
(Gaza: Foto Jaber Jehad Badwan – Licença Creative Commons 4)
Televisionamos o genocídio. Não no sentido técnico de uma câmera em cima do tripé, mas naquele em que a humanidade se senta diante de um retângulo luminoso, que hoje cabe na palma da mão e assiste. O botão “Ao Vivo” virou sacramento: luz vermelha acesa, latência mínima, como se reduzir segundos de atraso reduzisse também a distância entre ver e agir. A promessa é velha: o rádio ensinou a simultaneidade, costurou vozes em rede, acelerou a respiração do século. A televisão lhe deu corpo e ritual: horário, bancada, vinheta, a falsa presença do estúdio como praça pública. A internet herdou essa arquitetura do direto e a multiplicou em janelas e feeds, como se a onipresença do “agora” bastasse para produzir mundo.
Não basta. Não há garantia de que a contemplação de imagens de dor produza o impulso que as interrompa. Quadros se repetem até virarem papel de parede; a legenda “live” funciona como alvará moral: “eu vi”. A catarse do ver substitui o trabalho sujo do fazer. Há uma diferença entre reduzir a latência técnica — o tempo que o sinal leva a chegar — e enfrentar a latência moral — o tempo que demoramos para sair do transe. A primeira coube aos cabos de fibra; a segunda nos cabe, e não cabe numa timeline. Entre um clique e outro, naturalizamos o intolerável: quando tudo é ao vivo, o vivo perde o fôlego.
Gaza nos atravessa como ferida e metáfora. A vida transmitida em atraso zero, a morte em alta definição e o paradoxo obsceno: falta água, falta comida, faltam corredores seguros, mas não falta conexão para que o horror circule. As redes, capazes de furar bloqueios e amplificar testemunhos, são também fábricas de equivalência: transformam o cerco em trending topic, o luto em hashtag, a denúncia em métrica. Segmentam a catástrofe por idioma, humor, faixa etária e preferências políticas; entregam a cada um um feed calibrado a gosto, onde a mesma explosão aparece com trilhas, legendas e enquadramentos conflitantes. O resultado é conhecido: não uma disputa informada, mas um zumbido contínuo que confunde prova com opinião, testemunho com performance, justiça com engajamento.
Podemos chamar isso, com todos os riscos da hipérbole, de palestinização do mundo: a expansão de zonas de exceção, de controles capilares, de vidas tornadas descartáveis, às vezes sem muro visível, às vezes com muros de dados. Checkpoints digitais, listas de suspeitos produzidas por algoritmos, territórios inteiros transformados em laboratório de vigilância. O “ao vivo” que prometia encontro vira vigia: quantos estão assistindo? Quantos permaneceram até o minuto sete? Qual thumbnail converte mais? A guerra vira KPI, a compaixão vira métrica, a indignação vira combustível publicitário. A imagem que deveria convocar passa a gerenciar comportamentos.
E nós, espectadores que também somos produtores, desempenhamos papéis ambíguos. Por um lado, furamos censuras, recolhemos provas, sustentamos vozes que o oligopólio calou; por outro, nos habituamos ao scroll que anestesia, à indignação por turnos, às tarefas de guerra delegadas ao post seguinte. O gesto mínimo — pausar, verificar, organizar, comparecer — fica para depois. O “depois” se perde no feed. Em vez de assembleia, thread; em vez de sindicato, grupo de WhatsApp; em vez de greve, mutirão de hashtags. A vida debaixo de bombas pede pão, rede, abrigo; respondemos com stories de 15 segundos e o consolo de que “ao menos não passou batido”.
Nossos pais, os meus, os de tantos de nós, tinham uma fé simples na lógica em que foram forjados: Nossos filhos viverão melhor que a gente! O progresso era linha, não labirinto. Estudo, emprego, casa, talvez uma televisão na sala, talvez duas. Hoje o “melhor” é uma hipótese tensa. Trabalhamos mais horas em mais telas, entregando dados e tempo aos mesmos conglomerados que formatam o desejo. Habitamos cidades cara a cara com desastres climáticos, polícia militarizada e políticas que tratam a pobreza como inimiga interna. Prometeram mobilidade; entregaram plataformas. Prometeram informação; entregaram notificações. Prometeram presença; entregaram audiência. Quando o mundo vira dashboard, a vida vira indicador.
Não é nostalgia do tubo; é recusa a confundir mediação com mundo. Se a internet herdou a mitologia do “ao vivo” da TV, cabe-nos reprogramar o rito. Menos “ver em tempo real”, mais “agir em tempo hábil”. Menos testemunho performático, mais teimosia organizada. Menos algoritmo, mais assembleia. Trocar a pergunta “quantos viram?” por “quem veio?”; “quantas views?” por “quantos vínculos?”. Ligar o microfone, sim , mas para ouvir. Filmar, sim, mas para compor prova, memória, cuidado; imagem a serviço de processo, não de looping.
Para afiar essa crítica, convém descer alguns andares na máquina. O “ao vivo” não é apenas um recurso técnico, é um regime de atenção. Opera combinando urgência, contagem e recompensa intermitente. Essa engenharia coloniza nosso senso de tempo. Na televisão, a grade programava a vida; nas plataformas, a vida é que programa a grade, mas com o mesmo motor: previsibilidade do consumo e redução de risco para o anunciante. O “direto” que fabricava a impressão de país simultâneo se fragmenta em milhões de simultaneidades privadas, e cada uma delas se crê centro do mundo.
Daí o efeito colateral: quando tudo pede atenção, nada sustenta cuidado. A imagem de uma escola bombardeada disputa segundos com a receita da moda e com o tutorial que promete dobrar a produtividade. O feed torna equivalentes acontecimentos inconciliáveis, e isso não é acidente, é arquitetura. A televisão, com todos os seus vícios, simulava a hierarquia do mundo por meio do telejornal; a internet dissolveu essa hierarquia em relevâncias individualizadas. Cada qual habita uma edição diferente do real, e o genocídio pode aparecer, em certas edições, como mais um item da prateleira, ao lado de um unboxing.
Não basta denunciar a dessensibilização; é preciso construir instituições e práticas que convertam imagens em compromisso. A imagem, por si, não educa. Precisa de enquadramento, contexto, mediação popular. Precisamos reabrir a sala de projeção como espaço coletivo, a sala da escola, o centro comunitário, a praça, onde se vê, se lê e se decide junto.
Há também a economia política do espetáculo. Quem lucra com o genocídio televisionado? Não falo apenas da indústria armamentista ou dos governos que rentabilizam o medo. Falo da monetização da atenção, do mercado de dados, das corretoras de anúncios que precisam de fluxo permanente. Uma sociedade em estado de transmissão contínua é previsível para quem negocia cliques; é ingovernável para quem tenta construir direitos. Essa assimetria aparece na infraestrutura: data centers que sugam energia e água de cidades; cabos submarinos que repetem rotas coloniais; moderação de conteúdo terceirizada na periferia do mundo, precarizando corpos que assistem ao horror para que outros sigam a rolagem. O live é cadeia produtiva; atrás do botão vermelho há minas, barragens, call centers, servidores refrigerados à força, trabalhadores invisíveis.
E a política? Quando a gestão vira dashboard, governar parece sinônimo de gerir engajamento. A imaginação democrática encurta. A palestinização aparece também aí: políticas de exceção apresentadas como medidas técnicas, algoritmos opacos decidindo quem é visto e quem é invisível, quem cruza a ponte e quem é parado no filtro.
Talvez por isso a promessa geracional se quebre. Nossos pais pensavam em uma vida melhor como ampliação de garantias: trabalho menos exaustivo, escola mais ampla, saúde mais próxima, cultura como direito. A nossa geração recebeu uma expansão de meios e uma contração de fins. Abriram-se telas; fecharam-se horizontes. O mérito virou doutrina, o risco virou vocação, o fracasso virou culpa. Para quem nasce nas bordas, a chance de mobilidade não depende de talento, mas de sorte estatística.
Diante desse quadro, o que fazer que não caiba no cinismo? Não proponho fuga tecnológica nem pureza moral. Proponho política miúda e insistente: tecer coletivos que auditem imagens, cruzem relatos, apurem nomes, protejam fontes, cultivem luto. Criar protocolos comunitários de publicação. Fortalecer rádios locais, canais de bairro, boletins em papel que caminhem de mão em mão e criem memória fora do algoritmo. Levar a escola para a rua e a rua para a escola; alfabetização midiática como prática de cidadania, não como cartilha higienizadora. Montar observatórios populares de mídia e de violência de Estado, com dados, rostos, mapas e rotas de cuidado. E, sim, ocupar as plataformas com inteligência coletiva, sabendo que ali jogamos fora de casa, mas ainda assim jogamos.
No campo da arte e do documentário, insistir no contrarritmo. Montagens que devolvam duração ao que a timeline picota; planos que recusem a velocidade rente ao clique; experimentos sonoros que reabram a escuta para além do ruído de notificação. Práticas de coautoria que redistribuam crédito e decisão. Arquivos partilhados, bancos de dados comunitários, descrições que acolham quem não vê ou não ouve, porque a política da imagem também é a política do acesso. A câmera deixa de ser mirante e volta a ser ferramenta: não o olho distante que sabe, mas a mão que participa, a prova que protege, o testemunho que responsabiliza.
No fim, volto ao começo: o “ao vivo” como sacramento. Talvez possamos profaná-lo. Tirar do altar do tempo real sua aura e recolocá-lo no chão dos prazos coletivos: o tempo de investigar, de decidir, de construir. Não para renunciar à urgência, quem está sob bombardeio não pode esperar, mas para transformar urgência em estratégia. O que o rádio nos ensinou, que a voz encontra outras vozes e vira rede, continua válido. O que a TV nos ensinou, que o país se reconhece num mesmo acontecimento, pode ser reinventado como reconhecimento dos comuns, não como espetáculo da exceção. E o que a internet nos ensinou, que podemos publicar sem pedir licença, precisa ser completado por algo que esquecemos: que publicar não basta, é preciso conjugar o verbo comparecer.
Nossos pais talvez não tivessem as palavras técnicas; tinham, no entanto, uma intuição justa: “melhor” é quando ninguém é descartável. Talvez a frase precise de outro verbo: não “ter”, mas “tecer”. Não um progresso automático, mas um trabalho de costura, demorado, com defeitos, refeito a cada ruga do tecido social. Se a palestinização nos ameaça como horizonte, que a desobediência do comum nos devolva um chão: água, pão, teto, escola, hospital, praça e as histórias que costuram esses lugares. Sem isso, o “ao vivo” continuará a nos mostrar o mundo enquanto ele nos escapa. Com isso, quem sabe, o “ao vivo” volte a ser o nome do que importa: gente, juntas, em tempo de agir.
E, quando a tentação do desânimo vier com a aparência de lucidez, lembremos do ofício antigo do rádio: antes do brilho da tela, havia ruído. Para atravessá-lo, alguém ajustava a antena, girava o dial, isolava as interferências. Não é metáfora gratuita: a política é esse trabalho miúdo de sintonizar o comum, separar o chiado do sinal, construir a frequência onde a vida se ouve. O genocídio é a tentativa de impor silêncio. O “ao vivo” convertido em espetáculo é a tentativa de cobrir o silêncio com barulho. Nosso trabalho na comunicação, na escola, na rua é teimar pela: a escuta organizada que vira palavra e a palavra organizada que vira ato. Que seja ao vivo sim, mas ao vivo do lado de cá, entre nós, interrompendo o Jornal Nacional.
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Richardson Nicola Pontone é Comunicador social, professor e documentarista. Docente da Universidade do Estado de Minas Gerais – Unidade Divinópolis para os cursos de jornalismo e publicidade e propaganda.
