
(Foto: Divulgação)
Ainda é preciso chegar à conclusão de que o jornalismo pode ser algo pessoal e prazeroso.
Uma prova disso é “Reporting Always: writings from the New Yorker”, da jornalista norte-americana Lillian Ross (1918-2017), publicado no Brasil pela editora Carambaia, em 2024, com tradução de Jayme da Costa Pinto e posfácio do jornalista e editor Paulo Roberto Pires.
Muito já se disse sobre Lillian Ross e, em resumo, que ela construiu uma reputação como jornalista eficaz, incomum, despretensiosa, controversa, versátil e incisiva. Uma jornalista pré-New Journalism, pois ela veio antes, e que seguiu por sete décadas como jornalista da New Yorker.
É certo que ela teve a sorte de desfrutar de circunstâncias privilegiadas, pois não precisou passar pelas interferências dos relações públicas, exigências ou acordos. Lillian Ross tinha uma espécie de licença para reportar.
Ross entrou para a New Yorker por acaso, recomendada e a contragosto de Harold Ross, que preferia homens às mulheres na redação. E foi cair na afamada seção da revista Talk of the Town. Era a Segunda Guerra Mundial e os homens estavam na Europa. Restou a ele se contentar com Lillian Ross.
Estar naquela seção lhe permitiu escrever sobre diversos assuntos e foi ali que ela construiu o seu próprio jeito de reportar: estar presente, tomar notas, observar e, por fim, registrar a partir do que via, ouvia e conseguia sentir. Para isso, se valeu de cenas, diálogos e tomou do romance a ideia de ritmo.
Ela adorava cinema e passou a escrever as suas reportagens em pequenas cenas, como um filme, mostrando tudo de fora e com muita conversa. E com começo, meio e fim. “Eu gostava de mostrar tudo usando diálogo e ação, sem intrusões autorais e sem presunções sobre o que estava acontecendo”.
E começaram a aparecer os resultados. Cobrir e escrever sobre o concurso de Miss Nova York foi um tour de force com seus editores quando mostrou o racismo que ali havia:
“Há treze milhões de mulheres nos Estados Unidos entre as idades de dezoito e vinte e oito anos. Todas elas eram elegíveis para competir pelo título de Miss América no concurso anual realizado em Atlantic City no mês passado, se fossem formadas no ensino médio, não fossem e nunca tivessem sido casadas, e não fossem negras.”
E depois veio Hemingway. Um dos trabalhos mais marcantes e conhecidos de Ross. Na época, gerou polêmica por considerarem um retrato nada abonador e o resultado foi uma amizade absoluta entre os dois com uma longa e perene troca de cartas por toda vida.
Aqui, outro aspecto importante do jornalismo de Ross: a amizade. Longe do repórter que incomoda, ela disse que nunca desejaria ir onde não era bem-vinda. A sua procura era pela “natureza especial de cada ser humano”.
Outro sucesso de reportagem de Ross foi “Picture”. Ela escreveu uma reportagem sobre a produção de um filme em forma de romance que foi publicada em seis partes na revista. Depois reunidas em livro que saiu em 1952.
Ross chegou para o seu editor e simplesmente propôs: “Não sei se algo assim já foi feito antes, mas não vejo por que não tentar fazer uma reportagem factual em formato de romance, ou talvez um romance em formato de reportagem factual”.
Lillian Ross foi a jornalista com blocos de notas, que atuava fora do escritório, longe do telefone e anotando tudo o que ouvia e via. Aquela garota, como escreveu o crítico Edmund Wilson, tinha um gravador embutido.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
