Domingo, 20 de setembro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1406

A IA como nova fonte de informação: quem pauta quem?

(Foto: Alex Knight/Pexels)

O jornalismo sempre foi uma atividade marcada pela seleção. Entre milhares de acontecimentos que ocorrem diariamente, o jornalista escolhe quais merecem atenção pública, quais fontes devem ser ouvidas, quais informações precisam ser verificadas e qual narrativa será apresentada ao leitor. A ascensão da inteligência artificial (IA), porém, introduz uma mudança importante nesse processo: máquinas deixam de ser apenas ferramentas utilizadas pelos profissionais e passam, progressivamente, a participar da descoberta, seleção, organização e transmissão de informações. Essa transformação cria oportunidades para o jornalismo, mas também exige uma reflexão sobre autonomia, credibilidade e responsabilidade editorial.

Um estudo publicado em 2026 na Nature Communications, assinado por Levin Brinkmann, Thomas F. Eisenmann, Anne-Marie Nussberger, Maxime Derex, Sara Bonati, Valerii Chirkov e Iyad Rahwan, demonstra que sistemas de IA podem descobrir estratégias que dificilmente seriam encontradas por seres humanos e, quando essas estratégias são compreensíveis e apresentam vantagens claras, elas podem ser incorporadas e transmitidas entre pessoas. A experiência, embora não tenha sido realizada especificamente no campo jornalístico, oferece uma chave importante para compreender o que acontece atualmente nas redações.

O primeiro elo com o jornalismo está justamente na seleção. O jornalista tradicionalmente decide o que será notícia a partir de critérios como relevância, interesse público, proximidade, impacto, atualidade e novidade. No ambiente digital, entretanto, sistemas automatizados também participam dessa seleção. Algoritmos recomendam conteúdos, identificam tendências, classificam documentos, transcrevem entrevistas, sugerem títulos e ajudam a localizar padrões em grandes volumes de dados.

A pesquisa mostra que máquinas possuem uma capacidade exploratória muito superior à humana. No experimento, o sistema de inteligência artificial conseguiu encontrar uma estratégia considerada ótima em menos de cinco minutos, enquanto apenas um dos 600 participantes humanos conseguiu descobri-la ao longo da experiência. Para o jornalismo, a analogia é evidente: uma máquina pode vasculhar milhares de documentos, bases de dados, publicações e registros em uma velocidade impossível para um repórter trabalhando sozinho.

Isso pode significar uma revolução positiva no jornalismo investigativo. Grandes bases de dados podem ser examinadas em busca de padrões; documentos podem ser comparados automaticamente; alterações em contratos públicos podem ser identificadas; discursos podem ser confrontados; e informações dispersas podem ser organizadas para que o jornalista encontre aquilo que merece investigação.

Mas velocidade não é sinônimo de jornalismo.

Esse é o segundo elo fundamental. A pesquisa demonstra que uma estratégia produzida pela máquina só se torna culturalmente relevante quando consegue ser transmitida, compreendida e reconhecida como vantajosa. No jornalismo, isso corresponde a uma questão central: não basta que a IA encontre uma informação. É necessário que o jornalista consiga compreender como ela chegou àquela conclusão, verificar suas fontes e avaliar sua relevância social.

A máquina pode apontar um caminho; a responsabilidade editorial continua sendo humana.

O experimento oferece um alerta particularmente importante. Nas populações que tiveram contato com as máquinas, 90% dos participantes da primeira geração escolheram uma máquina como demonstradora, e, na geração final, todos os participantes eram descendentes de uma linhagem iniciada por uma máquina. O resultado revela como a percepção de eficiência pode levar seres humanos a privilegiar soluções produzidas por sistemas artificiais.

No jornalismo, algo semelhante pode ocorrer quando profissionais passam a confiar excessivamente em ferramentas capazes de produzir textos, selecionar pautas ou indicar tendências. Se determinado algoritmo apresenta resultados aparentemente melhores ou mais rápidos, existe o risco de sua lógica ser incorporada à rotina profissional sem questionamento.

É justamente aí que surge um dos maiores desafios do jornalismo contemporâneo: quem escolhe aquilo que merece ser conhecido?

Se uma redação utiliza sistemas de IA para identificar os assuntos mais relevantes, existe o perigo de confundir relevância jornalística com desempenho algorítmico. O que gera maior engajamento pode não ser o que possui maior importância pública. Uma investigação sobre corrupção pode receber menos cliques do que uma celebridade envolvida em uma polêmica. Um problema ambiental pode ser menos compartilhado do que uma controvérsia política. O algoritmo mede determinados comportamentos; o jornalista precisa interpretar o significado social desses comportamentos.

A própria pesquisa mostra que estratégias consideradas vantajosas podem se disseminar quando são fáceis de aprender e demonstram resultados. Mas os autores também alertam para a possibilidade de estratégias produzidas pelas máquinas serem indesejáveis do ponto de vista humano, levantando questões relacionadas à autonomia, à criatividade e aos riscos epistemológicos. Esse alerta deveria ser incorporado ao debate sobre jornalismo e IA.

O problema, portanto, não está em utilizar inteligência artificial. O problema começa quando a ferramenta deixa de ser questionada.

O jornalismo profissional possui uma função que não pode ser reduzida à velocidade de processamento: construir confiança pública. Isso depende de apuração, transparência, contraditório, contextualização e responsabilidade. Uma IA pode ajudar a localizar uma informação, mas não deve ser confundida com a própria prática jornalística.

Há, ainda, uma questão de autoria. À medida que sistemas generativos passam a produzir textos, títulos, resumos e sugestões de pautas, torna-se necessário distinguir aquilo que foi descoberto pela máquina daquilo que foi efetivamente apurado pelo jornalista. A pesquisa indica que as descobertas das máquinas podem ser incorporadas à cultura humana e permanecer mesmo depois que a máquina deixa de estar presente. No jornalismo, isso significa que procedimentos inicialmente introduzidos como ferramentas podem transformar profundamente a própria cultura das redações.

O futuro do jornalismo, portanto, não será definido simplesmente pela substituição do jornalista pela máquina. A questão mais importante será outra: que tipo de jornalista surgirá quando a máquina participar cada vez mais do processo de descoberta?

A resposta passa pela formação de profissionais capazes de trabalhar com IA sem abandonar os princípios fundamentais da profissão. O jornalista do futuro precisará saber perguntar à máquina, mas também duvidar de suas respostas; utilizar dados, mas compreender suas limitações; acelerar a apuração, mas preservar a verificação; identificar padrões, mas reconhecer contextos que não aparecem nos números.

A pesquisa de Brinkmann e seus colegas sugere que máquinas podem ampliar o horizonte das estratégias humanas. No jornalismo, essa ampliação pode ser extraordinariamente produtiva. Entretanto, ampliar o horizonte não significa abandonar o olhar humano.

A melhor redação do futuro talvez não seja aquela que possui mais inteligência artificial, mas aquela que consegue estabelecer a melhor relação entre inteligência artificial e inteligência jornalística. A máquina pode encontrar o caminho que ninguém havia percebido. Cabe ao jornalista decidir se esse caminho conduz à verdade, ao interesse público ou apenas à próxima distração digital.

No fim, a tecnologia pode mudar a velocidade do jornalismo. Pode mudar seus instrumentos, suas rotinas e até suas formas de narrativa. Mas não deveria mudar sua responsabilidade essencial: descobrir o que importa, verificar o que é verdadeiro e explicar ao público por que isso importa.

***

Laercio Damasceno é jornalista e Diretor Responsável do Site MaisConhecer.com.