreu devido à insatisfação dos parlamentares com o atraso do repasse de emendas e pelas críticas de governistas às medidas do Congresso que irão aumentar a conta de luz.

Já no dia 26 de junho a Folha de S. Paulo publicou 6 reportagens sobre o tema. Apenas uma delas repercutiu uma fala de Haddad sobre a possibilidade de judicializar a decisão do Congresso. Por outro lado, publicou um texto intitulado “Congresso está pistola com a polarização econômica”, uma reportagem que reforçou a insatisfação com o governo por parte do Congresso, uma entrevista do presidente da Fiesp citando a contradição entre o aumento do número de deputados e a derrubada do aumento do IOF, porém defendendo a última medida. Além disso, ainda deu voz ao presidente dos Republicanos ameaçando o governo ao afirmar que a ida ao STF era um movimento perigoso.

Já no dia 29 de junho o referido jornal publicou um texto de opinião intitulado “A pobreza da campanha política de Lula 3 contra a desigualdade”. O texto afirma que a defesa do “andar de baixo” e a maior taxação “da cobertura” teria se tornado o mote da propaganda política de Lula 3. Tal atitude seria uma reação contra situações que teriam revelado as muitas fraquezas do governo, além de terem o objetivo de “remendar as contas públicas e de manter dinheiro para bancar planos de impacto eleitoral”. Chama a atenção o fato de o jornal, por meio de sua coluna Opinião, não discutir com alguma profundidade a proposta do governo, reduzindo-a a um mero remendo nas contas públicas com objetivos eleitorais.

O tom pessimista da Folha em relação ao governo ainda pôde ser sentido no dia 30 de junho em reportagem que associa a derrota do governo sobre o IOF ao agravamento das dificuldades eleitorais que Lula enfrentará em 2026. Já o texto da coluna Opinião do dia 2 de julho defende que os governos devem encontrar propostas que convirjam com a maioria do Congresso ou que seria melhor adotar o Parlamentarismo. Tal abordagem revela a crítica implícita do jornal à proposta de justiça tributária do governo rechaçada pelo Congresso. Porém, no dia 4 de julho, a Folha de S. Paulo foi mais explícita sobre sua visão do assunto, no texto “Taxação BBB leva luta de classes ao reality da crise”, também publicado na coluna Opinião.

Em linhas gerais, o texto reforça as críticas ao que os políticos do centrão classificaram de “política do nós contra eles”, defendendo que a taxação de bancos, bets e bilionários não representa uma solução para os impasses do país. O texto aponta como problemas reais o aumento do salário mínimo acima da inflação, os gastos com a Previdência e com as despesas obrigatórias do Orçamento (saúde e educação). Fica evidente que a publicação defende exatamente aquilo que o mercado deseja: a diminuição nos investimentos na saúde e na educação pública, uma nova reforma da Previdência, ainda mais onerosa aos trabalhadores do que a aprovada por Bolsonaro, e o fim do aumento real do salário mínimo.

Por fim, no dia 6 de julho a Folha de S. Paulo publicou uma entrevista na qual Campos Neto afirma que o discurso “nós contra eles” é ruim e não fará o país crescer. No mesmo dia, a coluna Opinião publicou um texto que acusa Lula de ter perdido a chance de ser um estadista e realizar uma aliança democrática por resistência ao golpismo. O conclui com a afirmação de que “o recurso desesperado ao STF assinala o declínio da autoridade política de Lula”.

A análise das publicações do O Globo e da Folha de S. Paulo sobre as propostas de justiça tributária do governo Lula demonstra um claro alinhamento nas ideias defendidas por estes dois veículos de comunicação de enorme alcance. Podemos dizer, em linhas gerais, que a Grande Mídia reduz as propostas do governo a uma chamada “política do nós contra eles”, insistindo que Lula deseja alimentar a luta de classes e a polarização social. Porém, o que os editoriais citados tentam dissimular é que o “nós contra eles” está instituído há muito tempo na imprensa tradicional brasileira.

A história comprova que a Grande Mídia esteve sempre a serviço do Grande Capital no Brasil. Qualquer proposta de justiça social que pudesse retirar o mínimo privilégio dos bilionários brasileiros sempre foi alvo de reações raivosas por parte dos principais veículos de comunicação do país. Podemos citar como exemplo as duras críticas recebidas por Vargas, quando o ex-presidente apresentou a proposta de aumento de 100% no salário mínimo, em 1954, após uma inflação acumulada de 40% nos anos anteriores. Em estudo sobre a repercussão deste decreto na Grande Mídia, Martins (2011, p. 150) defende que o projeto de Vargas foi recebido “de forma bastante negativa pelos jornais pesquisados, com posicionamentos extremados de alguns deles (Correio da Manhã e O Globo), que retrataram a medida como o prenúncio do caos na economia e na sociedade brasileira”.

A mesma Grande Mídia atuou de maneira raivosa em relação às Reformas de Base apresentadas por João Goulart, que visavam enfrentar desigualdades históricas brasileiras. Curiosamente, um dos pontos das reformas era a reforma tributária, tornando a tributação mais progressiva, fazendo os mais ricos pagarem mais impostos. Filho (2008, p. 190) sustenta que diante das propostas de Jango houve uma competente mobilização de “toda a mídia para uma campanha sistemática de incompatibilização da opinião pública com o governo – definido como perigosamente comunista […]”. A atuação da mídia em defesa dos interesses do Grande Capital foi tão esdrúxula que o jornal O Globo, no dia seguinte ao golpe que instalou o Regime Militar classificou o evento como o “Ressurgimento da Democracia no país”.

Hoje sabemos que a maior parte da mídia brasileira prestou apoio incondicional à Ditadura Civil-Militar, período em que os bilionários brasileiros aumentaram significativamente suas fortunas às custas do aumento da pobreza e da desigualdade social no país.

Portanto, fica evidente que o verdadeiro “nós contra eles” existente na sociedade brasileira parte da aliança historicamente constituída entre a Grande Mídia e o Congresso Nacional, ambos financiados pelo Grande Capital. O fato de os grandes veículos de comunicação e das maiores bancadas do Congresso serem financiados por recursos provenientes dos mesmos bilionários faz com que ambos defendam as mesmas pautas, não raramente interessantes ao super ricos e avessas ao conjunto da população brasileira. Tal articulação fica evidente, mais uma vez, na recusa do Congresso em aceitar reformas tributárias que contribuam para a justiça social e na atuação da Grande Mídia tentando inviabilizar o governo que ameaça reduzir minimamente os gritantes privilégios da elite brasileira.

Referências

MARTINS, Luis Carlos dos Passos.  SALÁRIO, INFLAÇÃO E SUBVERSÃO: a visão da grande imprensa do Rio de Janeiro sobre o aumento de 100% do salário mínimo durante o Segundo Governo Vargas. Historiae, Rio Grande, 2 (1), pp. 137-152, 2011.

FILHO, Oswaldo Munteal. As Reformas de Base na Era Jango. Relatório de Investigação de Pós- Doutoramento, Rio de Janeiro: FGV, 2008.

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Diogo Comitre é professor do IFSP; mestre e doutorando do Programa de História Social da Universidade de São Paulo.