Sábado, 24 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

A cortina de fumaça e a maturidade que falta

Plenário do STF. (Foto: Gustavo Moreno/STF – Public Domain Mark – Esta obra não está mais protegida por direitos autorais e pode ser usada livremente. Saiba mais. Atribuição para esta foto: “Plenário do STF” por Supremo Tribunal Federal STF, Public Domain Mark)

A imprensa reconhecer uma cortina de fumaça não é pouco. Dar nome a esse artifício é um sinal de maturidade ­­– é admitir que, por trás do que se diz, há muito do que não se quer dizer. E foi isso que vimos no dia 15 de setembro, quando o jornalista da Globo, Gerson Camarotti, classificou sem rodeios o discurso dos magistrados no STF como uma “cortina de fumaça”. Muitos jornalistas parecem estar atentos a essa questão. É positivo, sem dúvida.

A imprensa é um poder. Bourdieu, ao estudar o campo jornalístico, falava do poder simbólico da mídia – o poder de fazer ver e fazer crer. É por isso que a chamamos de “quarto poder”: sua influência pode construir a realidade, alertar as massas, iluminar o que se tenta esconder. Quando bem usada, ela cumpre esse papel. Mas e o STF? Como está a maturidade dessa outra instituição, que também concentra um poder imenso? Preocupante.

E o que se discutiu, afinal, no lugar do essencial? Em vez de se debruçar sobre o mérito –  as 52 mensagens trocadas entre Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro, os encontros e o contrato de R$ 130 milhões entre o Banco Master e o escritório da mulher do ministro – , a sessão se perdeu em outros embates: a contestação da relatoria de Edson Fachin, a proposta de Gilmar Mendes de julgar “todos os citados”, o impedimento de Kassio Nunes Marques e a suspeição de Dias Toffoli, o bate-boca entre Gilmar e Mendonça e o pedido de vista de Flávio Dino, que ainda acusou Fachin de conduzir a Corte “de maneira degradante”. Tudo isso, menos o essencial.

Se a imprensa, com todos os seus tropeços, conseguiu dar nome ao problema, por que a Corte – que deveria ser o exemplo de serenidade – se perdeu em brigas internas? A pergunta é incômoda, mas necessária: quem vigia o vigilante?

O STF é o guardião da Constituição, a última trincheira do cidadão. É dele que se espera o equilíbrio quando todos os outros poderes falham. Mas, naquela manhã, quem assistiu à sessão viu o oposto: ministros trocando acusações, um chamando o outro de mentiroso, outro dizendo que a Corte era conduzida “de maneira degradante”. A serenidade que se espera de um tribunal supremo deu lugar ao espetáculo.

E é aí que mora a preocupação. Se a imprensa, mesmo imperfeita, teve a maturidade de apontar a cortina de fumaça, o STF, no mesmo dia, fez o papel de produzi-la. Um poder apontou o desvio; o outro poder o fabricou. Quando a instituição que deveria julgar com isenção se torna parte do teatro, o que sobra para o cidadão comum?

Reconhecer a cortina de fumaça foi um passo. Mas um passo, sozinho, não atravessa a rua.

O mérito do jornalista que deu nome ao artifício é real, e é justo reconhecê-lo. Mas apontar o desvio não basta se a cobertura se contenta em descrever o espetáculo sem explicar o que estava em jogo. O público viu o bate-boca, viu o pedido de vista, viu os ministros se acusarem. Mas quantos entenderam, de fato, o que estava sendo decidido – e o que deixou de ser decidido?

É aí que o jornalismo, no geral, ainda tropeça. Nomear o problema é o começo; insistir nele, explicá-lo, não deixar que morra no pedido de vista – isso é outra coisa. O jornalista que aponta a cortina de fumaça tem a obrigação de não se deixar engolir por ela. Senão, o acerto vira só um momento de lucidez num mar de distração.

No fim, a cortina de fumaça não é só dos magistrados. Ela também é nossa, quando deixamos que o espetáculo substitua o essencial.

Se a imprensa aponta, mas não aprofunda, e o STF desvia, quem fica com a verdade? O leitor, que assiste a tudo sem entender o que realmente importa. E é exatamente aí que o ciclo se fecha: a distração alimenta a distração, o público se acostuma a ver o teatro, e o essencial vai ficando para trás, silenciosamente.

Talvez seja essa a lição daquela manhã. Não bastou a imprensa reconhecer a cortina de fumaça, nem bastará o STF um dia enfrentar o mérito. É preciso que nós, cidadãos, exijamos o essencial – e que não nos contentemos com o espetáculo. Porque, enquanto todos olham para a fumaça, o que importa continua escondido atrás dela.

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Neide Fischer é Jornalista e Professora. Interessada em lógica, ciência das origens e na análise crítica dos discursos contemporâneos. Autora do livro Dogma do jaleco: fé disfarçada de método (Kindle).