
(Foto: Gotta Be Worth It/Pexels)
Em um contexto de avanço das direitas radicais em escala internacional, novas formas de coordenação transnacional emergem apesar de persistentes divergências ideológicas. Impulsionadas por convergências estratégicas, especialmente na oposição às forças progressistas, essas dinâmicas redesenham seus modos de ação. Como analisar o papel do partido espanhol Vox na estruturação dessas redes transcontinentais? No âmbito de um dossiê que coordena, Jean-Jacques Kourliandsky, diretor do Observatório da América Latina e do Caribe da Fundação, mostra como essa legenda se consolidou como uma peça-chave dessas recomposições.
Em poucos anos, a formação espanhola de direita radical Vox tornou-se o terceiro partido político representado no parlamento. A influência das extremas direitas no mundo nunca foi tão grande desde que abandonaram o recurso às armas para privilegiar o uso das urnas. Na Europa, podem ser citados a Alternativa para a Alemanha, o Reagrupamento Nacional (RN) na França, o Partido pela Liberdade (Partij voor de Vrijheid, PVV) dos Países Baixos, o Fidesz na Hungria, Fratelli d’Italia, Lei e Justiça (Prawo i Sprawiedliwość, PiS) na Polônia e o Chega em Portugal; e, na América Latina, A Liberdade Avança (La Libertad Avanza, LLA) na Argentina, o Partido Liberal (PL) no Brasil, o Partido Republicano (PRCh) no Chile, o Centro Democrático na Colômbia, Força Popular (FP) no Peru, Novas Ideias (NI) em El Salvador, o Partido Republicano (GOP) nos Estados Unidos, entre outros. Muitos deles possuem ampla representação nos parlamentos de seus respectivos países e, em algumas vezes, chegaram ao poder. Ainda assim, essas formações não souberam — ou não conseguiram — coordenar suas iniciativas.
Estaria o Vox prestes a facilitar a articulação global das direitas radicais? O presidente argentino Javier Milei, apóstolo da extrema direita libertária e liberal, foi convidado para um encontro eleitoral do partido espanhol de extrema direita nos dias 18 e 19 de maio de 2024. No mês seguinte, recebeu uma distinção concedida por dois centros europeus de pensamento de extrema direita: o Instituto Juan de Mariana, em Madri (Espanha), e a Sociedade Friedrich Hayek, em Hamburgo (Alemanha). Esses encontros entre dirigentes das direitas radicais americanas e europeias chamam a atenção, ainda mais porque o partido que mais tomou iniciativas nesse sentido, o Vox, talvez fosse o menos esperado para essa tarefa.
As eleições europeias de 9 de junho de 2024 confirmaram a lenta ascensão eleitoral de diversas formações de direita radical. O Vox é uma delas. Mas não é a mais importante. Santiago Abascal, seu presidente, está longe de alcançar o peso decisório do neerlandês Geert Wilders, do húngaro Viktor Orbán, da italiana Giorgia Meloni ou mesmo de Marine Le Pen na França. Do outro lado do Atlântico, observou-se tendência paralela. Uma extrema direita de governo emergiu na Argentina com Javier Milei, nos Estados Unidos com Donald Trump, no Brasil com os Bolsonaro, no Chile com José Antonio Kast, na Costa Rica com Laura Fernández, no Equador com Daniel Noboa, no Peru com a família Fujimori e em El Salvador com Nayib Bukele. O Vox está longe de ter um peso político e eleitoral equivalente.
Esses contatos são ainda mais paradoxais, pois a extrema direita partidária é ideologicamente fragmentada. Seus credos e atualizações já foram objeto de numerosos estudos, que destacam sua diversidade e suas contradições ao longo do tempo e entre continentes e países. Entre os muitos autores que analisaram o tema, podem ser citados o alemão Michael Minkenberg, o argentino Pablo Stefanoni, o brasileiro Tarso Cabral Violin, o espanhol Víctor Moreno Jaén, os franceses Jean-Yves Camus, Philippe Corcuff, Stéphane François e Pierre-André Taguieff, o italiano Paolo Macry e o sueco Anders Widfeldt. Seus comentários, ao analisarem os programas das extremas direitas europeias e americanas, transmitem a imagem de uma fragmentação de conceitos, referências e objetivos políticos. A extrema direita de cada país tem reivindicações que não são necessariamente compartilhadas pelas demais. Classificá-la como subcategoria do “populismo” não muda isso. Os analistas que tentaram fazê-lo, longe de produzir critérios universais de compreensão, ampliaram as indefinições ao conferir ao populismo um caráter estigmatizante. Para o americanista francês Alain Rouquié, “o populismo é um rótulo pejorativo. Se queremos analisar um fenômeno complexo e enigmático, não é usando um insulto que conseguiremos esclarecê-lo”.
Esses partidos possuem, de fato, referências ideológicas e programáticas específicas ligadas a seus contextos locais. Alguns priorizam valores sociais tradicionais e religiões cristãs; outros são indiferentes a isso e têm o Ocidente como horizonte político (embora o Vox aceite apoio da oposição iraniana). Alguns defendem abertura econômica, enquanto outros são protecionistas e colocam no centro de sua atuação a preferência nacional ou a rejeição aos estrangeiros. O combate antisseparatista é fundamental para o Vox, mas certamente não para as demais forças da direita radical. China, Rússia, Israel e Ucrânia não são percebidos da mesma forma por todos, assim como a União Europeia.
O fim de semana europeu organizado pelo Vox, em 18 e 19 de maio de 2024, com Javier Milei, bem como a dupla homenagem que ele recebeu de duas fundações europeias de extrema direita no mês seguinte, evidenciaram, apesar das divergências e das diferenças de influência eleitoral, a existência de cooperações entre extremas direitas europeia, norte-americana, israelense e latino-americana. Esses contatos, como já apontado anteriormente, não têm nada de óbvio. O Vox é reconhecido por seus pares como membro de uma mesma família política, embora não seja um partido de governo. Além disso, possui uma agenda amplamente centrada no antisseparatismo, tema que não preocupa o RN francês, Fratelli d’Italia ou La Libertad Avanza. Nesse contexto, como o Vox conseguiu convencer seus “homólogos” a trabalharem juntos?
Além disso, muito antes do Vox, alguns partidos de extrema direita com influência supranacional já haviam tentado romper o isolamento de suas lutas e lhes conferir dimensão internacional. Foi particularmente o caso na América Latina, onde, no final do século passado, a intensificação regional da Guerra Fria e os “ciclos” eleitorais vencidos pela esquerda nos anos 2000 desestabilizaram a geopolítica hemisférica tradicionalmente dominada pelos Estados Unidos. Os movimentos de extrema direita norte-americanos buscaram então instaurar, no continente americano e em outros lugares, estruturas institucionais ao mesmo tempo “ocidentais” e profundamente conservadoras.
Após a Guerra Fria, vários partidos da direita radical nas democracias europeias e americanas conquistaram o poder ou forte presença eleitoral. Seus nacionalismos os afastavam, por definição, de qualquer tentativa de coordenação supranacional, assim como o caráter centrípeto de seus programas. Ainda assim, algumas dessas formações propuseram a criação de espaços de convergência, apostando numa união contra um inimigo comum: “a esquerda”, vista ontem como comunista e hoje mais frequentemente como socialista ou estatista.
Nos anos 2000, o avanço de governos progressistas foi considerado extremamente preocupante pelas direitas radicais. Interpretado como consequência das cooperações interpartidárias criadas pelas forças progressistas, como o Foro de São Paulo, surgiu a necessidade de alianças para enfrentá-las. A direita republicana norte-americana, o “bolsonarismo” brasileiro e o partido espanhol Vox lançaram sucessivamente projetos de cooperação entre forças de extrema direita. Uma triangulação concreta entre América do Norte, América do Sul e Europa começou a tomar forma. Essa capacidade de organizar redes transcontinentais de extrema direita apesar das diferenças programáticas é um fenômeno novo.
Os republicanos dos Estados Unidos foram os primeiros a iniciar esse movimento de coordenação. Diversas plataformas foram criadas por governos de direita radical que chegaram ao poder, ou com sua participação, no Brasil e na Argentina. Contudo, o impulso decisivo, embora mais tardio, foi dado por um partido hispânico de extrema direita relativamente modesto: o Vox. Em 2024, a Alemanha e a Espanha direcionaram um convite ao novo presidente argentino, Javier Milei, sendo a expressão mais recente dessa tomada de consciência tática.
Os pioneiros: a Conferência de Ação Política Conservadora norte-americana
A Conservative Political Action Conference (CPAC) é a mais antiga das internacionais de extrema direita. Foi oficialmente criada em 1974, no contexto da Guerra Fria. Ronald Reagan pronunciou o discurso de abertura da conferência inaugural naquele mesmo ano. Ela reunia, e ainda reúne, cerca de uma centena de organizações norte-americanas, entre elas a poderosa National Rifle Association (NRA), coordenadas no interior da American Conservative Union. Como outras organizações desse tipo, a CPAC mobiliza seus integrantes, desde sua fundação, em favor dos candidatos republicanos mais à direita nas eleições presidenciais. A CPAC apoia Donald Trump desde 2011.
Os temas abordados durante as conferências acompanham a agenda eleitoral da direita radical dos Estados Unidos: propostas de reação ao feminismo, às pessoas trans, ao ativismo antirracista, promoção do porte de armas, defesa da liberdade de expressão nas redes sociais, denúncia da crise migratória, necessidade de proteger a fronteira mexicana e críticas aos democratas, acusados de laxismo em relação a essas questões.
Desde 2019, a CPAC tomou diversas iniciativas destinadas a estruturar em torno de si e de sua agenda uma rede internacional e interamericana. Eventos da CPAC foram organizados no Japão em 2017 e na Coreia do Sul em 2019, países asiáticos aliados dos Estados Unidos e desconfiados em relação à China. Na Europa, a Hungria tornou-se alvo prioritário a partir de 2022. Diversas personalidades da direita radical europeia, entre elas a francesa Marion Maréchal, o britânico Nigel Farage e o espanhol Santiago Abascal, foram convidadas para uma ou mais edições da CPAC nos Estados Unidos.
Outros europeus participaram, em 2022, de uma CPAC realizada no México: os espanhóis do Vox Santiago Abascal e Hermann Tertsch, assim como os franceses do Reagrupamento Nacional Thierry Mariani e Jean-Lin Lacapelle. Latino-americanos também participaram de várias CPACs nos Estados Unidos: o argentino Javier Milei em 2022 e 2024, José Antonio Kast em 2022, Jair Bolsonaro em 2022, seu filho Eduardo em 2020 e Nayib Bukele em 2024.
Também são organizadas CPACs na América Latina, inclusive no México desde 2022, com diversos convidados internacionais naquele ano: o norte-americano Steve Bannon, o polonês Lech Wałęsa, o argentino Javier Milei, o brasileiro Eduardo Bolsonaro e o chileno José Antonio Kast. Desde 2019, foi no Brasil que a CPAC conseguiu estabelecer a parceria mais duradoura. Diversas edições foram organizadas no país, especialmente em 2021 e 2022, com a participação de Javier Milei e José Antonio Kast.
Em entrevista à emissora Telemundo, a pesquisadora da CPAC Mercedes Schlapp afirmou que “aproximar-se da comunidade latina é uma prioridade” para os republicanos conservadores, porque “os latinos são naturalmente conservadores, pessoas de fé, família e pátria”. Os valores destacados nas CPACs “latinas” são, portanto, religiosos, com missa de abertura na edição mexicana de 2022, anticomunistas e anti-imigração.
O bolsonarismo: versão brasileira da união das direitas radicais latino-americanas
A extrema direita latino-americana posteriormente lançou as bases de um vade-mécum ideológico reunindo diversas organizações e personalidades hemisféricas. Em 27 de julho de 2018, em Foz do Iguaçu, no Brasil, um fórum reunido em apoio à candidatura presidencial de Jair Bolsonaro adotou um “manifesto conservador liberal”. Essa declaração estava centrada na necessidade de combater a principal força de esquerda brasileira, o Partido dos Trabalhadores (PT). “Nós temos”, afirma o texto em sua introdução, “em comum a experiência incomunicável de ter sobrevivido ao regime político mais nefasto e indecente, corrupto e amoral de nossa história, o Regime Petista”. O PT é descrito como um partido fundado por “sindicalistas criminosos, gente da esquerda universitária frustrada pela derrota de sua luta armada e padres comunistas”. Essa avaliação é seguida de uma crítica virulenta ao Foro de São Paulo, “sinal de neoplasia da doença comunista da revolução cultural gramsciana que tinha como objetivo tomar a administração pública, as chaves que abrem os cofres e os arsenais, a máquina do Brasil e de todos os países da América Latina”. Esse fenômeno, apresentado como agressivo e qualificado de “Revolução Cultural Silenciosa”, “nos penetra”, prossegue a declaração, “por todos os lados […] em nossas casas, escolas, universidades e bairros, nas novelas da Rede Globo”. Seu objetivo seria “controlar o Brasil e, após a criação do Foro de São Paulo, a América Latina”. “O Brasil precisa neste momento de uma gigantesca união ideológica […] de um único discurso capaz de unir os liberais na economia e os conservadores culturais […] em uma União Conservadora Liberal”. A UCL deveria propor “uma luta sem tréguas contra o Foro de São Paulo […] suas aberrações psiquiátricas defendendo a ideia de que crianças devem tocar homens nus em exposições”.
Alguns meses depois, em 8 de dezembro de 2018, uma primeira “Cúpula Conservadora das Américas” reuniu-se no mesmo local, por iniciativa da Fundação Indigo de Políticas Públicas, ligada ao Partido Social Liberal (PSL), então partido de Jair Bolsonaro, eleito presidente em 30 de outubro daquele ano. Uma declaração final, chamada de “Carta de Foz”, foi adotada, trazendo a marca de Olavo de Carvalho, teórico inicial do bolsonarismo e amigo de Steve Bannon. Essa “carta” enumera os objetivos compartilhados pelos participantes brasileiros e latino-americanos. Na política: “o fortalecimento da unidade nacional, a defesa da família, a institucionalização do liberalismo econômico, o fortalecimento dos valores culturais ocidentais”; na economia: “a atração de investimentos estrangeiros […] com base na segurança jurídica […] na desburocratização […] na criação de normas atrativas para o investidor estrangeiro […] na desregulamentação das relações de trabalho, na privatização de entidades estatais estratégicas e não estratégicas, na colocação das agências reguladoras a serviço do mercado”; para a segurança pública: “provocar um choque por meio do recrutamento de policiais e funcionários do Judiciário, integrar os bancos de dados das diferentes forças de segurança, acelerar as decisões judiciais relativas a delitos estratégicos, criar empregos no sistema penitenciário”; na esfera cultural: afirmar “os princípios de Deus, pátria, família, propriedade, liberdade individual e direito à legítima defesa, incentivar a participação da família e da sociedade na educação, incentivar o ensino da arte clássica liberal, combater o ativismo jurídico, combater a cultura da ditadura verde, combater a cultura do banditismo e do vitimismo”. Em conclusão, os organizadores desejam que “Deus abençoe e liberte o povo das Américas”.
Durante os debates, os participantes condenaram as ditaduras cubana, nicaraguense e venezuelana. Alguns o fizeram de maneira radical, como o historiador Marcelo Frazão, para quem “todas as ditaduras são de esquerda marxista, inclusive Mussolini, marxista desde o nascimento”. Eduardo Bolsonaro, filho do então presidente, apresentou uma conclusão mais moderada, aceita por todos: “A América Latina em sua totalidade diz não ao socialismo, não ao Foro de São Paulo. Não seremos a próxima Venezuela”. Os participantes também apresentaram as políticas redistributivas como “uma escravidão moderna”, e o Estado de bem-estar social foi qualificado como um “Estado gigante”, fator de empobrecimento dos mais desfavorecidos. A convergência dos conservadores, chamada de “diocidência”, poderia remediar isso, pois constituiria uma espécie de milagre de Deus permitindo libertar a América Latina do comunismo. Outros participantes defenderam nichos ideológicos específicos, na presença de nostálgicos do império brasileiro, como o “príncipe” Luiz Philippe de Orleans e Bragança, deputado do Partido Liberal.
Vox: um ecumenismo espanhol de extrema direita
O Vox é um partido político espanhol de extrema direita. Como seus equivalentes europeus e latino-americanos, seu horizonte ficou, durante alguns anos, estritamente limitado às fronteiras da Espanha, em sua luta contra os nacionalismos internos, basco e catalão. Trata-se de um partido relativamente recente, criado em 2013 — pouco depois da vitória do Partido Popular (PP), força tradicional da direita, nas eleições legislativas de 2011 — por dissidentes oriundos dessa legenda. No início, os fundadores do Vox eram movidos pela vontade de defender a unidade nacional espanhola, percebida como ameaçada pelo independentismo regional. Seu antinacionalismo catalão transformou-se progressivamente em nacionalismo espanhol. Este ultrapassou a luta anticatalanista inicial para incluir a rejeição aos imigrantes árabe-muçulmanos. Esse novo objetivo baseava-se na instrumentalização das lembranças da Reconquista cristã da Península Ibérica na Idade Média. Por consequência, reatualizou também a memória da conquista das Américas, apresentada como a continuação ultramarina da fase final da Reconquista após a queda do Reino de Granada. Essa interpretação nacionalista da história retomou uma visão já presente durante o regime franquista. Segundo o Vox, seria preciso apagar a “lenda negra” da conquista, inventada pelas monarquias europeias invejosas da Espanha e perpetuada desde então por diversos movimentos “comunistas”, “socialistas”, wokistas e pós-coloniais.
Como as ideias “socialistas” estariam globalizadas por instituições transnacionais, o Vox, por uma simpatia linguística “natural”, voltou-se para a América Ibérica para construir contrapesos ideológicos. Tendo especialmente na mira os agrupamentos partidários das esquerdas, o Foro de São Paulo e o Grupo de Puebla, o Vox defendeu, em 2020, a necessidade de unir as forças da extrema direita hispânica para enfrentar um desafio nacional espanhol, mas também ibero-americano e mundial. Além de seus particularismos espanhóis, o Vox tomou a iniciativa de construir um espaço coletivo e transcontinental, que batizou de “Iberosfera”. Segundo o Vox, a Iberosfera reúne “700 milhões de pessoas (…), uma comunidade de nações livres e soberanas compartilhando uma herança e raízes culturais, além de um grande potencial econômico e geopolítico para enfrentar o futuro”.
A primeira iniciativa “internacionalista” concreta do Vox foi o apelo para assinar, em 2020, a “Carta de Madri”. Essa carta propunha um denominador mínimo para diferentes famílias partidárias da Iberosfera, mas também da Europa e das Américas, apesar de orientações ideológicas distintas e por vezes contraditórias, reconhecidas pelos próprios redatores do apelo. “Esta carta é apoiada”, lê-se no texto, “por diferentes líderes políticos com visões e ideias distintas, e até divergentes”. O ponto de convergência escolhido foi mais o dos rejeitos comuns do que o de expectativas compartilhadas. O inimigo identificado na “carta” são as forças que se opõem “à liberdade e à democracia”. Essas forças incluiriam “os regimes totalitários de inspiração comunista, apoiados no narcoterrorismo e em países terceiros, todos sob a proteção do regime cubano, bem como iniciativas como o Foro de São Paulo e o Grupo de Puebla, infiltrados nos centros de poder para impor sua agenda ideológica”. A natureza dessa agenda não é especificada, mas seus efeitos visariam “desestabilizar as democracias liberais e o Estado de direito”. Essa desestabilização é detalhada em quatro pontos:
- “a ameaça do comunismo à prosperidade e ao desenvolvimento […] às liberdades e aos direitos”;
- a necessidade de proteger “o Estado de direito, o império da lei, a separação dos poderes, a liberdade de expressão e a propriedade privada”;
- essa necessidade — “a defesa de nossas liberdades […] é responsabilidade não apenas dos atores políticos, mas também das instituições, da sociedade civil, da mídia e da academia”;
- os signatários comprometem-se a “trabalhar juntos na defesa desses valores e princípios”.
Esse texto é fruto de sete anos de evolução do partido espanhol. Seu credo inicial refletia os principais traços da extrema direita espanhola e era alimentado por reminiscências ideológicas do regime ditatorial do general Franco. Em 2013, a unidade nacional estava no centro dos valores fundamentais defendidos pelo Vox. A crise independentista basca ainda era muito recente, e a da Catalunha acabava de começar. Com o retorno do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) ao poder, em 2018, as medidas consideradas prioritárias pelo Vox foram ampliadas com a incorporação de novos temas.
A unidade e a soberania continuavam sendo as prioridades absolutas. Em seguida vinham:
- a urgência de uma regulação drástica dos fluxos migratórios para proteger a identidade nacional;
- a defesa externa, concebida tanto de forma militar quanto cultural, incluindo a proibição da construção de mesquitas;
- menos Estado na economia;
- na área da saúde, a exclusão dos migrantes ilegais do acesso ao serviço público;
- a proibição do aborto e das intervenções de mudança de sexo;
- a promoção internacional e europeia da língua espanhola;
- a garantia da liberdade de ensino e do direito de receber educação em espanhol em todo o território;
- a revogação da lei sobre violência de gênero, com a criação de um Ministério da Família;
- o incentivo à natalidade;
- a eliminação de subsídios a partidos políticos, fundações partidárias e sindicatos;
- legislação em favor das vítimas do terrorismo, proibindo homenagens a assassinos;
- reconhecimento especial às vítimas do terrorismo separatista e islamista;
- uma lei antiocupação ilegal;
- a ampliação do conceito de legítima defesa;
- uma preferência internacional voltada para relações bilaterais;
- a implementação de um novo tratado europeu reforçando o papel da Espanha, suas fronteiras e sua soberania nacional;
- a elaboração de um grande plano de cooperação com as nações hispanófonas.
Ao longo dos anos, o Vox também adotou uma postura paradoxal: ao mesmo tempo em que questiona, em nome da reconciliação, a lei da memória democrática que reconhece as vítimas do franquismo, busca preservar a presença, no espaço público, de estátuas e nomes de ruas que fazem referência explícita à ditadura e a seus responsáveis.
Essa “carta” pretendia reunir, em torno dos princípios e valores mencionados anteriormente e conferindo-lhes uma legitimação internacional, personalidades de segundo escalão oriundas da Iberosfera, mas também da Europa e da América do Norte, suscetíveis de alcançar futuramente posições de governo. Para isso, o Vox buscou um conjunto de figuras emergentes, em busca de notoriedade, representativas do espaço das extremas direitas europeias, ibero-americanas e norte-americanas. A escolha revelou-se, grosso modo, pertinente: assinaram o documento argentinos, entre eles Javier Milei, então deputado; bolivianos; brasileiros, incluindo o senador Eduardo Bolsonaro; chilenos, entre eles José Antonio Kast; colombianos; costa-riquenhos; cubanos, entre eles a dissidente e escritora Zoé Valdés; equatorianos; hondurenhos; mexicanos, sobretudo do Partido da Ação Nacional (PAN); paraguaios; peruanos, entre eles Rafael López Aliaga, que viria a se tornar prefeito de Lima e candidato à eleição presidencial de 2026; salvadorenhos; uruguaios; e venezuelanos, entre eles Antonio Ledezma, ex-prefeito de Caracas, e María Corina Machado, figura da oposição laureada com o Prêmio Nobel da Paz de 2025. Também assinaram esse compromisso não ibero-americanos e europeus, como o espanhol Santiago Abascal, a francesa Marion Maréchal, a italiana Giorgia Meloni, o grego Emmanouil Fragkos, o neerlandês Derk Jan Eppink e o português André Ventura.
Em outubro de 2020, os signatários dessa carta foram convidados a participar das atividades de um Fórum de Madri (Foro Madrid). O objetivo desse fórum é promover as relações entre partidos políticos e organizações de extrema direita ibero-americanos. Hospedado pela fundação do Vox, a Disenso, o Foro Madrid publica estudos difundindo os valores do coletivo. Todos os anos, elabora um relatório sobre a região latino-americana. A versão de 2024 leva o título “Ameaças à liberdade, o assalto contra a democracia na América Latina”. O Foro Madrid também organiza encontros entre os signatários da “carta”. O primeiro encontro desse coletivo foi realizado em fevereiro de 2022 em Bogotá, capital da Colômbia. O tema central da reunião era, antes das eleições presidenciais da Colômbia e do Brasil, contrariar a perspectiva de vitória de Luiz Inácio Lula da Silva no Brasil e de Gustavo Petro na Colômbia, qualificados de “narco-comunistas”. O segundo encontro ocorreu em Lima, no Peru, em março de 2023; o terceiro, em Buenos Aires, em 2024; e o quarto, em Assunção, em junho de 2025. No centro dos debates, o Foro de São Paulo e o Grupo de Puebla, apresentados como “organizações criminosas”, foram alvo de alertas acompanhados de estratégias de contenção. Um boletim digital, La Gaceta de la Iberosfera, assegura a difusão contínua de informações destinadas aos signatários da “Carta de Madri”.
Viva 24, Madri e Vox: cruzamento de redes norte-americanas, ibero-americanas, europeias e israelenses
Nos dias 18 e 19 de maio de 2024, o Vox reuniu, em Madri, uma potencial internacional de extrema direita, que ultrapassava clivagens geográficas e programáticas. O convite, para um encontro eleitoral europeu, foi enviado a um amplo conjunto de personalidades e dirigentes da extrema direita. Responsáveis políticos da América Latina, da América do Norte, da Europa e de Israel compareceram em grande número. Cada um estava ali em nome de um partido nacional e, por vezes, também de uma fundação e de uma organização de cooperação ideológica.
Além da direção do Vox, estiveram presentes — fisicamente ou por videoconferência — o presidente argentino Javier Milei; Agustín Laje, ensaísta e influenciador da nova extrema direita latino-americana; a presidente do Conselho de Ministros da Itália, Giorgia Meloni; o presidente do partido chileno de extrema direita Partido Republicano, José Antonio Kast, eleito presidente de seu país em 2025; o ator e mecenas da extrema direita mexicana Eduardo Verástegui; o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán; Mateusz Morawiecki, ex-primeiro-ministro polonês do partido PiS; a ex-presidente do Reagrupamento Nacional francês, Marine Le Pen; André Ventura, presidente do partido português de extrema direita Chega; Matt Schlapp, presidente da American Conservative Union (ACU); e Roger Severino, vice-presidente da The Heritage Foundation. A presença do ministro israelense para os Assuntos da Diáspora, Amichai Chikli, confirmou a boa relação existente entre o Vox e o Likud.
Além das fundações já mencionadas, também estavam presentes a fundação do Vox, Disenso; a The Heritage Foundation; o Alapjogokért Központ (Centro de Direitos Fundamentais), ligado ao Fidesz húngaro; a Red Políticas por los Valores (Rede Política pelos Valores), do Partido Republicano chileno; assim como a CPAC e os dois grupos parlamentares das direitas radicais no Parlamento Europeu — ECR (Conservadores e Reformistas) e ID (Identidade e Democracia).
O evento, coberto por dezenas de meios de comunicação internacionais, evidenciou a capacidade de mobilização do Vox — uma capacidade paradoxal. É verdade que o Vox é o terceiro partido político da Espanha. No entanto, nas eleições europeias de 2024, ficou bastante distante dos dois primeiros colocados, o Partido Popular (PP) e o PSOE. O partido também não conseguiu absorver a direita clássica espanhola, como fizeram o partido argentino La Libertad Avanza em relação ao PRO, o Partido Liberal brasileiro em relação ao PSDB, o Partido Republicano chileno em relação à Renovação Nacional, e como parece poder fazer o Reagrupamento Nacional na França em relação ao partido Os Republicanos (LR). Nesses países, assim como na Alemanha de 1933, os partidos “burgueses” aceitaram subordinar sua ação à da extrema direita, algo que o Vox não conseguiu realizar na Espanha. Ainda assim, e isso não é pouca coisa, o Vox conseguiu impor sua agenda e seus métodos ao Partido Popular. Tanto o PP quanto o Vox, assim como partidos e dirigentes de extrema direita em outras regiões do mundo, abusam da legalidade democrática para minar seu espírito e desviar sua legitimidade. Utilizam a arma do ódio, recorrem ao tribalismo político e difundem acusações infundadas massivamente pelas redes sociais para desqualificar o adversário e tornar inviável e inútil o debate de ideias e programas. A arma, contudo, é de dois gumes. O Se Acabó La Fiesta (SALF), um partido surgido das redes sociais, ainda mais radical que o Vox, retirou mais de 4% dos votos de seu equivalente nas eleições europeias de 2024. O SALF, entretanto, sequer havia apresentado um programa ou organizado reuniões públicas.
A escolha pela internacionalização de suas ambições, as numerosas viagens realizadas por seu presidente Santiago Abascal, acompanhadas de um acompanhamento institucional e organizacional duradouro, constituem sem dúvida um dos fatores explicativos do sucesso do encontro madrilenho de 19 de maio de 2024. A rede assim constituída respondeu claramente a uma demanda. O Vox tornou-se um prestador de serviços de interesse compartilhado, propondo uma articulação considerada ideal entre ideologia e conquista do poder. Além disso, busca constantemente atualizar seus parceiros, privilegiando não a proximidade ideológica, mas a perspectiva de um acesso provável ao poder executivo e/ou ao parlamento. Marion Maréchal, apesar de signatária da “Carta de Madri”, não esteve presente no Viva 24, em 19 de maio de 2024. Ausência ainda mais surpreendente porque, em 2020, Marion Maréchal abriu em Madri uma filial de sua escola de formação de quadros da extrema direita, o Instituto de Ciências Sociais, Econômicas e Políticas (ISSEP), dirigido por um aliado próximo de Javier Milei. Foi Marine Le Pen, que não havia sido convidada em 2020 para assinar a carta, ou que não deu continuidade ao convite, quem representou a extrema direita francesa na manifestação pública do Vox.
Jorge Buxadé Villalba, cabeça de lista do Vox nas eleições europeias, explicou, segundo ele, as razões do sucesso participativo da conferência-encontro Viva 24 e do trabalho de aproximação entre forças de extrema direita europeias, americanas e israelenses: “Temos com Milei, Meloni, Le Pen ou Viktor Orbán um inimigo comum”. O denominador comum das extremas direitas é mínimo: unir-se contra os detentores do poder mais ou menos identificados com a esquerda, descritos por Jorge Buxadé Villalba como representantes do “socialismo globalista”. A estratégia, reduzida assim à sua expressão mais simples, mas também mais mobilizadora, mostrou-se eficaz. O Vox capitalizou os ganhos deixados em aberto pelos múltiplos encontros realizados pela CPAC e pela União Conservadora Liberal dos Bolsonaro. Apesar, ou talvez por causa, de suas dificuldades em impor sua presença política na Espanha, o Vox busca reconhecimento externo. Para isso, o partido construiu um fórum das extremas direitas com vocação global, facilitando trocas e cooperações quadrangulares entre Europa, América do Norte, América Latina e Israel.
Notas
Texto originalmente publicado em francês, em 12 de maio de 2026, no site Fondation Jean Jaurès, Paris/França, com o título original: “ L’extrême droite transatlantique mobilisée par les Espagnoles Vox et Disenso”. Disponível em: https://www.jean-jaures.org/publication/lextreme-droite-transatlantique-mobilisee-par-les-espagnoles-vox-et-disenso/. Tradução Myllena Araújo do Nascimento e revisão de Andrei Cezar da Silva.
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Jean-Jacques Kourliandsky é diretor do Observatório da América Latina junto ao IRIS – Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, com sede em Paris, e responsável pela cobertura e análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É formado em Ciências Políticas pelo Instituto de Estudos Políticos de Bordeaux e Doutor em História Contemporânea pela Universidade de Bordeaux III. Atua como observador internacional junto às fundações Friedrich Ebert e Jean Jaurès. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014), e colabora frequentemente com o Observatório da Imprensa, em parceria com o LABOR – Laboratório de Estudos do Discurso e com o LIRE – Laboratório de Estudos da Leitura, ambos da UFSCar – Universidade Federal de São Carlos.
