Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

1461 dias na trincheira

(Imagem: Reprodução)

29 de outubro de 2018. Redação lotada. Quarto andar do edifício da Folha de S. Paulo, centro de São Paulo. É preciso correr. Aliás, sempre. O presidente eleito da República Federativa do Brasil, Jair Messias Bolsonaro, 63 anos, em entrevista ao Jornal Nacional da TV Globo, declara: A Folha está acabada.

É sobre esta campanha declarada do presidente ao jornal, a cobertura política do Folha, o dia a dia da redação, aventuras, percalços, tensões e decisões, pandemia da Covid-19, eleições, que o jornalista Eduardo Scolese narra a história recente do país, de um jornal e a sua própria história do ingresso no jornal, em 1998, até a editoria de política, onde permanece.

Entre uma braçada e outra na piscina, muitas mensagens no WhatsApp, deadlines apertados, lances de escada, escritório improvisado em casa na pandemia, outros livros publicados, tantas funções exercidas desde que entrou no jornal que Scolese escreve 1461 dias na trincheira: o dia a dia sob Bolsonaro no relato do editor de política da Folha de S.Paulo.

Livro-reportagem que conta a história de um tempo, vivências, experiências, memórias, categoria de não-ficção, lançamento no catálogo da Autêntica. Editora que surgiu em 1997 e, em 2011, se tornou o Grupo Autêntica com diversos selos, sendo o Autêntica o voltado para a área de ciências humanas. A coordenação editorial do livro é de Rejane Dias e a capa de Diogo Droschi.

Scolese revisitou reportagens do jornal e de outros veículos (nas referências), releu uma infinidade de mensagens trocadas (algumas aparecem no livro), entrevistou colegas e o resultado é uma história pessoal que se confunde com a história do jornal, da redação e dos jornalistas da Folha. O livro é, portanto, um testemunho e um memorial de 1461 dias de trabalho.

Retrato para o futuro que permite conhecer como funciona a redação do jornal, rotinas e bastidores, qual o papel de cada jornalista, os jargões empregados, trocas de mensagens, as tensões vividas, almoços na redação, o papel do editor, que é gestor e líder, e, neste percurso, a experiência de um jornal que não só teve que enfrentar ataques e ameaças do presidente, mas também reinventar a cobertura política.

Um jornal que, ele conta, traçou seu propósito de forma muita clara desde 1985, quando surge o Projeto Folha: praticar um jornalismo crítico, apartidário, moderno e pluralista. Numa missão de “levar quanto antes ao nosso leitor a melhor informação possível”, com muito suor e muitos perrengues para formar a “casca de um jornalista”.

Está ali, diante de nós leitores, o comando do jornal, a hierarquia e as editorias, toda a estrutura e ação dos jornalistas. E Scolese é aquele que foi repórter e depois o editor que tantas vezes suou frio, com o celular sempre ligado, o olho sempre nas mensagens, que aproveita o tempo no metrô para ler os jornais do dia.

É também aquele que aparece entre corredores, salas, ramais, com o caderno de anotações e a caneta. Tudo diante de um cenário político incomum e um tanto adverso.

O que acontecia, ele conta, é que as principais notícias do governo saiam nas redes sociais do presidente e a qualquer momento. A reação da imprensa tinha que ser rápida. Era preciso ler, interpretar, escrever, transmitir o texto e publicar logo. A redação vivia sob estresse constante de um presidente imprevisível. Além disso, todos os dias havia uma crise. Mais de uma era o normal.

Havia também o dilema: reproduzir apenas a fala do presidente era atender à sua máquina de propaganda, virar coro, eco. O papel do jornalismo virou filtrar declarações e explicar contextos e contrapontos (e permanece assim).

A cobertura do governo ele divide em três tempos: até a pandemia; durante a pandemia; e período pré-eleitoral e eleitoral de 2022. Cada uma com os seus contratempos e nuances.

A redação, para Scolese, é a escola. Muitas vezes cruel, que cobra um preço (alto) físico e mental, com pressões diárias de fora para dentro, de dentro para fora de um jornal que sobrevive entre turbulências. Tudo é muito agitado. Momentos dramáticos aparecem com a morte de Otávio Frias e, posteriormente, com a destituição de Maria Cristina. Conhecemos uma redação e o trabalho difícil em home office na pandemia.

O jornalista narra também os inúmeros casos de ataques do presidente a jornalistas, ofensas de apoiadores, sobretudo, às mulheres, jornalistas como Patrícia Campos Mello, que virou alvo de ataques a ela e à sua família, xingamentos, perseguições. Um cenário incrédulo em que a reportagem se depara com uma enxurrada de desinformação nas redes.

Todos os assuntos estão presentes: está no livro a formação do consórcio entre veículos de comunicação para divulgar dados da Covid-19, face ao apagão propositado de dados pelo governo Bolsonaro; os “passaralhos” (demissões coletivas), o trabalho, o sindicato, paralisações e as questões salariais.

A triste realidade das ameaças e hostilidades aos pesquisadores do Datafolha nas ruas. Lamentável. Um capítulo de eleições marcadas pela violência. Todo o processo de atuação do Datafolha e da redação é explicado: conhecimento público necessário. Terminamos com a tensão da cobertura das eleições e tudo dando certo. Suspiramos aliviados.

O livro também é o Manual de Redação da Folha na prática, pois a experiência também ensina. Um livro para o leitor entender como funciona o jornalismo, um livro para conhecer um presente recente e inacreditável, um novo normal. Um livro que mostra como o jornalista trabalha, um trabalho duro, preciso, coletivo, importante, necessário e extremamente profissional.

Um livro que conta a história do Brasil recente e que se descortina sobre os nossos olhos. Acostumados que somos a ler sobre uma história que não vivemos, somos impactados ao nos depararmos com a história que nós mesmos vivemos contada na experiência de 1461 dias.

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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Autor de diversos artigos e livros, disponíveis no seu site pessoal gustavosobral.com.br.