Quinta-feira, 25 de junho de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1394

Quando a pauta caminha pelo território

Coletivos Canoa das Artes; PLAC e MacuX em ação na Comunidade Indígena do Campinho. (Foto: AMAZOOM)

A reportagem “Arte que brota da terra: coletivos celebram o Dia dos Povos Originários em Roraima”, publicada pelo Amazoom, nasce de uma experiência que ultrapassa a cobertura pontual de um evento cultural. Ela acompanha uma ação realizada na Comunidade Indígena do Campinho, no município do Cantá, em Roraima, em alusão ao Dia dos Povos Originários, reunindo o coletivo Canoa das Artes; o PLAC – Poéticas e Linguagens Artísticas Contemporâneas; e, o MacuX – Movimento Artístico e Cultural Urbano. Mais do que registrar uma atividade, a reportagem buscou compreender como arte, território, memória, educação e pertencimento se cruzam quando a universidade, os coletivos e a comunidade se encontram fora dos muros institucionais.

A importância dessa pauta está justamente aí: em deslocar o olhar jornalístico para um território vivo, onde os povos originários não aparecem como tema distante, mas como sujeitos de cultura, criação e pensamento. Em Roraima, falar de povos indígenas é falar da própria constituição social, política e simbólica do estado. Por isso, a cobertura procurou evitar o tom comemorativo superficial e construir uma narrativa capaz de mostrar a força das relações produzidas no encontro: a pintura mural, a partilha de alimentos, a presença das crianças, as falas dos artistas, o diálogo entre grafite, espiritualidade, educação e memória comunitária.

A ideia da pauta surgiu da percepção de que aquela ação reunia elementos fundamentais para a formação jornalística dos estudantes: observação de campo, escuta sensível, convivência com fontes diversas e cuidado ético na representação de sujeitos e territórios. A atividade não foi tratada apenas como agenda, mas como uma oportunidade de aprendizagem. Antes da publicação, os estudantes foram provocados a observar não somente “o que aconteceu”, mas como aconteceu, quem estava implicado, que sentidos circulavam naquele espaço e quais imagens poderiam traduzir a experiência sem reduzi-la.

Os bastidores da produção também foram formativos. O deslocamento até a comunidade exigiu organização, escuta e abertura para o imprevisto. O desafio principal foi transformar uma vivência intensa, marcada por sons, cores, gestos, conversas e silêncios, em texto jornalístico. Muitos estudantes perceberam que cobrir uma pauta em território indígena demanda mais do que técnica: exige respeito ao tempo da comunidade, atenção ao contexto e disposição para aprender com aquilo que não cabe imediatamente no bloco de notas.

No processo de edição, a preocupação foi equilibrar informação e sensibilidade narrativa. Mantivemos as perguntas básicas do jornalismo (o quê, quem, quando, onde, como e por quê), mas buscamos uma linguagem capaz de preservar a atmosfera do encontro. A reportagem passou por ajustes de estrutura, seleção de falas, checagem de nomes, organização das imagens e definição de um título que expressasse a ideia central: a arte como algo que não apenas ocupa o território, mas brota dele.

Publicar esse material no Amazoom foi também afirmar o papel do projeto como espaço de experimentação jornalística, extensão universitária e valorização dos saberes amazônicos. Para os estudantes, a pauta mostrou que o jornalismo pode ser uma forma de presença responsável no mundo. Para a universidade, reforçou que aprender com a comunidade é tão importante quanto falar sobre ela. E para o público, a reportagem ofereceu uma janela para uma Roraima plural, onde a arte não é adorno: é memória em movimento, política de existência e gesto coletivo de futuro.

Confira a reportagem

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Vilso Junior Santi é professor do Curso de Jornalismo e coordenador do PPGCOM/UFRR, doutor em Comunicação Social pela PUCRS, com estágios pós-doutorais na Venezuela, no México e na Itália. É pesquisador do Doutorado em Rede em Educação na Amazônia e coordenador do AMAZOOM – Observatório Cultural da Amazônia e do Caribe.