Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Um aprendiz de foca na Constituinte, o julgamento dos golpistas e a esquerda nas ruas

(Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil)

Peguei o caminho para Brasília, pela primeira vez, em 1988, para fazer uma matéria para o jornal laboratório do curso de jornalismo da UFMG, um projeto de integração dos estudantes da universidade com o Congresso. Já tínhamos passado pelas Diretas Já, a morte de Tancredo Neves e o presidente era o Sarney. Era o tempo da Constituinte, os trabalhos que resultaram na nova Constituição brasileira pós ditadura.

Estava com sorte, a pauta era uma entrevista com a deputada federal pelo Rio de Janeiro Benedita da Silva. O estágio era de aprendiz de foca (o apelido que os mais velhos costumavam dar – ainda o fazem? – aos jornalistas menos experientes nas redações).  Benedita era à época titular da subcomissão dos negros, das populações indígenas e das minorias na Constituinte. Aos olhos do nosso tempo e da experiência pessoal (esse farol iluminando para trás, como dizia um amigo), poderia ter aproveitado melhor a ocasião.

A memória do conteúdo da conversa se perdeu, assim como a matéria que foi publicada meses depois no jornal universitário. Guardo a lembrança de como Benedita me impressionou, com sua trajetória representativa dos movimentos populares. Lembro também dos corredores lotados, uma diversidade de movimentos organizados, indígenas, empresários, trabalhadores rurais. O foco de atenção também era a liderança de Ulysses Guimarães, de quem se dizia que quase não ia ao banheiro, nas horas intermináveis de trabalho para dar forma à nossa carta magna. A experiência me demonstrou que o Congresso poderia ser muito mais do que senhores engravatados, mas um espaço de mediação com o país real.

O estágio cumpriu seu papel de dar a dimensão a um candidato a foca do que era a democracia e a política. No calor daquela hora acreditávamos que a ditadura era uma página infeliz de nossa história deixada para trás. Havia um clima de esperança. Mesmo vivendo numa cidade do interior, presenciei, na adolescência, a chegada violenta dos agentes do Dops, atrás dos jovens que haviam pichado no muro palavras de ordem contra o general Geisel. A pancadaria e a tortura assombraram a cidade. A ditadura penetrava nos autoritarismos cotidianos, na aura de medo como uma névoa sobre o tal milagre econômico que fazia a classe média ter a sensação de prosperidade.

A história é descontínua, um mar agitado na imagem do poeta. As forças que pareciam derrotadas em 1988 ressurgem no século XXI. Estava, novamente, em Brasília no epicentro desse movimento. No golpe que depôs Dilma Roussef, trabalhava na capital do país e pude perceber como uma aliança desses senhores engravatados poderia reverter o jogo. Acompanhei pela TV as manifestações vergonhosas dos parlamentares, um deles dedicando o seu voto a um conhecido torturador da ditadura militar. Presenciei a cena de funcionários do Planalto, em resignado silêncio, limpando as gavetas para a chegada do novo governo.

O que veio em seguida aprofundou ainda mais a intenção golpista a cada acontecimento: a prisão de Lula, disseminação deliberada de desinformação e eleição de Bolsonaro. A pandemia e o círculo de horrores, a desnutrição dos Yanomamis, os hospitais lotados e sem estrutura. Lula de volta, numa eleição disputada voto a voto e concorrendo com o uso da máquina pública para impedir o livre acesso de eleitores do Nordeste às urnas, de novo a circulação massiva de desinformação, os acampamentos nas portas dos quartéis, o 8 de janeiro e, depois, a revelação da operação punhal verde amarelo, o plano de dentro do exército para matar Lula, Alckimin e Alexandre de Morais.

O julgamento dos golpistas no STF foi uma demonstração de como os caminhos descontínuos da história nos levam à Constituição de 1988, base a partir da qual se deu, no Judiciário, o campo do debate, do contraditório, da racionalidade, do amplo direito de defesa, da busca da verdade factual, os fatos e suas interpretações, a lei e os acontecimentos. Os ritos sendo cumpridos. Um enfrentamento das tais ameaças dos Estados Unidos pela via da civilidade e a defesa da soberania nacional.

As primeiras reações, no campo progressista, pelo julgamento no STF foram sutis, não há motivo para alegria quando se percebe que grande parte da população tem um apoio cego aos criminosos. Nada de panelaço, de passeatas. Um anacrônico Michel Temer no Roda Viva pregando um pacto nacional contra a polarização para jornalistas que poderiam ser mais críticos e dias depois ressurge a figura de Aécio Neves e Paulinho da Força para reforçarem a ideia daquele que protagonizou o golpe de 2016. Falam em polarização, esse subterfúgio linguístico, tantas vezes usado, para esconder o fato de que há só um lado radical, truculento, violento e é contra ele que se voltam as forças da civilidade e da cidadania. Os discursos circulam, parte da imprensa titubeia. Felizmente, ouço as vozes críticas nos podcasts: Medo e Delírio em Brasília, Foro de Teresina, Calma Urgente.

Na noite de sexta, 12 de setembro, enquanto estou envolvido com a escrita deste texto, escuto o som do maracatu, na rua onde moro, em São Carlos. Deixo o trabalho e sigo o cortejo. Encontro um amigo, comentamos que ali há uma comemoração, sem palavras de ordem, frases escritas. Todos sabem do que se trata, o ritmo do batuque como um mantra que sopra pela noite, uma certa alegria serena e olhares cumplices. Só no momento final, o coro não se contém: “sexta-feira todo mundo vai sair, só não vai Jair, só não vai Jair”.

Dias depois, o Congresso, a instituição que viveu seu momento pleno no tempo de Ulysses Guimarães, nos “brinda” com a PEC da bandidagem, a ideia de anistia plena. Mas algo se moveu, indignação é palavra prática. O povo foi para a rua, também em São Carlos, de novo encontro o maracatu, mas dessa vez de verbo solto, dando ritmo para a palavra de ordem, “sem anistia”.  Nas grandes cidades, os poetas/compositores brasileiros, Chico, Caetano, Djavan, Ivan Lins, mestres maduros combatentes da ditadura, nos conectam com a mesma brasilidade do maracatu, a resistência cultural, a fé na festa, a potência estética da canção e da matriz popular de onde vem.

Na canção Cálice, de Chico Buarque e Caetano Veloso, um dos versos que mais me marcam é aquele que diz “mesmo calado o peito, resta a cuca dos bêbados do centro da cidade”.  Reconheço nele a relação entre a microfísica do poder e a macropolítica, como nos ensina Michel Foucault. Olhar os focos locais para pensar as relações com o global. Há um país que celebra os movimentos da história, com esse quero brindar, consciente de que a democracia é luta diária.

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Pedro Varoni é Jornalista e professor do Departamento de Letras da UFSCar, do Programa de Pós-graduação em Linguística (PPGL) e do Programa de Estudos Literários (PPGLit).