
(Foto: Amar Preciado/Pexels)
Coagida desde os primeiros dias de seu mandato por Donald Trump, será que a América Latina tem reagido à altura? Em julho, o Brasil sediou o BRICS no Rio de Janeiro. A CEPAL (Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe) realizou uma conferência em Santiago com a Noruega. Bogotá recebeu o Grupo de Haia sobre Gaza e Israel. E Santiago sediou uma cúpula sobre o cenário das democracias, com Brasil, Colômbia, Espanha e Uruguai. Na agenda desses vários encontros internacionais organizados na América do Sul, estava a afirmação da necessidade do multilateralismo.
É verdade que, desde que Donald Trump assumiu o cargo de presidente dos Estados Unidos, a palavra imperialismo voltou a fazer parte do cardápio diário de seus “colegas hispânicos”: as deportações de brasileiros, de centro-americanos, de colombianos, de equatorianos, de haitianos e de venezuelanos, ameaças à soberania do Panamá, chantagem alfandegária contra todos, especialmente contra o Brasil, a Colômbia e o México, exigências políticas supostamente éticas dirigidas ao Brasil e a Cuba e mudanças unilaterais de nomes geográficos. Tudo isso aconteceu em apenas seis meses. E ainda faltam três anos e meio para o fim do mandato do norte-americano.
Os eventos diplomáticos de julho de 2025 tiveram por objetivo organizar uma resposta coletiva para pôr um fim à novela do presidente estadunidense. Havia uma dupla finalidade. A primeira era enviar um forte sinal à Casa Branca: os latino-americanos não vão ficar de braços cruzados. Eles vão reagir juntos, com o apoio de países de todo o mundo que também estão preocupados com a regressão imperial dos Estados Unidos. Na cúpula do BRICS no Rio, em 6 e 7 de julho, os onze membros [1] estavam lá, juntamente com os dez associados e vários governos amigos, Chile, México, Turquia e Uruguai, bem como o secretário-geral das Nações Unidas, o chefe da OMC e o presidente do Banco Asiático de Investimento.
Em Santiago, no dia 15 de julho, Asmund Aukrust, ministro das Relações Exteriores da Noruega, país que há muitos anos milita pela paz mundial, expressou solidariedade diplomática e institucional com os países-membros da CEPAL. Também em 15 de julho, um grupo de países se reuniu em Bogotá para reiterar que o direito internacional e os princípios do Tribunal Penal Internacional estão sendo violados por Israel em Gaza. E, finalmente, em 21 de julho, em Santiago, a Espanha se uniu ao Brasil, Chile, Colômbia e Uruguai para dar expressão concreta, no mais alto nível, a um compromisso democrático internacional.
A segunda finalidade desses “fogos multilateralistas” do mês de julho na América do Sul foi transmitir a mensagem de que somente o direito internacional e o diálogo podem resolver disputas e evitar o recurso à guerra e à lei do mais forte. As Declarações adotadas nesses diversos fóruns refletem uma ambição jurídica internacional movida pela urgência. Em 7 de julho, no Rio, os BRICS e seus amigos “reafirmaram seu compromisso multilateralista e sua defesa do direito internacional (…) e o papel central das Nações Unidas”. Em 15 de julho, em Santiago do Chile, a CEPAL recebeu o ministro do Desenvolvimento Internacional da Noruega para apresentar um debate sobre “multilateralismo e reforma: construindo pontes, mantendo o foco e protegendo direitos”.
Em 15 de julho, a Colômbia sediou a primeira conferência ministerial de emergência do Grupo de Haia [2] sobre a crise de Gaza e as responsabilidades internacionais do governo israelense. Doze países, Bolívia, Cuba, Colômbia, Indonésia, Iraque, Líbia, Malásia, Namíbia, Nicarágua, Omã, África do Sul e São Vicente e Granadinas, adotaram uma declaração denunciando “genocídio e violações do direito internacional”. Outros 20 países estavam presentes. Em 21 de julho, em Santiago, o chefe de Estado chileno Gabriel Boric se reuniu com seus colegas – o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, o colombiano Gustavo Petro, o espanhol Pedro Sanchez e o uruguaio Yamandú Orsi. O objetivo dessa cúpula “fechada” em defesa da democracia era “apresentar uma posição compartilhada em favor do multilateralismo, da democracia e da cooperação global baseada na justiça social”. Reuniões de acompanhamento foram anunciadas pelos diversos órgãos consultivos.
A América do Sul fez tudo para defender o multilateralismo em julho de 2025. Ela convenceu seus parceiros africanos, asiáticos e europeus a se juntarem à região na luta pelo Estado de Direito e pelo multilateralismo. Resta saber se isso prevalecerá, apesar dos comentários apressados sobre o surgimento de um “Sul global”, nunca definido [3]. A conclusão que se pode tirar dessas iniciativas é que a participação é à la carte. Alguns dos atores envolvidos nessas reuniões participaram de algumas delas, mas não de outras.
O presidente colombiano organizou a conferência de Bogotá sobre Gaza e Israel em 15 de julho. Ele esteve em Santiago no dia 21 de julho para o diálogo de cinco vias sobre democracia. Mas não viajou para o Rio, onde foi convidado para a cúpula do BRICS. A Venezuela participou da Conferência de Bogotá, mas não foi convidada pelo Brasil para a cúpula do BRICS. A Arábia não quis aparecer na foto dos chefes de Estado que participaram da cúpula do BRICS no Rio, nem na parte dos debates dedicada a questões geopolíticas. Vinte países que participaram da Conferência de Bogotá não assinaram a Declaração Final que descreve as ações militares de Israel como genocídio: Argélia, Bangladesh, Botsuana, Brasil, Chile, China, Djibuti, Egito, Honduras, Irlanda, Líbano, México, Noruega, Paquistão, Palestina, Catar, Espanha, Turquia, Uruguai e Venezuela.
O primeiro-ministro indiano fez, 24 horas antes de participar da cúpula do BRICS, uma visita oficial a Buenos Aires. Embora Javier Milei, que assumiu o cargo em 2023, tenha retirado o pedido de adesão da Argentina ao BRICS apresentado por seu antecessor, ele quer ser um dos grandes aliados dos Estados Unidos e de Israel. A China está mantendo uma distância crítica cautelosa. Ela não assinou a Declaração de Bogotá sobre Gaza. Na cúpula do BRICS no Rio, a China foi representada pela primeira vez não por seu presidente, mas pelo primeiro-ministro. A Indonésia participou da cúpula do BRICS e assinou a declaração de Bogotá sobre Israel e Gaza, ao mesmo tempo em que anunciou um acordo comercial com os Estados Unidos que foi divulgado em 16 de julho. O Brasil esteve presente em todas as frentes. Mas como não ousou desafiar o Tratado de Roma sobre o Tribunal Penal Internacional, não pôde receber no Rio o Presidente Vladimir Putin, seu associado do BRICS, que é alvo de processos no TPI.
A reunião para defender a democracia, organizada em Santiago com cinco chefes de Estado, é insignificante em comparação com a iniciativa semelhante que reuniu quase todos os chefes de Estado sul-americanos em Brasília, em 30 de maio de 2023. Os participantes dessa reunião, Lula, do Brasil, Gabriel Boric, do Chile, Gustavo Petro, da Colômbia, e Pedro Sanchez, da Espanha, com exceção de Yamandú Orsi, do Uruguai, não estavam em seu melhor momento político ou eleitoral. Para obter mais detalhes, consulte as notícias brasileiras, chilenas, colombianas e espanholas sobre esses quatro líderes e suas respectivas maiorias parlamentares, publicadas desde janeiro.
Dito isso, Donald Trump está cada vez mais irritante e provocativo e, portanto, está sendo cada vez mais desafiado. Mas o desafio permanece comedido. O Sul Profundo não existe, assim como não existe um “campo” improvável organizado para desafiar os Estados Unidos. Ainda mais porque a Europa continua unida por um sentimento de mágoa e rancor em relação aos Estados Unidos, e não por um desejo de virar o jogo. Não deixa de ser verdade que o mal-estar aumenta, assim como o descontentamento. Por enquanto, ele se expressa de forma pontual, e com muitas contradições. Mas Donald Trump deveria saber que o blefe no setor imobiliário, assim como nos cassinos, tem seu tempo. Muitos dos que estão observando e olhando uns para os outros estão apenas esperando por um passo em falso para iniciar ações de retaliação.
Texto publicado originalmente em francês, no dia 17 de julho de 2025, na seção ‘Actualités’ do Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original “Rio, Santiago, Bogotá, Santiago, feux d’artifice multilatéralistes en Amérique du Sud”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/128675 Tradução de Jeniffer Aparecida Pereira da Silva e Andrei Cézar Silva.
[1] Membros: Arábia, Brasil, China, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Rússia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos. Associados: Belarus, Bolívia, Cuba, Cazaquistão, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda, Uzbequistão, Vietnã.
[2] Grupo criado pela África do Sul e Colômbia em 31 de janeiro de 2025.
[3] Consulte Jean Jacques Kourliandsky, “Sul global” e as designações que nos desafiam em uma geopolítica líquida, Edição 1342, de 12 de junho de 2025, publicado no site do Observatório da Imprensa. Disponível em: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/internacional/sul-global-e-as-designacoes-que-nos-desafiam-em-uma-geopolitica-liquida/
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Jean-Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
