Quinta-feira, 30 de julho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1399

Dom e Bruno, 4 anos depois: os desafios do jornalismo de cobertura socioambiental na Amazônia

 

Os quatro anos do assassinato do jornalismo do jornalista britânico Dom Phillips e do indigenista Bruno Pereira, ocorridos em junho de 2022 no Vale do Javari (AM), foram o tema de webinário realizado pelo Observatório da Imprensa nesta segunda-feira, dia 27 de julho.

Assista aqui na íntegra.

Com mediação de Denize Bacoccina, editora do Observatório da Imprensa, a mesa contou com a participação de Andrew Fishman (presidente do Intercept Brasil), Daniel Camargos (repórter especial da Repórter Brasil), Ruthiene Bindá (repórter da Rede Amazônica/TV Globo) e Cley Medeiros (jornalista socioambiental e bolsista do Pulitzer Center).

O choque inicial e a força da pressão internacional

A repórter Ruthiene Bindá, uma das primeiras jornalistas de televisão a cobrir o caso, relembrou a inércia e a postura inicial do poder público diante do desaparecimento. As autoridades chegaram a classificar a expedição como uma atitude de “aventureiros”, ignorando os alertas e relatórios previamente consolidados por Bruno Pereira e pela Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari). Ela destacou as imensas dificuldades logísticas e operacionais enfrentadas pelas equipes de imprensa locais e nacionais, marcadas pela falta de conectividade, acessos fluviais complexos e informações repassadas pela Polícia Federal.

Já o jornalista Cley Medeiros relatou como a comoção internacional funcionou como catalisador essencial para empurrar os órgãos oficiais a agirem. O alarde global forçou as autoridades a investigar não apenas os executores materiais da emboscada, mas também os possíveis mandantes da cadeia do crime organizado na região.

A memória de Dom Phillips e o papel do financiamento global

Andrew Fishman, amigo pessoal de Dom e colaborador na conclusão do livro póstumo Como salvar a Amazônia, relembrou a dedicação e o perfil cauteloso de Phillips ao planejar suas viagens de cobertura. Dom acreditava no poder de amplificar as vozes locais da floresta para conscientizar o público internacional.

Fishman, que escreveu o capítulo do livro dedicado a finanças internacionais, explicou que o desmatamento e a violência no território amazônico não são apenas problemas locais, mas estendem-se aos grandes centros financeiros internacionais (Faria Lima, Londres, Nova York) e a governos que perpetuam incentivos econômicos perversos.

Protocolos de segurança: o dilema entre a denúncia e a preservação da vida

O debate abordou profundamente os riscos que persistem sobre repórteres e comunicadores que cobrem conflitos fundiários, mineração ilegal e direitos humanos na Amazônia.

Daniel Camargos, diretor do documentário Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia, enfatizou que o assassinato de Dom provocou um choque de realidade em toda a categoria. Ele destacou que o protocolo de segurança envolve planejamento prévio minucioso e, acima de tudo, a responsabilidade de não expor as fontes locais, aceitando derrubar a pauta caso haja risco real de retaliação às comunidades locais.

Cley Medeiros mencionou a mudança de postura em diversas organizações jornalísticas e bolsas de reportagem, que passaram a adotar acompanhamento via GPS 24 horas por dia em viagens de campo para territórios isolados ou sob tensão socioambiental.

Ruthiene Bindá reforçou que o jornalismo de cobertura diária/factual enfrenta limitações estruturais e a ausência contínua do braço estatal, o que exige atenção redobrada aos critérios de segurança em relação ao jornalismo investigativo de fôlego.

Impunidade, julgamento e legado

Sobre o andamento dos processos judiciais, os participantes enfatizaram que, embora executores e o suposto mandante (“Colômbia”) tenham sido identificados e presos cautelarmente, a morosidade para a realização do júri popular — já definido para ocorrer em Manaus — ainda gera forte ansiedade por justiça integral.

Como legado vivo do trabalho deixado por Bruno e Dom, foram destacados o fortalecimento das iniciativas de manejo sustentável do pirarucu gerido pelos próprios indígenas da região e a criação de órgãos de estado voltados especificamente à proteção de povos isolados e de recente contato.

Assista ao debate completo

O webinário “Dom e Bruno 4 anos depois – investigações e busca por justiça” está disponível na íntegra no canal oficial do Projor no YouTube.

Resumo feito pelo Google Gemini, com edição da editora do Observatório da Imprensa.