
(Foto: fauxels/Pexels)
A resposta a esta pergunta passou a ser crucial para o trabalho dos jornalistas depois que a avalanche informativa na internet e a inteligência artificial embaralharam os parâmetros usados por repórteres e editores para determinar quando um dado é notícia ou não.
A grande imprensa mundial ainda trata o resultado das pesquisas de opinião como a expressão da realidade e, portanto, acima de qualquer suspeita. Mas pesquisadores como o inglês Steve Poole (1), especialista em linguagem na internet, acham que é necessário banir as pesquisas, especialmente as pré-eleitorais, para impedir que elas gerem desinformação.
Entre um extremo e outro há muita coisa a ser discutida e que, inevitavelmente, acabará afetando a forma como a imprensa e os jornalistas lidam com este irresistível voyeurismo das mídias sobre o que se passa na cabeça de vastos segmentos da população.
A questão da confiabilidade das pesquisas de opinião como expressão fiel de uma realidade vem sendo debatida nos meios acadêmicos desde 1922, quando o livro Opinião Pública, do jornalista norte-americano Walter Lippmann, colocou em dúvida a capacidade das pessoas comuns de opinarem sobre problemas governamentais complexos como política e economia.
Treze anos mais tarde, o publicitário norte-americano George Gallup transformou a preocupação de Lippmann num negócio milionário ao criar o Instituto Americano de Opinião Pública, responsável pelo lançamento do método Gallup para prever resultados de eleições. Foi aí que as pesquisas começaram a se transformar em ativos econômicos e ferramentas políticas, sem levar em conta as dúvidas do autor do livro Opinião Pública.
A crise de confiabilidade
A imprensa dos Estados Unidos e depois também do resto do mundo adorou a estratégia Gallup, porque além de funcionar como um termômetro político ela se apoia em parâmetros simplificadores ao dividir os resultados das pesquisas em apenas campos: certo ou errado, bom ou mau, quem ganha e quem perde, verdadeiro ou falso etc.
Com o passar do tempo e com o aumento da circulação de notícias, ficou evidente que a simplificação distorcia a realidade, dada a emergência de situações intermediárias entre um extremo e outro (entre o bom e o mau) e o aumento da volatilidade no posicionamento das pessoas, levando a erros graves, especialmente nas previsões eleitorais.
A partir dos anos 1970, as pesquisas de opinião se tornaram também em ferramentas de marketing político e comercial. Líderes partidários, empresários e até organizações não governamentais passaram a patrocinar pesquisas sobre temas de seu interesse, usando depois os resultados para promover debates públicos e fundamentar a apresentação de algum projeto de lei, decisão governamental ou iniciativa comercial. O utilitarismo das pesquisas enfraqueceu ainda mais a percepção de isenção dos resultados da consulta.
Mais grave ainda foi o impacto da avalanche informativa na internet e do fenômeno da inteligência artificial a partir do início do século XXI. Os meios tons entre o claro e o escuro, para dar apenas um exemplo, se multiplicaram como decorrência do aumento exponencial de versões sobre um mesmo dado, fato ou evento. Isto afetou diretamente a base dicotômica das pesquisas, ao mesmo tempo que se intensificou o seu uso como ferramenta de desinformação.
Jornalismo, o antidoto à desinformação
As pesquisas deixaram de servir como indicador de tendências na opinião pública para funcionar mais como um instrumento para induzir atitudes e posicionamentos de formadores de opinião e tomadores de decisões. Ou seja, para manipular resultados de uma pesquisa para atingir um determinado objetivo particular. Isto coloca em questão os procedimentos editoriais da imprensa e do jornalismo, já que a desinformação fere o compromisso com a verdade plena, uma regra básica da profissão.
A partir da ótica jornalística, as pesquisas não podem mais ser consideradas um dado confiável a ser repassado ao público como indicador isento de intenções ocultas. A função dos profissionais passa a ser então a de revelar o que está por trás dos resultados para que as pessoas possam avaliar o que é informação e o que é desinformação, antes de assumir posicionamentos ou emitir opiniões.
Não é um trabalho simples porque envolve questões complexas que vão desde a análise da metodologia usada nas pesquisas (2) até a avaliação da conjuntura política, econômica, comercial, ambiental ou social em que a consulta foi realizada. Obviamente é um trabalho multidisciplinar que exigirá tempo, precisão e especialmente uma noção dos princípios básicos da complexidade da informação na era digital.
Além de revisar seus parâmetros de avaliação e publicação dos resultados de sondagens de opiniões, o jornalismo precisará desenvolver uma pedagogia informativa para dar às pessoas comuns conhecimentos básicos sobre como responder a uma pesquisa e como interpretar suas conclusões.
Não se trata de banir as pesquisas de opinião porque, gostando ou não, elas já estão incorporadas ao mundo da informação. Regulamentá-las também é uma tarefa complicada, porque o dinamismo e diversificação dos fluxos de notícias não admitem regras fixas. A alternativa mais viável é a da contextualização dos resultados, algo que cabe especificamente ao jornalismo e à imprensa, atores insubstituíveis e essenciais na função de distinguir informação da desinformação.
- Ver a biografia e obras de Steve Poole na Wikipedia e no site do autor.
- Os resultados de uma pesquisa sofrem a influência da amostra demográfica dos entrevistados, das habilidades e competências dos entrevistadores, da forma como foram montadas as perguntas, do local e hora onde ocorreu a consulta, para citar apenas os fatores mais relevantes para a avaliação das conclusões do trabalho. Estes fatores são cruciais na análise dos cruzamentos de respostas.
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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.
