Sexta-feira, 23 de outubro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1411

A hipertrofia da cobertura

(Foto: Isaiah Ekele/Pexels)

Na manhã do dia 10 de setembro de 2026, o UOL News abriu sua edição comentando o pronunciamento que o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes convocara e, pouco depois, cancelara sem explicações. Fabíola Cidral, Josias Souza e Leonardo Sakamoto dedicaram 18 minutos a esse não-evento, o pronunciamento que não houve, as razões que não foram dadas, o significado que se atribuía a um silêncio institucional em meio à crise aberta no Supremo desde que o ministro Edson Fachin retirara Moraes da relatoria do Inquérito das Fake News. Nisso, alguns internautas interromperam essa deriva pelo chat do programa alertando a apresentadora que havia notícia mais relevante naquela manhã, a operação da Polícia Federal contra o desvio de emendas parlamentares para o filme Dark Horse, com 49 mandados de busca cumpridos em quatro estados e alvos nomeados, entre eles o deputado federal Mario Frias. A pauta só mudou depois dessa intervenção.

Horas mais tarde, no mesmo portal, o programa Pulso Político, com Daniela Lima, ofereceu uma chave que reconfigura retroativamente todo o episódio, pois o próprio Moraes decidira não se pronunciar justamente para não tirar os holofotes da operação da PF. Discutiu-se também no programa uma pesquisa da empresa de inteligência digital Palver sobre a reação do público ao afastamento, depois revogado, do diretor-geral da PF Andrei Rodrigues, e uma “decisão salomônica” tomada pelo presidente da Corte para conter o desgaste entre os ministros Moraes e André Mendonça. A sequência completa desses quatro momentos, considerada em conjunto, expõe uma tensão estrutural na cobertura jornalística do Judiciário brasileiro contemporâneo, e é essa tensão, não qualquer um dos episódios isoladamente, que interessa problematizar.

Especulou-se pela manhã sobre o que um ministro do STF pretendia dizer quando decidiu não dizer nada; investigava-se, ao mesmo tempo, com instrumentos processuais concretos um esquema de desvio que tocava diretamente a máquina pública e uma produção cultural sobre um ex-presidente da República. A primeira operação era discursiva, hipotética, ancorada numa gramática de bastidores, a segunda, factual, documental, ancorada em atos de força do Estado. Um padrão se deixa entrever aí, e a ele vale a pena permanecer, em vez de resolvê-lo rapidamente numa crítica pontual aos apresentadores. Se a explicação de que Moraes silenciou precisamente para não competir por atenção com a Operação Dark Horse procede, então o vazio interpretado pela manhã como enigma institucional era, ao que tudo indica, um gesto deliberado de recuo tático. Uma ironia estrutural se instala nesse ponto, visto que se comentou extensivamente sobre um silêncio cujo propósito era não disputar espaço com a notícia que um internauta teve de resgatar, o tempo dedicado ao enigma foi o tempo que o próprio ministro pretendia liberar para a cobertura do caso Dark Horse, e a cobertura ao vivo, paradoxalmente, gastou-o especulando sobre o motivo do silêncio do ministro.

A reconstrução dos motivos de Moraes ilustra algo relevante sobre a temporalidade do jornalismo ao vivo, posto que o sentido de um acontecimento frequentemente só se estabiliza depois, por apuração posterior, quando fontes são ouvidas e versões contrastadas, processo que o comentário ao vivo, por definição, não tem tempo de esperar. A hipertrofia da cobertura sobre o Supremo, documentada desde 2014 pelo grupo de pesquisa Supremo em Pauta, sediado na FGV Direito SP, vem registrando o crescimento simultâneo da projeção institucional do tribunal e do volume de cobertura midiática dedicada a ele, num movimento que se retroalimenta, pois quanto mais o STF ocupa posição central no sistema político brasileiro, mais a imprensa é chamada a segui-lo hora a hora, e quanto mais é seguido hora a hora, mais o tribunal se consolida como protagonista obrigatório do noticiário, inclusive quando não há decisão, sentença ou fato a relatar. Um pronunciamento cancelado, nesse regime de atenção acumulada, não precisou carregar conteúdo para justificar o tempo gasto no programa UOL News, bastou que o personagem já estivesse instalado como centro gravitacional da pauta, mesmo quando a intenção documentada desse mesmo personagem era exatamente a de não ocupar esse centro.

Essa centralidade não decorre apenas da posição institucional do tribunal, é também efeito de uma reorganização mais ampla na forma como o jornalismo produz e distribui informação política em tempo real. A pesquisa de Mota (2019) sobre jornalismo live streaming caracteriza esse formato por três traços que se reforçam mutuamente: interatividade, imediaticidade e uma condição de instantaneidade intensiva em que produção, difusão e consumo se tornam praticamente síncronos. Um efeito colateral dessa sincronia é que o formato ao vivo, sustentado por alta visibilidade das interações do público, tende a integrar o espectador como coprodutor do conteúdo em tempo real, condição que se dá, segundo o autor, sob baixa moderação editorial. Os comentários dos internautas que redirecionaram a pauta do UOL News ilustram esse mecanismo, uma vez que não foi decisão editorial prévia que corrigiu a hierarquia de relevância, mas a intervenção de um coprodutor, operando dentro de uma arquitetura técnica que já previa, estruturalmente, esse tipo de interferência, entretanto, essa arquitetura não é neutra quanto ao momento em que a correção ocorre. Ela permite a intervenção sem antecipá-la, o chat funciona como corretivo posterior, não como filtro prévio à sua ocorrência.

O estudo de Araujo; Belim (2024) sobre a cobertura da Folha ao escândalo da Vaza Jato, oferece uma chave complementar, porquanto decisões editoriais sobre a publicação de material sensível envolvendo o Judiciário são atravessadas por múltiplas narrativas concorrentes que não emergem espontaneamente do fato bruto, mas são construídas a partir de escolhas discursivas sobre o que se enfatiza e o que se deixa em segundo plano. Algo equivalente parece operar na cobertura do não-pronunciamento de Moraes, a ausência técnica de qualquer declaração não impediu a construção de uma narrativa sobre o próprio ato de cancelar, tratado como dado informativo suficiente para sustentar análise ao vivo, mesmo que a motivação real desse ato fosse exatamente a de evitar que ele se tornasse notícia.

Os dados trazidos pela Palver no programa Pulso Político adicionam uma camada que a cobertura do UOL News não tinha à disposição, mas que já circulava publicamente antes mesmo de o programa ir ao ar: 73% de rejeição ao afastamento de Rodrigues nas mídias sociais – X, Instagram e Facebook – contra 27% de apoio à decisão de Mendonça, com replicação quase idêntica nos aplicativos de mensagens, 70% contra e 30% a favor. Esse dado quantitativo não resolve a discussão, complica-a de maneira produtiva, pois a opinião pública nas redes digitais já sinalizava rejeição amplamente majoritária a um dos lances mais graves da crise institucional, e ainda assim a cobertura ao vivo da manhã não incorporou esse contexto ao tratar do cancelamento do pronunciamento de Moraes, preferindo especular sobre motivações individuais do ministro a situar o episódio dentro do quadro mais amplo de rejeição pública que os próprios dados da Palver já documentavam há dias.

As decisões de Fachin adicionam uma última camada institucional a essa leitura, pois ao revogar simultaneamente o ato de Mendonça contra Rodrigues e o do ministro Flávio Dino que tentara reconduzi-lo, ao retirar Moraes da relatoria do Inquérito das Fake News e sinalizar intenção de encerrá-lo, e ao suspender as investigações mútuas entre os ministros até deliberação do Plenário, o presidente do STF produziu um pacote de medidas que buscava, segundo bastidores, equilibrar responsabilidades entre polos antagônicos da crise. Esse equilíbrio institucional não encontrou equivalente na cobertura ao vivo, pois enquanto o presidente da Corte tentava distribuir simetricamente o ônus da crise entre os ministros, a atenção jornalística permaneceu concentrada quase integralmente na figura de Moraes, deixando em segundo plano tanto a arquitetura institucional que Fachin desenhava quanto o dado, já disponível via Palver, de que a opinião pública já havia se posicionado maciçamente contra um dos atores dessa disputa.

Vale reconhecer os limites dessa leitura antes que ela se converta em condenação fácil da prática jornalística. A cobertura da crise institucional no Supremo não é, em si, irrelevante ou espúria. Medidas concretas foram tomadas por Fachin, a relatoria do Inquérito das Fake News foi efetivamente centralizada na presidência do tribunal, e há matéria jornalística legítima em acompanhar esse processo com atenção. A desproporção não está em cobrir a crise do STF, mas na distância entre o que se sabia naquela manhã e o que se especulava, quando o pronunciamento cancelado sem explicação era insuficiente para sustentar 18 minutos de análise substantiva, e quando, segundo se saberia depois, a própria motivação do cancelamento já continha, em germe, a resposta que a especulação buscava alcançar por outros meios.

Permaneceu, ao final do dia, uma pergunta que a sequência completa dos fatos não permite fechar com segurança. Se a pauta da manhã tivesse incorporado, desde o início, tanto a hipótese de que o silêncio de Moraes era estratégico quanto os dados já disponíveis sobre a rejeição pública ao episódio Mendonça-PF, os minutos iniciais do UOL News teriam sido gastos de outra forma. A contrafactual não pode ser reconstituída com certeza, o que pode ser constatado é que a arquitetura da cobertura ao vivo produziu uma hierarquia de atenção que o programa Pulso Político teve de corrigir por partes, uma vez pela reportagem que explicou o cancelamento, outra pelos números que situaram a crise dentro de um quadro de opinião pública já consolidado antes mesmo que o programa fosse ao ar.

Dois dias depois, em 12 de setembro, Fachin negou um pedido de Moraes para que seu caso fosse julgado em conjunto com o processo sobre a conduta de Mendonça nos casos Master e INSS, mantendo agendas separadas, a sessão extraordinária de 15 de setembro trataria exclusivamente do caso Vorcaro-Moraes, e uma nova sessão, em 23 de setembro, ficaria reservada à apuração sobre Mendonça. A sessão de 15 de setembro, por sua vez, não chegou sequer à questão de fundo, pois travou-se entre os ministros uma disputa prévia sobre o rito, e um pedido de vista de Dino suspendeu o julgamento com o placar provisório em quatro a três pela manutenção dos processos separados, a mesma separação que Moraes tentara evitar três dias antes. A sessão não foi, ainda assim, desprovida de conteúdo jornalístico, produziu embates abertos em plenário, com os ministros Gilmar Mendes, Cristiano Zanin e o próprio Moraes votando pela reunião dos casos, e Mendonça, Fachin, Fux e Cármen Lúcia pela separação, além de trocas ríspidas entre os ministros.

Essa fartura de episódios verbalizáveis – votos, vistas, impedimentos declarados por Nunes Marques e Dias Toffoli – tende a preencher, mais uma vez, o espaço que a ausência de uma decisão de mérito deixaria vazio. Logo em seguida, em 17 de setembro, Fachin cancelou a sessão de 23 de setembro sobre Mendonça, sem remarcação, por entender que ela dependia diretamente da questão de ordem ainda em aberto, e, no mesmo despacho, determinou a reunião das duas petições, a de Moraes e a de Mendonça, e sua redistribuição regimental, o que na prática atendia à unificação que ele próprio recusara cinco dias antes. O vazio de 23 de setembro repete, em escala ampliada, o vazio do pronunciamento cancelado, um evento anunciado e depois retirado de pauta, que a cobertura em tempo real tenderá, mais uma vez, a preencher com a mesma gramática de bastidores, o que não desmente a leitura proposta aqui, mas a estende.

Referências

ARAUJO, R.; BELIM, C. Cobertura jornalística do escândalo político na democracia. Brazilian Journalism Research, v. 20, n. 3, e1673, 2024. DOI: https://doi.org/10.25200/BJR.v20n3.2024.1673.

MOTA, A. Jornalismo live streaming. Faculdade de Comunicação. Salvador: UFBA, 2019.

***

Ramsés Albertoni