
(Imagem: Divulgação)
O jornalista Ruy Castro é não só autor de biografias consagradas, mas também de um modo de fazer biografia. Jornalista que transformou Carmen Miranda, Nelson Rodrigues e Garrincha em personagens biografados, agora se volta para si mesmo, ou melhor, para o seu ofício.
Trata-se de A vida por escrito: ciência e arte da biografia (Companhia das Letras, 2022, 184p), um relato sobre a própria experiência de biografar.
Biografia para Castro é antes de tudo uma relação viva entre quem escreve e sobre quem se escreve. Em quatro capítulos (A escolha do biografado, A apuração das informações, A escrita da biografia e A edição do livro) ele revela, passo a passo, o que aprendeu na prática.
A clareza é essencial e a lição se aprende no ofício. A biografia é ciência e arte. Ciência porque tem método, apuração, rigor; e arte, porque depende de sensibilidade, de estilo, de olhar.
A biografia começa pela eleição do personagem que, de preferência, deve estar morto. A ausência física é uma das garantias da liberdade intelectual, como também a independência. Biografias autorizadas ou encomendadas roubam a isenção do biógrafo, ele diz.
Eleito o biografado, vem a apuração. Processo que ocupa setenta por cento do trabalho. A apuração é o tempo da escuta, da paciência e da dúvida. “O essencial é apurar”, repete ele, com o tom de quem aprendeu isso nas redações e entrevistas longas que fez para Seleções e Playboy.
O biógrafo é repórter. Um repórter do tempo. Investiga o passado, recolhe vozes, rastreia rastros, refaz percursos. O arquivo que constrói é a matéria-prima do livro. A entrevista, o instrumento de ofício. E as perguntas, o motor da narrativa.
Castro enumera truques e armadilhas com a sabedoria de quem tropeçou em todas e as venceu. O biógrafo precisa ser desconfiado, insistente e, sobretudo, curioso. Quando passa à escrita, é a vez do estilo. O biógrafo, adverte, não deve inventar nada, mas saber narrar para prender o leitor ao texto e não ao rodapé. Ele conta que prefere seguir a linha cronológica, o fio linear, e abrir o livro com uma cena de ação.
Biografia, recomenda, é ritmo, concisão, clareza e charme. E humor, porque a vida, afinal, é feita de ironia.
O estilo biográfico, ensina, deve evitar os anacronismos e aproximar-se da linguagem do biografado: Nelson Rodrigues jamais diria que sua peça Vestido de noiva “bombou”. Também deve valer-se do estilo jornalístico e seguir a técnica do Lead, respondendo às perguntas básicas: o que, quando, onde, como, quando e por quê. A escrita biográfica, no fim, é uma tradução. É traduzir uma vida em formato de livro.
O biografo deve ter em mente que há limites. Castro condena biografias extensas, sobretudo, por serem projetos editoriais custosos, que as editoras podem não se interessar em financiar, levando em conta os aspectos editoriais e comerciais da biografia e o leitor que pode pensar duas vezes em enfrentar livros volumosos.
E não esquece uma etapa importante: o processo editorial. Aqui, trata de prazos, lançamentos, fotos, legendas, remuneração, editoras. Mostra que biografar é também lidar com o mercado, sem perder a ética. E conclui com uma lição: “cada biografia aperfeiçoa o biógrafo”.
A vida por escrito é, portanto, um livro sobre a vida e sobre escrever sobre vidas. Castro reflete sobre o próprio percurso e sobre um gênero que ajudou a construir e oferece ao leitor um autorretrato em movimento: o biógrafo visto por ele mesmo em pleno exercício da sua arte.
O livro é também uma defesa da biografia como forma de conhecimento. Porque, como sugere Castro, é preciso entender uma vida no tempo em que ela se fez. Biografar não deixa também de ser uma forma de pensar o mundo e, por que não, de apresentá-lo ao leitor.
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Gustavo Sobral é jornalista, mestre em Estudos da Mídia (UFRN). É também bacharel em Direito e, atualmente, graduando do curso de História (UFRN). Seus artigos e livros gratuitos para download estão disponíveis no site: www.gustavosobral.com.br.
