Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Imprensa sabe que lavagem de dinheiro é um crime em constante evolução?

(Foto: Pixabay)

No início da minha carreira de repórter, nos plantões de fim de semana na redação, uma das tarefas era fazer uma ronda pelas delegacias de polícia à procura de notícias. Conversava-se com o delegado, os agentes, os presos, as vítimas (que estavam registrando a ocorrência) e com o famoso “advogado de porta de cadeia”, como a imprensa chamava os profissionais do direito que perambulavam pelos plantões policiais oferecendo seus serviços a eventuais clientes encrencados com a lei. Dificilmente eu saia de um plantão policial sem uma boa história para contar no jornal. Foi em um destes plantões que ouvi de um velho policial um comentário que nunca esqueci. Disse-me ele: “Quando descobrimos o esquema que os bandidos usam para praticar um crime, eles já inventaram outro que não temos a mínima ideia de como funciona”. Lembrei-me desta história por conta da decisão do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, 62 anos, de transformar o núcleo de combate a fraudes da Receita Federal em uma delegacia, que terá maior capacidade técnica e de pessoal para acompanhar, em tempo real, a circulação do dinheiro sujo no Brasil. Vamos conversar sobre o assunto.

Começamos a nossa conversa unindo os pontos da história que levaram Haddad a decidir montar a delegacia. A decisão do ministro ocorre após duas operações da Polícia Federal, da Receita Federal e do Grupo de Atuação Especial e Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo (MPSP). A primeira operação foi a Carbono Oculto, deflagrada no final de agosto. A segunda foi a Spare, na última quinta-feira (25). O conjunto das duas operações mostrou os mecanismos usados para lavar os bilionários lucros que a maior organização criminosa do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), obtém com o tráfico de cocaína no Brasil e abastecendo os mercados consumidores da Europa e dos Estados Unidos. O PCC se uniu às máfias que operam com a venda de combustível adulterado e com a sonegação de impostos, os chamados “devedores contumazes”, que usam a inadimplência fiscal para ganhar dinheiro ilegal. Esta união pavimentou o caminho da organização criminosa até a Faria Lima, como é chamado o maior centro financeiro e corporativo do Brasil e da América do Sul, que se concentra na Avenida Brigadeiro Faria Lima, na cidade de São Paulo. Reportagens podem ser encontradas nos jornais, como se dizia nos tempos das máquinas de escrever nas redações, trazem ‘com riqueza de detalhes’ o esquema de lavagem de dinheiro do PCC, aliado a sonegadores de impostos e a fraudadores de combustíveis. Alerto o seguinte. Tudo que publicamos sobre o assunto é passado. O PCC continua lavando dinheiro, usando um novo método que ainda é desconhecido pelos agentes da lei. Repito aqui. A delegacia montada por Haddad é justamente para acompanhar em tempo real esta evolução.

Eu pergunto, tendo em vista que o assunto tem imensa audiência entre os leitores: o que as redações estão fazendo para acompanhar a evolução de novas maneiras de lavar dinheiro sujo? Não vou especular sobre isso. Vou dizer o que sei sobre as redações. Desde o tempo em que escrevíamos as matérias molhando a ponta de uma pena em um tinteiro até os dias atuais, de alta tecnologia, as redações dos jornais sempre foram uma baita confusão devido o ritmo alucinante de trabalho. Mas no meio do “caos” havia uns poucos profissionais especializados em alguns assuntos que, vez ou outra, viravam manchete. Um destes assuntos era a lavagem de dinheiro. A cobertura do noticiário policial foi banida das redações e, com ela, foram embora aqueles que entendiam de lavagem de dinheiro e de outros tipos mais sofisticados de crime. Um outro fato. Aconteceu um enxugamento dos quadros de jornalistas e outros profissionais diretamente envolvidos com a redação. Atualmente, os editores jogam no colo do repórter um balaio de pautas e fim de história. Por outro lado, como mostraram as operações Carbono Oculto e Spare, o PCC chegou à Faria Lima. E não vai arredar pé de lá se o assunto não receber uma cobertura constante da imprensa. As autoridades fizeram a parte delas. Agora é a vez dos jornais ficarem atentos. Cito mais um caso que merece atenção diária da imprensa. Depois do barulho causado pela chegada do PCC ao coração financeiro do país, em setembro foi aprovado no Senado o Projeto de Lei Complementar (PLP) 125/2022, que pune as empresas que usam a estratégia da inadimplência fiscal para ganhar dinheiro, conhecidas como “devedores contumazes”. O projeto agora está tramitando na Câmara dos Deputados. A aprovação desta lei fecha uma porta importante para a lavagem de dinheiro. Outro assunto que merece atenção dos repórteres: o PCC e seus aliados usavam fintechs (bancos digitais) para operar, aproveitando-se de uma brecha na legislação que não as obrigava a identificar o dono do dinheiro. A Receita Federal passou a exigir que as fintech identifiquem os donos do dinheiro, a exemplo do já acontecia com o sistema bancário. Esta exigência também fechou uma porta importante para a lavagem de dinheiro. Fato é o seguinte: o PCC segue ganhando milhões de reais por dia com o tráfico de drogas. E esse dinheiro sujo continua sendo lavado. Portanto, como os criminosos substituíram as fintech? Este é mais um assunto que merece a nossa atenção.

Trocando em miúdos a nossa conversa. Não estou defendendo a ideia de que a presença dos velhos repórteres nas redações era uma garantia de jornalismo de qualidade. Sempre defendi que o fato de um jornalista ser jovem não significa que seja um inovador. Como ser um velho repórter não garante sabedoria. O que torna o repórter capacitado para lidar com os assuntos é o árduo trabalho diário de apuração dos fatos. E para realizar tal trabalho é preciso treinamento, especialmente nos assuntos policiais. É justamente no treinamento de suas equipes que as redações estão falhando. Esta falha pode ser vista diariamente nos noticiários, onde a maioria das coberturas se reduz às declarações das autoridades. E não avança nos assuntos. Há uma frase muito antiga que circula pelo mundo que diz o seguinte: “Quer ver o passado, olhe para as estrelas”. A explicação é que a luz das estrelas viaja bilhões de quilômetros e milhares de anos pelo espaço até chegar aos olhos do observador. Se as redações não se ajustarem aos novos tempos, os noticiários vão virar “luz das estrelas”.

Publicado originalmente em Histórias Mal Contadas.

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Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.