
(Foto: brotiN biswaS/Pexels)
“Finalmente o colonialismo está de volta. Já era hora!” Foi dessa maneira que o The New York Times se pronunciou no início da década de 1990. Quem nos impede de esquecer tal episódio é Domenico Lorusdo, que acrescenta em suas reflexões o pensamento de Karl Popper. Para este filósofo liberal austro-britânico: “Libertamos estes Estados (ex-colônias) depressa demais e de maneira demasiado simplista; é como deixar um orfanato entregue a ele mesmo”. São povos considerados meio “crianças”, meio “diabos”, e à medida que se rebelam crianças e diabos, é justo que sejam severamente punidos por aqueles que são os únicos adultos titulares, “os países e as classes dirigentes do civilizado mundo capitalista” ocidental. Continuemos com Losurdo: “Ao reivindicar novas guerras do Golfo e novas expedições contra ‘bárbaros’ estranhos à comunidade do ‘mundo civilizado’, Popper procede a uma explícita reabilitação do colonialismo”. Há não apenas a construção de um mundo maniqueísta, mas são recalcados “os horrores de um capítulo da história que hoje as grandes potências se recusam a encerrar”.
A manchete do grande jornal estadunidense, o posicionamento de Popper e sobretudo as reflexões de Losurdo nos ajudam a pensar um pouco melhor sobre a publicação da revista The Economist, a qual criticou, de maneira um tanto agressiva, Lula da Silva. Estaria o presidente brasileiro “cada vez mais hostil ao Ocidente”. A grande revista britânica demonstra certo desconforto com o fato de Lula não ter tentado se aproximar de Trump: “Não há registro de que os dois homens tenham se encontrado pessoalmente, o que torna o Brasil a maior economia cujo líder não apertou a mão do presidente dos Estados Unidos”. Tal atitude parece ser lida não apenas como uma hostilidade ao Ocidente, mas como um pecado. Como pode Lula da Silva ainda não ter apertado a mão do presidente país-guia do Ocidente? Talvez o presidente Lula devesse pôr o chapéu do MAGA, ou agir como Milei – mencionado pela revista –, que demonstra, sem indulgência, a sua paixão por Trump. Nas palavras do argentino, “o presidente do país mais importante do planeta”.
Mas a The Economist dá grande ênfase ao posicionamento crítico e independente do Brasil – denúncia que recebe grande espaço na imprensa brasileira. Escreve a grande revista liberal: “Quando os Estados Unidos bombardearam as instalações nucleares do Irã na semana passada, a reação do Brasil estava em desacordo com todas as outras democracias ocidentais, que ou apoiaram os ataques ou apenas expressaram preocupação”. Ao não apoiar incondicionalmente o direito dos EUA e Israel de agredir uma nação soberana e falar abertamente sobre o assassinato do seu líder e de mudança de “regime”, Lula, de acordo com a revista, é “incoerente no exterior”. Há ainda evidente hostilidade aos BRICS:
“Esta simpatia com o regime iraniano deverá continuar no início de julho, quando o Brasil sediará a cúpula dos BRICS das economias de mercado emergentes. Espera-se que as delegações da China, Rússia e Irã participem. O papel do Brasil no centro de um BRICS expandido e mais dominado por autoritários faz parte da política externa cada vez mais incoerente do seu presidente”.
Nos vemos diante de uma glorificação ao Ocidente, como um espaço de civilização, e um ódio àqueles “bárbaros estranhos”, que não se alinham aos interesses das grandes potências capitalistas. Constrói-se um mito: democracias liberais X ditaduras e teocracias. Esse cálculo recalca um longo capítulo da história ocidental – caracterizado pelo colonialismo e imperialismo até muito recentemente. Mas também o presente. O Ocidente glorificado pela The Economist e pela grande imprensa brasileira, sob a liderança do seu país-guia – cujo líder Lula peca em não correr para apertar a mão! –, não é apenas omisso e conivente, mas participa ativamente do genocídio palestino dirigido pelo Estado de Israel.
Lê-se na Veja, do início de 2022: “Ocidente bombardeia a Rússia em novo front: a guerra cultural. Do tradicional balé Bolshoi à banda de rock Green Day, a Rússia enfrenta boicotes e cancelamentos em todas as áreas da arte e entretenimento”. Tal movimento inicia-se poucos dias após as ações militares russas em solo ucraniano. Para além das sanções econômicas, como o banimento de bancos russos do sistema bancário Swift, ao país é imposto “um boicote sem precedentes no campo das artes e do entretenimento”: o balé, as artes plásticas e a música. O boicote é apresentado como “uma ferramenta de uma guerra com o intuito de isolar a Rússia também culturalmente, excluindo-a do circuito mundial do audiovisual e dos espetáculos”.
Todo esse vigor humanista do Ocidente desaparece quando se trata de Israel. Não se vislumbra nenhum esforço verdadeiro para frear o extermínio de civis, que estão sendo aniquilados até na fila por alimentação. Após mais de um ano de bombardeios em hospitais e escolas, com dezenas de milhares de mulheres e crianças trucidadas, em maio deste ano, “os líderes da França, Canadá e Reino Unido pediram a Israel o fim de suas ‘ações escandalosas’ na Faixa de Gaza e prometeram responder com ‘medidas concretas’ caso a ofensiva militar não seja interrompida”. Nada de concreto é feito. Israel continua gozando de total apoio dos Estados ocidentais. O massacre segue em curso. Há alguns dias, Israel admitiu “ter matado civis em busca de ajuda humanitária em Gaza (…). Forças de Tel Aviv reconhecem bombardeios ‘imprecisos’, que vitimaram civis”. O massacre deliberado de civis famintos é uma política de Estado.
Nada disso parece despertar um posicionamento mais firme do Ocidente e sequer aparece nos cálculos feitos pela The Economist, cujo resultado é Europa e EUA como democracias baluartes da liberdade e dos direitos humanos X China, Rússia e Irã, Eixo do Mal, ao qual Lula da Silva se alinha. Para glorificar o Ocidente é mesmo necessário fazer tal movimento: recalcar não apenas a sua história de colonialismo e imperialismo, que produziu uma quantidade absurda de vítimas na Ásia e na África, mas também o seu presente de omissão, conivência e apoio ao genocídio palestino.
Se aqueles que promovem tal genocídio não são alvos de censura por parte dos Estados ocidentais, nos EUA são os defensores da causa Palestina os alvos de repressão por parte do governo Trump, aquele que o presidente do Brasil não procurou para apertar a mão, cometendo verdadeiro absurdo. Como mostra a revista Veja:
“Nos Estados Unidos, agentes de imigração prenderam um dos líderes da onda de protestos pró-Palestina na Universidade de Columbia, que tomou campi mundo afora. A medida vai de encontro com outras ações do presidente americano, Donald Trump, para punir ativistas anti-Israel, como a assinatura de um decreto para deportar estrangeiros que participaram das manifestações e a suspensão de US$ 400 mil em financiamento para a instituição de ensino”.
A glorificação do Ocidente por parte da The Economist soou patética até para Guga Chacra, jornalista insuspeito de ser sequer anti-imperialista.
“Chama a atenção é essa coisa de Ocidente. De que Ocidente a revista está falando? Porque o presidente (estadunidense, Donald) Trump tem boa relação com regimes autoritários. Para a primeira viagem dele, escolheu Arábia Saudita, Emirados Árabes e Catar, os países do Golfo. Ele não foi visitar tradicionais aliados europeus. Trump ataca o tempo todo a democracia canadense. Então de que Ocidente fala?”
Trata-se de um Ocidente mitológico: um Ocidente no qual nunca houve o pensamento racial e o colonialismo que deram base para o desenvolvimento do Terceiro Reich; um Ocidente no qual Londres – onde está sediada a The Economist – nunca ergueu campos de concentração no Quênia, nos quais “as mulheres eram interrogadas, chicoteadas, reduzidas à inanição e submetidas ao trabalho forçado, que incluía o preenchimento de valas comum com cadáveres provenientes de outros campos de concentração”. Trata-se dos EUA, nos quais nunca vigorou o regime da White Supremacy que inspirou os ideólogos nazistas. Trata-se de uma Europa que nada tem a ver – na verdade, sequer sabe que existe – com a informação que nos traz Jamil Chade: “Mais de 500 palestinos morreram e outros 4.000 ficaram feridos em menos de um mês ao buscarem doações em centros de distribuição de alimentos criados pelos governos de Israel e dos EUA em Gaza”.
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Osnan Silva de Souza é Doutorando em História pela Unicamp.
