
(Foto: Markus Winkler/Pexels)
O que é o jornalismo na atualidade? O jornalismo se reconfigurou ou está em processo de profunda mutação? Ou ainda há indícios daquilo que um dia conhecemos como jornalismo? As perguntas se acumulam e o consenso provisório é o da incerteza sobre os novos desenhos em torno da profissão, desta quase bissecular forma social de conhecimento e de campo científico de estudo.
A busca por constituir um quadro do que seja o jornalismo na atualidade tem mobilizado profissionais e pesquisadores, em escala internacional, impulsionados pelas mudanças não apenas de ordem tecnológica experimentadas, a partir dos anos 2000, com a popularização da internet. Reflete também as novas formas de apropriação do conhecimento e a onda de relativismos que questiona sem respaldo inteligível o próprio conhecimento e a ciência. Movimentos como o “antivax” e o “terraplanista” surgem nesse vácuo da relativização da verdade, sob impacto da indústria das fake news liderada pelas “big techs”. Hoje, tais organizações constituem megacorporações de comunicação e dados, com audiência planetária na escala dos bilhões de “usuários”, faturando anualmente trilhões de dólares.
A impermanência e o ambiente de contínua transformação é o consenso em torno das perguntas sobre o fazer e o pensar jornalístico. Mark Deuze e Tamara Witschge, no artigo “O que o jornalismo está se tornando” (1), apontam para um contexto de precariedade e fragmentação da “experiência vivida” por jornalistas profissionais acentuada nas relações em rede e descentralizadas. Afirmam que o jornalismo, enquanto profissão com funções sociais, parece seguir um caminho de superação aos modelos organizacionais clássicos, entrando de corpo e alma no que os estudiosos da sociologia do trabalho chamam de “indústria 4.0”, cuja base social é o precariado – uma derivação do que foi a classe trabalhadora no passado.
Para Deuze e Tamara, o jornalismo na era da pós-industrialização tende a migrar dos “modos de produção industriais, centralizados e hierárquicos”, para estruturas de produção em rede onde ganham proeminência “o freelancer, o empreendedorismo e a precarização do trabalho”. Com isso em vista, defendem “repensar o jornalismo como um conjunto de pessoas comprometidas com ‘atos de jornalismo’”. Ou, dentro de uma perspectiva que chamam de “praxeológica”.
Steen Steensen e Laura Ahva, no artigo “Theories of Journalism in a Digital Age” (2), afirmam que, enquanto prática profissional, na era digital, o jornalismo situa-se em um contexto de indefinição de limites e de perda de autonomia, corroborando com que foi dito até aqui. Ao mesmo tempo, sugerem que os estudos em jornalismo se consolidaram, marcados pela interdisciplinaridade, mas reivindicando autonomia teórica e metodológica, conformando um campo de conhecimento cujo objeto tem características específicas.
Os autores destacam ainda que “aspectos relacionados às perspectivas filosóficas estão se tornando cada vez mais importantes para os estudos de jornalismo”, embora “analisados em uma estrutura de orientação sociológica, como o profissionalismo”. O dado indica um esforço crescente para dar respostas, embora ainda limitadas, sobre o que podemos entender enquanto jornalismo na era digital: uma prática fragmentada que precariza-se, no mesmo passo das crescentes esforços de pesquisa científica de rearticulá-la por meio da construção de teorias e do estudo sistemático.
As fronteiras que pretendiam uma definição sobre o que é jornalismo se ofuscam com a complexidade de elementos. Porque, a priori, estamos lidando com uma prática profissional que prescinde de um estatuto, de uma ética e até mesmo de uma identidade próprias que orientem uma ação consciente em seu fazer. Também, porque reivindica autonomia, enquanto campo teórico, desenvolvendo conceitos e métodos para refletir sobre a forma como o jornalismo se inscreve na atualidade e produz conhecimento – de forma distinta da ciência, da arte, da filosofia e da religião, para ficar em alguns exemplos relevantes.
Desafios de produzir conhecimento na era dos relativismos
A contestação da ciência, de consensos sociais estabelecidos nos termos da ideia de democracia ou mesmo a radicalização contra a estruturas hegemônicas de poder sem fundamento inteligível é a onda do momento. O questionamento e a contestação deixaram de transitar no campo das ideias dando lugar para o relativismo exacerbado: a “terra é plana”, a “Covid-19 é uma gripezinha”, “o que eu não concordo, não existe”.
Esse quadro se inscreve no que o jornalista e cientista político Luís Felipe Miguel (3), da Universidade de Brasília (UnB), define como “um conjunto de fenômenos que emergiram para a consciência pública no início do século XXI concomitantemente à disseminação da internet e, em particular, das mídias sociais: a ampliação da desconfiança nas fontes até então julgadas legítimas de saber (como a ciência, a escola e também o jornalismo) e disseminação de um relativismo radical, levando à crença de que não há possibilidade de estabelecer com segurança qualquer fato e à equalização de todos os discursos como ‘opiniões” de valor simétrico’”. Para o autor, vivemos “um mal-estar informacional”.
Na mesma ordem de ideia, o saudoso teórico do jornalismo Nilson Lage (4) denomina como “relativista e autoritária” a dominação discursiva contemporânea que rejeita o fato porque “opera com outro conceito de verdade”, mecanicista e alheio a produção crítica do conhecimento. E, por isso, o desafio do jornalismo não é simples. Passa por uma reconfiguração de sua própria práxis, em relação a um mundo em transformações tecnológicas, mas também de mudanças de orientação social e política, enfrentando um ambiente agressivo para o conhecimento, para a pesquisa e para a defesa de direitos, elementos fundamentais para o jornalismo. Em última análise, trata-se de uma ampla repactuação do Jornalismo (instituição) com seus públicos – leitores e leitoras, assinantes, audiência virtual, anunciantes, proprietários, stakeholders etc. –, que tenha como foco ressignificar sua relevância social.
Lage propõe algo entre instigante e inteligente frente a ignorância de nosso tempo, num Posfácio escrito para um livro da Rede de Estudos Trabalho e Identidade no Jornalismo (RETIJ), vinculada à Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor): “[Nós, jornalistas] armados de ceticismo, teremos que reconhecer os limites de nosso poder como fiscais ou ditadores da verdade; será melhor nos reservar a condição de intérpretes, observadores e críticos vulneráveis, com poucas certezas; e, como os malabaristas, artistas de teatro e professores primários, assumir a condição de servidores público, entre os estafetas e os faxineiros de ideias”.
Referências
(1) DEUZE, Mark; WITSCHGE, Tamara. O que o jornalismo está se tornando? Parágrafo, v. 4, n. 2, jul/ dez, 2016. p. 7-21.
(2) STEENSEN, Steen; AHVA, Laura. Theories of Journalism in a Digital Age. Journalism Practice, 9:1, 1-18, DOI: 10.1080/17512786.2014.928454, 2015.
(3) MIGUEL, Luis Felipe. O jornalismo no novo ambiente comunicacional: uma reavaliação da noção do “jornalismo como sistema perito”. Tempo Social, [S. l.], v. 34, n. 2, p. 195-216, 2022. DOI: 10.11606/0103-2070.ts.2022.195368. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/ts/article/view/195368. Acesso em: 27 jul. 2023.
(4) LAGE, Nilson. No grau zero de um mundo futurista ou de um passado tenebroso. In PEREIRA, Fábio Henrique.; ROCHA, Paula Melani; GROHMANN, Rafael; LIMA, Samuel P. Novos olhares sobre o trabalho no jornalismo brasileiro. Florianópolis: Insular, 2020.
Publicado originalmente em objETHOS.
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Clarissa Peixoto é Doutoranda e mestra em Jornalismo pelo PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS
Samuel Pantoja Lima é Professor e pesquisador do Departamento de Jornalismo da UFSC e do objETHOS
