
(Imagem: Divulgação)
Se olharmos rapidamente os dados do Atlas da Notícia sobre a Grande São Paulo teríamos motivos para comemorar. Pela primeira vez desde o início do levantamento, em 2017, a região metropolitana passou a ter menos cidades sem nenhuma organização de jornalismo local, os chamados desertos de notícias. De quatro municípios em 2023, agora são apenas dois.
O movimento é semelhante ao verificado no Brasil como um todo, onde a criação de novos veículos online fez com que 208 municípios saíssem da escassez completa de jornalismo.
O total de veículos também cresceu levemente em 2025, chegando a 1.111 na região metropolitana, ante 1.093 no levantamento no ano anterior, conforme dados compilados pela Agência Mural no estudo realizado pelo Projor (Fundação para o Desenvolvimento do Jornalismo).
Apesar dessas pequenas boas notícias, o cenário ainda está longe de ser animador.
Desde o primeiro levantamento, a Mural usa os dados do censo sobre o jornalismo local para retratar o avanço (ou o retrocesso) dos desertos de notícia na maior metrópole da América Latina.
Em 2024, produzimos a reportagem especial Sem Notícias: como é a vida em uma cidade sem jornalismo local, que mostrou os impactos da ausência de cobertura independente em Pirapora do Bom Jesus.
Os 18 mil habitantes da cidade dependem do boca a boca, têm dificuldades para acessar informações fundamentais sobre serviços públicos e enfrentam desinformação com frequência – incluindo a circulação acelerada (e nunca checada) de fakenews.
No levantamento deste ano, Pirapora deixou de ser considerada um deserto de notícias e passou a ser um “quase deserto”, com dois veículos cadastrados. O problema está em quem são essas novas organizações de mídia.
Uma delas é a Rádio Nova Pirapora, uma emissora comunitária ligada por meio de familiares ao atual prefeito, Gregório Maglio (MDB), com cobertura voltada a esse grupo político. A emissora, ao que tudo indica, antes aparecia no estudo com registro em um município vizinho.
O outro veículo é o Diário Piraporano, portal que funciona, na prática, como um espelho do site da prefeitura. Só na home de 24 de julho, o nome do prefeito aparece ao menos 16 vezes em títulos positivos.
Essa característica infelizmente não é uma exceção. Muitas das cidades que deixaram de ser classificadas como desertos contam com organizações de mídia que são dependentes do poder público e dos políticos locais. Com isso, o jornalismo independente é pouco ou raramente praticado, inclusive em municípios populosos.
Para ajudar a diferenciar esses tipos de veículos, o Projor criou um programa de Indicadores de Compromisso com o Público, no qual as organizações interessadas podem se candidatar e preencher requisitos mínimos que permitam uma camada de verificação à sua atuação.
Aliado ao levantamento, o Atlas da Notícia traz os dados sobre os mais de 5 mil municípios brasileiros, considerando tanto os desertos ou os “quase desertos” – cidades com apenas uma ou duas organizações de jornalismo local, que estão expostas ao risco de se tornarem desertos. Nesse caso, há uma má notícia para a Grande São Paulo.
Há dois anos, cerca de 1,091 milhão de pessoas viviam em “desertos” ou “quase desertos” na região metropolitana, em 12 cidades. Agora são 1,4 milhão, espalhados por 15 municípios com poucos ou nenhum veículo local.
Ou seja, embora tenha ocorrido a queda de desertos, com nenhum veículo de comunicação, houve um aumento grande de novas regiões com redução na imprensa local. São os casos das cidades de Itapevi, na região oeste, com mais de 200 mil habitantes, e Diadema, no ABC Paulista, com cerca de 400 mil moradores.
Ambas praticamente anulam os avanços das cidades de Itaquaquecetuba e Embu das Artes, que ao contar com três veículos cada uma deixaram de ser consideradas “em risco”.
A queda da presença jornalística também tem relação com o fechamento de jornais impressos. Em 2018, a Grande São Paulo contava com 284 impressos. Há dois anos, eram 259. Agora são apenas 210. Em contrapartida, os veículos online subiram de 661 para 710. Mas a perda de um e o ganho do outro não necessariamente ocorreram nas mesmas cidades.
Exemplo disso é Mairiporã, na região norte da Grande São Paulo. Nos primeiros levantamentos, o município tinha presença jornalística mais robusta. Há dois anos, já era classificado como quase deserto, com apenas um veículo impresso. Este ano, não aparece nenhuma organização ativa para seus 100 mil moradores.
Esse contexto reforça a urgência de discutir formas de fortalecer o jornalismo local, ferramenta essencial no combate à desinformação e defesa da democracia nessas cidades.
A Mural tem atuado nesse sentido. Pela primeira vez, temos um correspondente local em Pirapora do Bom Jesus. Em sua reportagem de estreia, ele mostrou como a cidade pode receber um aterro sanitário, agravando os diversos problemas ambientais às margens do rio Tietê. Um tema que dificilmente teria repercussão se dependesse apenas de veículos alinhados ao poder local.
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Paulo Talarico é diretor de treinamento e dados da Agência Mural de Jornalismo das Periferias.
