Sexta-feira, 21 de agosto de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1402

As eleições e os inimigos da comunicação pública

(Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil)

A campanha eleitoral 2026 iniciada no domingo (16) abre a temporada de caça-votos no vasto território de quase 160 milhões de eleitores. Com um pouco de esperança, em alguns momentos teremos oportuno debate qualificado sobre problemas socioeconômicos, diagnósticos e propostas.

Pode ser útil, para toda sociedade, e em especial para os que estão na órbita da comunicação pública, identificar os atores e mecanismos que acabam por bloquear a informação pública, fonte primária para exercer a cidadania. É hora de deixar claro quem são os nossos notórios inimigos públicos.

No primeiro grupo, estão os emissores, gestores e autoridades da administração pública que continuam a orientar a comunicação governamental pela lógica do poder autopromocional e não pelo “valor público”, um conceito que remete ao benefício que o Estado gera para a sociedade, garantindo e ampliando direitos, assegurando confiança e bem-estar. Em outros termos, abandonar o autoelogio e seguir um padrão orientado para, além do dever da transparência, captar e tratar de forma pertinente reclamações, demandas e anseios dos cidadãos.

O modelo “informações para a cidadania” é sensível às pautas da população, portanto, com escuta ativa e olhar acurado a respeito da percepção da “qualidade” fornecida pelo Estado e dos impactos na melhoria das condições de vida da sociedade. Num país profundamente desigual, significa atenção redobrada em relação aos mais vulneráveis, aos que mais precisam da cobertura do Estado.

Outro inimigo é a desinformação. Dois personagens, adversários do interesse público, atuam com desenvoltura nesta seara. O primeiro ator é o próprio Estado: a informação não chega, não é compreendida, ou alcança tardiamente o público. Veja o caso de quase 100 milhões de usuários da Previdência Social, sendo 34 milhões na categoria de aposentados, infelizmente, engolidos por empréstimos fraudulentos e com vistas grossas do Instituto Nacional de Seguridade Social (INSS).

O Estado possuía dados, teve acesso a reclamações, processos administrativos, alertas, auditorias, mas nada foi feito quando os cidadãos indagavam: “por que estão descontando dinheiro no meu benefício sem minha autorização”? O Estado abriu espaço para a fraude que foi impulsionada também pela ausência de informação pública preventiva e de escuta efetiva.

No campo da informação falsa e da manipulação, outro obstáculo para a comunicação pública são as plataformas globais cuja lógica permite consciente descontrole sobre conteúdos fabricados com intenção de enganar e com capacidade de serem disseminados em massa e com velocidade inédita de propagação.

Não existe nenhum direito fundamental que assegura o poder de causar danos. A liberdade de expressão protege o amplo direito de expressar ideias, opiniões e até cometer equívocos – mas não cria passe livre para produzir dano ilícito, manipular a esfera pública por meio de inverdades, ou utilizar a arquitetura algorítmica para maximizar a circulação de conteúdos que ameaçam direitos indispensáveis à cidadania.

O Supremo Tribunal Federal entende que a liberdade individual não assegura o direito à impunidade pelo dano causado e amplificado pelos algoritmos. Não se trata de selecionar o que os cidadãos podem ou não ter acesso informativo, mas de impedir que qualquer pessoa, grupo, meio ou plataforma transforme a liberdade de expressão em instrumento para ameaçar a vida, a segurança, em suma, usar a liberdade para a própria destruição da esfera pública.

O terceiro inimigo, bem identificado pelos pesquisadores Antônio Lassance e Jorge Duarte, é o fato de a comunicação pública ser tratada como “departamento de divulgação”, e não como parte estratégica da gestão pública.

Apesar da descrição óbvia, trata-se de um obstáculo profundo e complexo porque, muitas vezes, um problema de comunicação é, na realidade, problema de gestão, de processo, de regras, ou de falta de aprimoramento da política pública.

Se um órgão público oferecer um serviço ruim, um atendimento deficiente, pouco vai adiantar o esmero de uma campanha com o objetivo de explicar melhor. O problema não é a comunicação, é o próprio serviço. Quando a comunicação participa da própria formulação das políticas e estratégicas públicas – em vez de empacotar releases, posts e vídeos – ela deixa de ser uma atividade submissa ao poder narcísico, perde o papel meramente acessório de divulgação e se transforma em componente da própria gestão pública: escuta demandas, detecta conflitos, gera compreensão, aproxima Estado e Sociedade e ajuda a orientar decisões capazes de gerar valor público.

O quarto inimigo da informação de interesse público é terceirizar toda a comunicação para plataformas digitais, tema já abordado aqui no Observatório da Imprensa.  As barreiras de acesso aos serviços digitais e as dificuldades dos grupos sociais mais próximos da exclusão digital têm sido, recentemente, preocupação dos órgãos de controle. A responsabilidade de comunicação deve contar com infraestrutura pública como os canais gov.br. Mas considerar que “já comuniquei” porque está tudo lá no gov.br é um equívoco com sérios prejuízos no atendimento aos cidadãos.

O quinto inimigo da comunicação pública é a descontinuidade. Mudam governos, gestores, prioridades e equipes, e frequentemente interrompem-se processos, canais, projetos e estratégias que deveriam transcender os ciclos políticos. A descontinuidade talvez seja uma das formas mais silenciosas de ineficiência da comunicação pública. Cada troca de governo pode significar a perda de memória, de processos, de canais de diálogo e de conhecimento acumulado.

O cidadão, como todos bem sabem, não muda de governo a cada mandato: continua demandando informação, serviços, respostas e prestação de contas. Quando cada gestão reinicia a comunicação a partir do zero, abandona base de dados, rompe processos de escuta, substitui canais e recomeça campanhas sem preservar a memória institucional, perde-se eficiência e a população fica desorientada. A continuidade significa assegurar que o Estado mantenha sua capacidade de informar, ouvir, dialogar e prestar contas de forma transparente e clara, independentemente de quem esteja temporariamente ocupando o governo.

A política tem o papel de transformar agendas. É legítimo. Mas há que se ter cuidado com a descontinuidade quando o gestor converte a área de comunicação em mero instrumento de mandato ou promoção da autoridade, faz cortes de projetos de interesse público, reduz equipes e não dá prosseguimento a políticas públicas essenciais.

As eleições que se aproximam podem abrir uma oportunidade que não deveria ser desperdiçada. Mais do que discutir slogans, redes sociais ou estratégias de posicionamento, candidatos e partidos poderiam colocar na agenda uma questão estrutural: que comunicação pública o Brasil precisa para informar melhor, ouvir melhor e prestar melhores serviços aos cidadãos?

A transformação do País – promessa de todos – não passa apenas por crescimento econômico, programas sociais, modernização de setores ou aumento da presença digital do Estado, mas por reconhecer a comunicação como parte da própria gestão pública — estratégica, permanente, integrada às políticas e orientada ao interesse público.

Embora a comunicação tenha presença central nas campanhas e seja valorizada por governantes e políticos, sobretudo nos momentos em que é necessário disputar atenção, a comunicação pública ainda não ocupa, de forma sistemática, o lugar que deveria na agenda da administração pública. A cada eleição, ou mesmo simples troca de ministros no primeiro escalão do Judiciário, se renovam mandatos, agendas e prioridades. É urgente que se abra espaço também para o compromisso com uma comunicação pública capaz de sobreviver aos ciclos políticos, amparar políticas públicas, apoiar os serviços básicos, ampliar a participação social e produzir valor público.

Talvez esteja aí uma das agendas eleitorais mais importantes — e menos exploradas: transformar a comunicação pública em infraestrutura permanente na relação entre Estado e sociedade.

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Armando Medeiros de Faria, vice-presidente da Associação Brasileira de Comunicação Pública, ex-diretor de comunicação e marketing do Banco do Brasil, professor da pós-graduação da PUC-MG. Coordenador do Projeto Legado de Brumadinho e diretor da LCM Conexão Pública.