Sexta-feira, 26 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1394

Peru em eleições presidenciais: uma democracia em “Vila Potemkin”? [1]

(Foto: Lara Jameson/Pexels)

Sob a aparência de uma democracia exemplar, os peruanos votaram para eleger, no domingo, 12 de abril de 2026, seu presidente e seu parlamento. Keiko Fujimori, candidata da direita, que chegou amplamente à frente, estará no segundo turno, em 7 de junho. Mas quem será o outro classificado? Rafael López Aliaga, o ex-prefeito de Lima fortemente alinhado ao trumpismo, ou Ricardo Sánchez, representante das esquerdas alternativas?

As pesquisas anunciavam Keiko Fujimori (Fuerza Popular), direita ultraliberal, à frente de Carlos Álvarez (País para Todos), um humorista que propunha reforçar o respeito devido às mulheres e aos animais; Rafael López Aliaga (Renovación Popular), extrema direita; Jorge Nieto (Partido del Buen Gobierno), centrista; Ricardo Sánchez (Juntos por el Perú), esquerda; e Alfonso López Chau (Ahora Nación), centro-esquerda. As urnas, como frequentemente ocorre, desmentiram os prognósticos. Complicação adicional: o pleito, marcado por falhas logísticas, impede qualquer certeza ou anúncio imediato. A confusão é tal que os resultados só serão validados em meados de maio. Mas, no fundo, o que isso muda para os peruanos?

Uma democracia exemplar “no papel”

É verdade que os eleitores são consultados segundo as regras da arte democrática. O Peru está, no papel, em sintonia com os padrões eleitorais mais exigentes. A Constituição exige, em duas versões – espanhol e quéchua –, a organização, a cada cinco anos, da renovação dos dirigentes segundo regras democráticas universalmente aceitas. As pesquisas são proibidas seis dias antes da votação. A campanha é suspensa a partir da antevéspera do pleito. O consumo de bebidas alcoólicas é proibido desde as 8h do dia anterior até as 8h do dia seguinte. O voto é obrigatório entre 18 e 70 anos. Os abstencionistas estão sujeitos a uma multa de 7 a 28 euros, conforme o local de inscrição. Ao término da apuração do primeiro ou eventual segundo turno, em 28 de julho – em um prazo relativamente longo, como em todas as democracias americanas –, os eleitos tomam posse: o chefe de Estado na Casa de Pizarro, e deputados e senadores no Palacio Legislativo.

Nada há a contestar quanto ao calendário e aos procedimentos eleitorais. Eles correspondem aos padrões mais exigentes na matéria. O presidente e o vice-presidente são eleitos por sufrágio universal direto, sendo o país uma circunscrição única. Os 130 deputados e os 60 senadores resultam de uma votação organizada em 27 circunscrições: 24 correspondentes aos departamentos, às quais se somam a da província capital de Lima, a da chamada província constitucional de Callao e a dos peruanos residentes no exterior. A organização do pleito é responsabilidade de um órgão independente, a ONPE (Oficina Nacional de Processos Eleitorais). As regras do jogo eleitoral e seus contenciosos são geridos pelos magistrados do JNE, o “Jurado Nacional de Elecciones”.

A ONPE supervisionou o cumprimento da data da votação, dos horários (das 8h às 17h), dos prazos de atualização das listas eleitorais e dos partidos participantes, das candidaturas, do formato das cédulas (44 cm × 21 cm) e do acompanhamento do material eleitoral. Responsável pela divulgação dos resultados, a ONPE havia indicado que estes seriam comunicados em tempo real a partir das 17h do dia da votação. A ONPE também assegurou o cumprimento das leis sobre financiamento das campanhas eleitorais e definiu os meios de comunicação (imprensa escrita, digital, rádio e televisão) autorizados a receber esses recursos. Os 27.325.432 eleitores inscritos tiveram de escolher seus representantes entre 43 partidos políticos e 35 candidatos à presidência. Seis debates entre os postulantes presidenciais foram organizados, cada um com duração de três horas e com a participação de dez a doze candidatos.

12 de abril de 2026: uma eleição em trompe-l’œil? [2]

A apuração foi trabalhosa desta vez. Por vezes devido a imprevistos, como no local de votação 022596, em Pampahuasi, distrito de Yauca del Rosario, departamento de Ica, onde um porco apareceu, segundo a opinião pública, para evitar a multa aplicada aos abstencionistas. Mas também houve falhas, mais ou menos voluntárias, segundo os comentaristas. Os caminhões que transportavam urnas e cédulas não chegaram todos na manhã de domingo. Diversas seções permaneceram, de forma excepcional, abertas na segunda-feira, dia 13. O pleito foi prorrogado por 24 horas onde o material eleitoral não havia sido instalado conforme previsto pela lei, no tempo e no local adequados. Caixas de cédulas foram “descobertas” nas ruas de algumas localidades.

Outro elemento perturbador foi o elevado número de candidatos, que dispersou os votos, prolongou a apuração e provocou um efeito de funil: a segunda posição classificatória para o segundo turno foi disputada até a última cédula. A disputa de 7 de junho adquiriu, assim, uma dimensão política não prevista por observadores e institutos de pesquisa. A responsabilidade da ONPE está em questão. Seus dirigentes foram indiciados.

Uma democracia em “Vila Potemkin”?

Os trinta últimos anos da vida política e eleitoral peruana revelam um mal-estar democrático que vai muito além das peripécias atuais. Essa democracia, constitucionalmente exemplar, não seria como aquelas aldeias de fachada construídas pelo favorito de Catarina II para enganar a imperatriz russa sobre a realidade de suas províncias? Os presidentes peruanos em exercício há mais de vinte anos, de fato, não têm balanço a apresentar. Uns foram indiciados, outros presos; um deles se suicidou, e alguns não concluíram seus mandatos. O diagnóstico é o de mudanças de rostos sem mudanças políticas. A galeria de fotos oficiais é, sem dúvida, bem abastecida, comprovando a alternância no poder. Mas o ritmo vertiginoso dessas rotações presidenciais suscita questionamentos. O que essa sucessão de figuras, sem impacto sobre a realidade, traz aos peruanos em seu cotidiano?

Antes de tudo, um profundo desalento eleitoral. Em 2024, 50% dos eleitores não confiavam na democracia, e 30% aceitariam um governo autoritário [3]. O excesso de candidatos e de partidos políticos compromete a capacidade e o desejo de escolher. Uns e outros são, em sua maioria, ideologicamente difusos e sem base partidária sólida. Os jovens que se manifestaram em setembro de 2025 para exigir ruptura e mudança exibiam suas reivindicações brandindo imagens de mangás e animes japoneses. Na ausência de referências contestatórias locais ou internacionais, a chamada geração Z tomou as ruas em nome dos piratas imaginados por Eiichiro Oda [4].

Se recuarmos às eleições presidenciais desde o início do novo milênio, o desconcerto dos eleitores peruanos torna-se compreensível. Alejandro Toledo, presidente de 2001 a 2006, está atualmente preso por corrupção. Alan García, presidente de 2006 a 2011, suspeito de corrupção, suicidou-se em 2019. Ollanta Humala, presidente de 2011 a 2016, também está preso por corrupção. Pedro Pablo Kuczynski, eleito em 2016 pelos mesmos motivos, foi forçado a renunciar e está em prisão domiciliar. Martín Vizcarra, presidente a partir de 2018, foi destituído por corrupção em 2020 e preso. Manuel Merino permaneceu apenas cinco dias na presidência, em novembro de 2020. Pedro Castillo, eleito em 2021, foi destituído em 2022 por atentado à ordem constitucional e encontra-se preso. Dina Boluarte, sua vice-presidente, assumiu o cargo, mas foi suspensa pelo Congresso em 10 de outubro de 2025 por “incapacidade moral permanente”. José Jeri, presidente interino que assumiu no mesmo dia, foi destituído por corrupção em 17 de fevereiro de 2026. Na ausência de um presidente eleito, são hoje os “responsáveis” da ONPE – encarregados de organizar a votação de 12 de abril – que estão sendo processados, uma vez que a consulta foi marcada por múltiplas falhas materiais e éticas.

A democracia à peruana: uma variável libertária?

Esse carrossel eleitoral e político desola a população e desconcerta jornalistas, acadêmicos e especialistas em ciência política. Donald Trump, ainda que habituado a discursos obscuros e armadilhas semânticas, encontrou ali algo que o supera: em 7 de março de 2026, na ausência de um interlocutor, desistiu de convidar o Peru ao Trump Doral Hotel, em Miami, para validar o “Escudo das Américas”, que consagraria a soberania limitada de seus doze participantes caribenhos e latino-americanos. A Argentina, sob o libertário Javier Milei, emitiu outro tipo de sinal. Luis Caputo, ministro da Economia, declarou-se impressionado com a democracia peruana: “No Peru”, afirmou a um jornalista do canal A24 [5], “eles trocam de presidente – não digo a cada cinco minutos, mas todos os anos – sem qualquer impacto macroeconômico”. “Hoje”, concluiu, “a Argentina se parece com um país normal como o Peru”.

Em dois anos, a Argentina de fato se “peruanizou” econômica e socialmente. Apenas as exportações do setor primário impulsionam o crescimento: +3,3% no Peru em 2025; +4,3% na Argentina. Prata, cobre, estanho, ouro, chumbo e zinco são as bases das exportações peruanas. Gás, lítio, petróleo, soja e carne constituem as “riquezas” argentinas. A indústria é praticamente inexistente no Peru e está em vias de extinção na Argentina. Os frutos desse dinamismo exportador, além disso, não chegam à maioria da população. O trabalho informal, majoritário no Peru, tornou-se também predominante na Argentina. O salário-mínimo no Peru era, em 2025, de 1.130 soles (cerca de 280 euros). Na Argentina, desde 1º de abril de 2026, é de 352.400 pesos (cerca de 335 dólares).

Resta, como parece lamentar o ministro argentino, uma diferença democrática entre os dois países. Ao contrário da Argentina, o Peru dissociou política e economia. As eleições são confusas, o funcionamento institucional é caótico. Mas o Banco Central do Peru vigia de perto. Ele é constitucionalmente independente [6]. Sua direção, fora de qualquer controle efetivo do presidente, assegura sozinha uma governança estável. No topo do Estado, os presidentes, instalados em uma cadeira ejetável, dançam ao ritmo de cadeiras musicais. Enquanto isso, a diretoria do BCRP (Banco Central de Reservas do Peru) foi nomeada em 2021, e seu presidente, Julio Velarde Flores, ocupa o cargo desde outubro de 2006. Os parlamentares, sem outra ideologia além da defesa de seus próprios interesses – com salários entre 7.000 e 10.000 euros mensais [7] -, mantêm com zelo o status quo. O sistema partidário, desmantelado por Alberto Fujimori, permanece abandonado nas mãos de diversos caciques. O país segue como grande exportador primário, dentro de um quadro liberal. A vigilância “ética” do Congresso perpetua o sistema ao explorar as falhas morais dos presidentes, ainda que metade de seus próprios membros esteja envolvida em investigações por corrupção e que o parlamento seja infiltrado pelo crime organizado. Os jornais de Lima passaram, desde o início da campanha de 2026, a examinar os perfis dos candidatos mais bem posicionados – aqueles suscetíveis de vencer e, portanto, potenciais alvos de destituição futura, se necessário.

Um cenário ideal para o ministro libertário da economia argentina. O Peru é uma democracia em que os eleitos renunciam às suas competências, deixando, sem imposição autoritária formal, o “galinheiro” de sua economia aberto às “raposas livres” do extrativismo internacional. O Peru, à sua maneira, ilustra o deslizamento do neoliberalismo econômico e político para um sistema libertário, que neutraliza os efeitos da competição democrática e das regras da concorrência.

Notas

[1] Expressão criada para denominar as cidades e vilas falsa criadas de forma cenográfica para impressionar a nobreza. Veja mais em https://www.britannica.com/topic/Potemkin-village 

[2] Expressão Francesa para ilustrar a ideia de enganação ou ilusão ótica. Veja mais em: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/termos/80192-trompe-l-oeil 

[3] Em Latinobarómetro 2024. Disponível em: https://www.latinobarometro.org/ 

[4] Em One Piece, mangá shōnen (história em quadrinhos voltada a adolescentes), publicado na França pela editora Glénat e no Brasil pela editora Panini.

[5] Antonio Laje, jornalista do canal América 24.

[6] Art. 84. Disponível em: https://juris.pe/blog/articulo-84-constitucion-politica-peru-banco-central-reserva-peru-jurisprudencia/ 

[7] O Congresso informa o pagamento de uma indenização mensal de 10.324 soles (aproximadamente 2.581 €), durante 16 meses, à qual se somam uma indenização de função, cujo valor varia segundo as fontes (cerca de 15.000 soles mensais), uma indenização de representação (11.200 soles mensais), cobertura de saúde, entre outros benefícios.

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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris, e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014), e colabora frequentemente com o Observatório da Imprensa, em parceria com o LABOR – Laboratório de Estudos do Discurso – UFSCar e com o LIRE – Laboratório de Estudos da Leitura.