
(Foto: Alena Darmel/Pexels)
A disputa eleitoral brasileira consolidou, definitivamente, um modelo de mobilização social baseado na pressa inconsistente das redes sociais, o que interfere na capacidade reflexiva e na racionalidade humana, colocando sob pressão as forças democráticas. Esse modelo, baseado em algoritmos e redes de disseminação de mentiras e violência em grande escala, abandonou qualquer parâmetro ético, humano e de conexão com a realidade objetiva.
Um sintoma que expressa essa realidade foi a dissolução dos debates eleitorais proporcionado historicamente pelas emissoras de TV tradicionais, com ênfase na Rede Globo que cancelou o debate com os presidenciáveis que seria exibido pela emissora, no dia 1º de outubro, horas antes de acontecer.
Sobre o tema, a pesquisadora Caroline de Passos já levantou a discussão, em texto de 5 de outubro, destacando a necessidade de repensarmos esse formato em um cenário marcado pela fragmentação da audiência e pela circulação acelerada de conteúdos nas redes sociais. O debate se reduziu a um espetáculo midiático, matéria-prima para os “recortes” postados nas redes sociais.
A TV Globo justificou o cancelamento alegando interferência na liberdade de imprensa, após medidas do Judiciário, sobretudo, a tomada pela ministra Estela Aranha, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), para que fosse retirado do palco do debate o púlpito reservado ao presidente Lula (PT) e a que permitiu a participação do candidato Renan Santos (Missão), proferida por Gilmar Mendes, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). As medidas teriam motivado o candidato Flávio Bolsonaro (PL) a desistir do debate. É importante frisar que a decisão de cancelar o debate é exclusivamente da Globo, que jogou essa “conta” nas costas do Judiciário e da candidatura Lula.
Editoriais apelativos e histéricos
Em editorial publicado na mesma noite, o jornal O Globo destacou que “indicada ao cargo pelo próprio Lula, a ministra Estela Aranha criou um desequilíbrio em favor do candidato petista, em detrimento dos demais postulantes ao Planalto. Depois da decisão, o candidato Flávio Bolsonaro (PL), cuja presença estava confirmada, também anunciou sua desistência”.
Na ânsia de encontrar justificativas que mascarem o esgotamento de sua hegemonia no debate público nacional, agiu sem nenhum pudor em prejuízo da candidatura de Lula e do próprio processo eleitoral, corroborando o discurso de descredibilização das instituições, fazendo coro às forças de extrema-direita que proliferam fake news e atacam incessantemente a democracia.
O editorial da Folha de S. Paulo , também de 1º de outubro, segue em uma linha ainda mais histérica, classificando como censura a decisão da ministra do TSE “para proteger Lula com medidas que maculam a toga e enfraquecem defesas da democracia”.
A ombudsman da Folha de S. Paulo, Alexandra Moraes, traz lucidez à discussão que rotula como inflamada. Em texto publicado no dia 3 de outubro, a jornalista argumenta que “não é de hoje que o jornal parece priorizar o tom inflamado em seus editoriais de destaque, talvez um reflexo da ascensão da linguagem populista e radicalizada”, típica das redes “sociais”.
Alexandra reforça: “Num contexto em que as redes sociais já garantem inflamação permanente e ao alcance de qualquer um, não seria inútil repensar se esse tipo de abordagem é o que melhor atende aos interesses dos assinantes e, principalmente, aos da própria Folha”.
O papel do jornalismo
O texto da ombudsman traz reflexões importantes sobre o papel do jornalismo em momentos decisivos como uma eleição presidencial, questionando se “o drama e a hipérbole” não estariam dando lugar às “explicações e justificativas mais didáticas e sóbrias”, conforme se espera do jornalismo.
Em um contexto de acirramento, a lacração parece operar como um sinal de desespero da perda de hegemonia do jornalismo tradicional. No entanto, esse mesmo jornalismo ainda atua como um agente que participa do debate público e auxilia a população a decidir seu voto.
Acertadamente, Alexandra destaca que “na última década, a hostilidade em relação ao jornalismo também aumentou, e as crises dessa indústria se intensificaram, incluindo as de identidade e de credibilidade”. Portanto, a postura dos jornalões não parece ajudar nem à sobrevivência do jornalismo nem ao processo democrático, quando abre mão da ponderação e opta por discursos que, na prática, são uma defesa apenas do status quo e, neste caso, em sintonia fina com a candidatura da extrema-direita.
A conta do cancelamento do debate caiu nas costas de Lula e o grito da mídia conservadora foi de “atentado à liberdade de imprensa”. Esse discurso, embora não se sustente, foi politicamente eficiente para fomentar as teorias da conspiração e à profusão de fake news que circularam na velocidade da luz pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, dando um impulso final à onda que beneficiou as candidaturas de extrema-direita no 1º turno das eleições. O país está em risco e o jornalismo também.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Clarissa Peixoto é Doutoranda em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS
