Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

IA nas redações: um teste para identificar o nível de utilização

(Foto: Matheus Bertel/Pexels)

A Inteligência Artificial (IA) chegou às redações como se fosse um foca chato, que gosta de dar palpites no trabalho dos jornalistas sêniores. Ou como aquele estagiário que chegou ontem, mas já quer mandar como se fosse o editor-chefe. Fica sugerindo pautas, corrigindo erros, tentando dar aula de Pai Nosso para os vigários. E para piorar, não pede aumento de salário, não reclama do café e não está nem aí para férias. Mas não duvide, tem quem goste.

Enquanto alguns jornalistas ainda estão discutindo se devem ou não utilizar IA nas redações, outros já estão usando sem perceber. Estes últimos, juram que nunca vão usar, mas pagam US$12 mensais ao Grammarly achando que esta é só uma ferramenta de apoio que detecta plágio, faz revisões e paráfrases. Hmmm.

E tem também os jornalistas que conhecem bem as ferramentas de IA e as utilizam para automatizar e acelerar o trabalho, delegando a elas boa parte ou todo o serviço. O site italiano Il Foglio, por exemplo, publicou uma edição experimental com o nome Il Foglio AI, cujas matérias e manchetes foram totalmente criadas por IA. Enquanto isso, o Washington Post criou Heliograf, uma IA capaz de produzir matérias com base em dados.

O Estadão, o Grupo Exame e O Globo já usam IA e já até adicionaram isso nos seus manuais de redação. E a Folha de S.Paulo, que recentemente entrou em disputa judicial com a OpenAI, a quem acusa de uso indevido de conteúdo, também tem o seu manual de redação de IA que começa com estas exatas palavras: “Profissionais da Folha podem utilizar aplicações de inteligência artificial (IA) em seu trabalho. A ferramenta não substitui o julgamento humano nem exime o jornalista de responsabilidade (…)”. Ora, ora.

Volta e meia, navegando pela internet com minha caravela digital, descubro alguns sites que utilizam o bordão “Conteúdo 100% feito por humanos”, mas será que vai ser assim pra sempre? O fato é que, hoje, a maioria dos jornalistas está usando IA. Uns mais outros menos. Existem níveis de utilização e isso pode ser mapeado. Pensando nesta ideia, resolvi criar um teste simples, que se realizado com um grande número de veículos de imprensa pode revelar muitas coisas interessantes. 

Teste: qual o nível de IA na sua redação?

O teste que apresento a seguir é composto por 10 perguntas, cada qual com 4 alternativas de respostas. Eu o publiquei, primeiramente, no website do qual sou editor, o Jornalismo Pro, em um formulário que fornece o resultado automaticamente. Mas aqui no Observatório da Imprensa, vamos usar um método diferente. Você deverá somar 3 pontos a cada vez que marcar a alternativa D, 2 pontos para a alternativa C, 1 ponto para a B e 0 (Zero) ponto para a alternativa A. Somando esses pontos no final, você poderá conferir em qual dos 10 níveis de uso de IA propostos a redação onde você trabalha se encontra atualmente.

Sem mais delongas, vamos ao teste. Escolha a alternativa que mais representa a realidade da sua redação para cada pergunta. Some os pontos no final e veja seu resultado:

1. Como sua redação lida com conteúdos factuais e rotineiros (ex: resultados de jogos, cotação do dólar, previsão do tempo)?

  1. A) Tudo é feito por humanos, do início ao fim.
  2. B) Usamos ferramentas como planilhas e templates automáticos, mas o texto final é humano.
  3. C) A IA gera rascunhos que são revisados por humanos.
  4. D) IA produz e publica sem intervenção humana.

2. Como é feita a pesquisa e a apuração?

  1. A) Manual, com buscadores e fontes tradicionais.
  2. B) IA ajuda com transcrição ou palavras-chave.
  3. C) IA analisa dados e sugere pautas.
  4. D) IA investiga e cruza dados autonomamente.

3. E a checagem de fatos?

  1. A) 100% humana.
  2. B) A IA não faz checagem de fatos, mas pode ser consultada quando o jornalista tem dúvidas.
  3. C) IA faz checagem básica, com supervisão de jornalista.
  4. D) IA checa dados sozinha, com supervisão mínima.

4. Como são definidas as pautas?

  1. A) Reunião com café e discussão.
  2. B) IA sugere pautas com base em dados.
  3. C) IA antecipa tendências e propõe temas.
  4. A) Uma IA decide pautas e distribui tarefas para outras IAs, com supervisão humana mínima.

5. Como o conteúdo é distribuído?

  1. A) Mesmo conteúdo para todos. 
  2. B) IA sugere títulos mais atrativos.
  3. C) IA personaliza conteúdo por perfil.
  4. D) IA adapta conteúdo para cada plataforma, público e pessoa.

6. Qual o papel da IA na criação de narrativas complexas?

  1. A) Nenhum. Isso é coisa de jornalista.
  2. B) IA sugere temas ou fontes.
  3. C) IA gera rascunhos que são editados.
  4. D) IA cria narrativas com supervisão mínima.

7. Como a IA participa da edição?

  1. A) Editor humano faz tudo.
  2. B) IA revisa gramática e estilo.
  3. C) IA edita partes do texto.
  4. D) IA edita e publica com mínima intervenção humana.

8. E a interação com o público?

  1. A) Manual, via redes sociais.
  2. B) IA responde perguntas frequentes.
  3. C) IA analisa engajamento e sugere respostas.
  4. D) IA interage em tempo real e ajusta estratégia conforme a demanda.

9. Como a IA atua na produção multiformato?

  1. A) Não atua.
  2. B) IA ajuda a fazer adaptações simples para outras mídias.
  3. C) IA cria versões em vídeo, áudio e infográfico.
  4. D) IA produz conteúdo completo em múltiplos formatos para várias plataformas.

10. Qual o grau de autonomia da IA na redação?

  1. A) Nenhum. Ela nem entra.
  2. B) IA é uma assistente básica, como uma secretária eletrônica inteligente.
  3. C) IA tem papel ativo, mas supervisionado.
  4. D) IA faz tudo: pauta, apuração, redação, publicação e até errata.

Resultado: descubra em qual estágio do uso de IA a sua redação está

Você acabou de responder ao questionário acima. Agora, some 3 pontos para cada resposta D, 2 para C, 1 para B, e 0 para A. Use o resultado desta soma para encontrar na lista abaixo o nível de uso de IA na redação do seu veículo de informação. Cada nível para cima significa que a IA faz tudo do nível anterior mais os novos serviços do nível atual. 

  • 0 a 3 pontos – Nível 1: Redação Rústica 

Tudo feito por jornalistas humanos. A IA é vista com o mesmo entusiasmo que um aparelho de fax em 2025. Conteúdo 100% humano e 0% IA.

  • 4 a 6 pontos – Nível 2: Redação Ampliada

IA ajuda com tarefas simples, como revisão e transcrição. Ainda tímida, mas já fazendo sombra aos estagiários. Conteúdo 80% humano e 20% IA.

  • 7 a 9 pontos – Nível 3: Redação Reestruturada

IA começa a dar pitacos em pautas e a analisar dados. Já tem crachá, mas ainda não manda em nada. Conteúdo 70% humano e 30% IA.

  • 10 a 12 pontos – Nível 4: Redação Mista

IA escreve rascunhos, humanos editam. Ainda é uma parceria, e não uma tomada de poder. Conteúdo 60% humano e 40% IA.

  • 13 a 15 pontos – Nível 5: Redação Espontânea

IA já publica conteúdos simples sozinha. O humano supervisiona, quando dá tempo. Estagiário, pra que te quero? Conteúdo 50% humano e 50% IA.

  • 16 a 18 pontos – Nível 6: Redação Antecipada

A IA prevê as tendências e cria as pautas antes do café esfriar. Jornalista vai atrás das fontes. No final, IA escreve e o jornalista só revisa. Conteúdo 40% humano e 60% IA.

  • 19 a 21 pontos – Nível 7: Redação Customizada

IA distribui conteúdo conforme o perfil do leitor. Cada um recebe o que quer, ou o que o algoritmo acha que quer. O jornalista ainda escreve alguns textos. Conteúdo 30% humano e 70% IA.

  • 22 a 24 pontos – Nível 8: Redação Multiformato

IA transforma uma pauta em texto, vídeo, áudio e infográfico. Jornalista agora só faz curadoria de conteúdo. Jornalismo Curador é a profissão do momento. Conteúdo 20% humano e 80% IA.

  • 25 a 27 pontos – Nível 9: Redação Emancipada

IA investiga, cruza dados, checa e escreve. O humano só dá o “ok” final. Conteúdo 10% humano e 90% IA. 

  • 28 a 30 pontos – Nível 10: Redação Delegada

A IA é a chefe da redação. O jornalista, demitido, agora trabalha como piloto de Uber em Uberlândia. Conteúdo 0% humano e 100% IA.

Muito bem. Agora que você já sabe em qual etapa a sua redação está, fica muito mais fácil decidir para onde ir. Esse teste é, portanto, mais do que um teste, é um mapa. Ele fornece uma orientação básica para que você possa tomar as próximas decisões.

Conclusão

Esse teste de IA nas redações não é definitivo e nem a prova de falhas. Ele pode ser melhorado tanto por mim quanto por outras pessoas que assim desejarem. Alguém poderia criar um software com base nisso, melhorar o sistema de pontuação para obter algo mais preciso, aprimorar a definição dos tipos de redações etc. Se você se interessa, fique à vontade para criar em cima disso.

Mas apesar de não ser um teste muito preciso e tampouco definitivo, ele já fornece um panorama do uso de IA. Ele fornece parâmetros para a realização de comparações entre redações de diferentes veículos de informação. Enfim, o que você pensa a respeito disso?

Bibliografia

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Marinaldo Gomes Pedrosa é bacharel em jornalismo pela UniSant’Anna. Ele é editor do website Jornalismo Pro.