Sábado, 31 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1373

A presença do repórter e as coberturas de guerra ao vivo

(Foto: Roman Ska/Pexels)

Eu lembro que comecei a acompanhar as coberturas de guerra quando era ainda adolescente. Era Guerra do Golfo. 1991. Eu tinha 15 anos e trabalhava nas férias do ensino médio como atendente na loja de roupas infantis, da minha tia, onde outra tia era gerente. Tinha uma televisão portátil, bem pequena. E as emissoras começaram a transmitir pela primeira vez conflitos internacionais ao vivo. Havia a CNN transmitindo a guerra direto do fronte e abastecendo os canais mundo afora. Inclusive para Brasil. Hoje eu sei que foi o boom da CNN, que já existia há 10 anos, mas que saiu na frente e lançou tendência com canal 24h no ar, produzindo notícias internacionais. E, desta vez, ao vivo na guerra.

Eu anotava na minha agenda, que também era um hábito das adolescentes nos anos 90. Ter agenda do ano, de preferência da company pra quem podia pagar ou pra quem atormentava os pais de classe trabalhadora pra ganhar no natal. A gente colava embalagem dos chocolates que comia, os ingressos dos shows e cinemas que ia e o que mais pudesse registrar as experiências do ano. Até a agenda ficar bem gorda, cheia de pequenos papeis e muita coisa escrita. Além de tudo isso, eu anotava a cobertura de guerra que eu via na televisão portátil da loja quando não estava atendendo e vendendo biquini e sunga infantil. Eu anotava os minutos e relacionava aos bombardeios. Era como a cobertura contava a guerra. Mais ou menos assim, com o que lembro das anotações porque não guardei as agendas.

Não sabia que no futuro eu faria um doutorado sobre cobertura de guerra e que a relação da autoria com os trabalhos acadêmicos também se transformaria e incluiria um diálogo maior com a subjetividade. Eu escrevia: 9h35, os Estados Unidos realizam um ataque ao Kuwait, com mísseis Tomahawk e Patriot. O Iraque bombardeou com mísseis Scud a tal hora. Lembrei das imagens com luzes verdes cruzando o céu, que era o que dava pra ver dos bombardeios nas câmeras e nas imagens recebidas do exército americano também. Depois o conflito ficou conhecido como a “guerra video-game” porque as imagens pareciam com um jogo de video-game antigo.

Além das imagens verdes, o que chamava a atenção na Guerra do Golfo, de 1991, era a cobertura permanente, no canal de notícias 24h, e a presença dos repórteres no Kuwait e no Iraque. Jornalistas como Bernard Shaw e, na minha memória, principalmente Peter Arnett, deram a cara da cobertura ocidental dessa guerra. Os jornalistas já haviam acompanhado os soldados nos jipes da Guerra do Vietnã, nos anos de 1970, e contado as histórias em jornais, revistas, no rádio e também, pela primeira vez, na televisão, mas ainda não era ao vivo naquela época. Em 91 não havia sido criada e discutida a expressão “embeded”, que foi um tema da Guerra do Iraque, ocorrida no Oriente Médio, em 2003, depois ainda do conflito no Golfo. Na guerra de 1991, as imagens eram os bombardeios esverdeados e as entradas ao vivo dos repórteres de Bagdá, no Iraque, e do Kuwait, principalmente nos hotéis. O hotel utilizado pelos jornalistas estrangeiros, incluindo a CNN, foi o Al Rasheed, que foi construído nos anos 80, e depois foi bombardeado na Guerra do Iraque de 2003. O hotel ícone da guerra de 2003 foi o Palestine. Mas isso é um outro tema que merece um texto próprio.

Naquela nova onda da tecnologia da cobertura de guerra, em 1991, na primeira de cobertura ao vivo, a novidade era a transmissão por satélite. Então eram muitas entradas em direto, com áudio e ilustrações, combinando imagens dos jornalistas no Iraque, onde eles estavam estabelecidos, em geral no hotel, e depois no Kuwait. Anotando os bombardeiros na minha agenda da company, lembro de ver o Peter Arnett no quarto e no saguão do hotel e o espanto era mais com a presença deles, o que eles estavam passando enquanto contavam da guerra do que outra narrativa que mostrasse o conflito ou as consequências para a população local. Acho que isso primeiro me impressionou, como adolescente que acompanhou diariamente o conflito, mas depois passou a me intrigar como jornalista e pesquisadora. E passei a me perguntar sobre a presença do jornalista na cobertura. Quais as possibilidades dessa presença para contar melhor as histórias da guerra e quais os usos dessa presença para construir o espetáculo da guerra e da cobertura. Essas perguntas só ganharam complexidade nas guerras seguintes com o desenvolvimento da tecnologia e com as decisões dos exércitos e emissoras em relação ao acesso e às camadas de verificação e censura que foram sendo instaladas até que as notícias e as histórias chegassem ao público. Quanto mais era possível transmitir ao vivo, mais eu perguntava sobre as condições, sobre que era reportado e sobre o papel dos e das jornalistas nessa história toda.

Na Guerra do Golfo de 91, havia também imagens fornecidas pelo exército norte-americano. Toda essa combinação que depois se desenvolveria ainda mais em relação à tecnologia na guerra seguinte, em 2003, com imagens ao vivo do Iraque, desde a declaração de guerra, feita pelo então presidente dos Estados Unidos, George Bush Filho, e transmitida ao vivo para o mundo pela televisão. Ao mesmo tempo, as emissoras se instalaram em Bagdá esperando que a guerra começasse e a primeira bomba caísse. Nessa ocasião, em 2003, em já entrava no Doutorado e analisava a cobertura brasileira desse conflito, sem a minha agenda de adolescente, mas pensando em como essa cobertura atualizava certos procedimentos, recorria em outros e permanecia desafiando a capacidade do jornalismo e dos jornalistas de lidar com a guerra e com o poder.

Lembro de ver na TV, antes do início do bombardeio, a imagem noturna de Bagdá iluminada pela rede pública de energia. Uma cidade silenciosa, com edifícios ainda intactos e construída às margens do rio Tigre. Na época, isso me levava a pensar no ineditismo que era ter imagens de uma cidade organizada numa transmissão de guerra e não (ainda) uma cenas de escombros, que são as imagens que habitam o ocidente a respeito de cidades no Oriente Médio. É importante lembrar também que na guerra de 2003, a CNN já não era a protagonista, embora ainda fosse importante na cobertura, e a que foi a RTP portuguesa a primeira emissora a transmitir o início do conflito in loco, com a presença e a narração do jornalista Carlos Fino. Daí em diante, as histórias da guerra são produzidas a partir de várias dinâmicas, que incluem mais veículos, também brasileiros. No Iraque de 2003 esteve presente em Bagdá desde o primeiro momento o jornal Folha de S.Paulo, que produziu notícias e capas das edições impressas do veículo durante semanas, com o repórter Sérgio D’ávila e o fotógrafo Juca Varella.

A cobertura da Folha, que é um dos temas do debate da minha tese, defendida em 2007, me levou a discutir as possibilidades de uma cobertura própria do jornalismo brasileiro, posicionado na periferia do capitalismo, presente no território em conflito, dividindo a cobertura com jornalistas de países diretamente envolvidos na guerra e sendo também impactada por eles. A cobertura do jornal deu destaque à guerra por semanas, seguindo uma demanda da sociedade brasileira da época, que já tinha sido midiaticamente educada a acompanhar o conflito em direto desde o Golfo e que agora acompanhava ao vivo pela TV. Com mais qualidade de imagem, mais repórteres no fronte, mais tecnologia na transmissão e tendo visto até a declaração de guerra ao vivo.

As agências internacionais tiveram papel importante na cobertura da guerra, fornecendo imagens, textos e análise para a imprensa brasileira e incluindo componentes para o debate sobre a pasteurização dessa cobertura nos veículos brasileiros, o acesso à informação e o jornalismo declaratório, que impacta o jornalismo por décadas na guerra e em outros temas. O papel do jornalista foi mais um vez o que me interessou, seja pela potencialidade de testemunhar acontecimento, falar com pessoas, pautas outros assuntos na relação com a guerra, refletir sobre o poder e também protagonizar a cobertura. Esse destaque para o repórter sempre fez parte das coberturas de guerra porque valoriza a presença do jornalismo como testemunha da história e dos acontecimentos, mas tem sido também tendência contemporânea para outros temas e no ecossistema de comunicação de uma forma geral.

Se há uma tendência de interesse da audiência por perfis de jornalistas e espaço crescente para o que é chamado de influencer nas redes sociais hoje, é preciso pensar os mecanismos e as condições que levaram a essa preferência. Num momento em que debatemos perda de audiência, desinformação e construção de confiança, parece haver uma percepção de credibilidade em pessoas, em perfis, em coberturas produzidas de pessoa para pessoa. Nem sempre jornalistas, mas também. Algo que já se percebe na cobertura de guerra e no jornalismo internacional de forma mais ampla, que aposta na presença do repórter, na construção de uma cobertura factual mas também contextual, cuja credibilidade depende dessa articulação e de estar lá. Ou parecer. Ou estar na tela, pelo menos. Aí é que esse debate sobre e a presença dos e das jornalistas vai ganhando complexidade. A atuação e o debate também é atravessado pela produção de tecnologias, que permitem cada vez mais a aproximação do acontecimento através do desenvolvimento dos dispositivos móveis, do celular e da propagação em tempo real pela internet. Da mesma forma como essa tecnologia pode ser e tem sido utilizada para proporcionar essa presença, ela também permite pretender essa presença. A percepção de proximidade muitas vezes garante comprovação como testemunha dos fatos e da história.

O uso da tecnologia para simular a presença como testemunha do acontecimento já era uma questão na cobertura da Guerra do Iraque, e também trato disso, na análise que faço do uso do videofone. Depois do telefone por satélite, que foi uma das estrelas da Guerra do Golfo, o videofone foi a nova sensação na Guerra do Iraque de 2003. Especialmente as emissoras de televisão, inclusive a TV Globo, no Brasil, tornou possível a presença de repórteres na cobertura do conflito utilizando um aparelho, que não chegava ser móvel como um celular hoje, mas que viabilizava deslocamentos mais ágeis e transmissões de som e imagem do conflito. Novamente a tecnologia passa a ser associada à imagem do repórter para produzir a cobertura e dar a dimensão do conflito. Porque eram os correspondentes que apareciam diante do videofone para reportar sobre a guerra.

As imagens ainda tinham problemas de qualidade técnica. A transmissão travava e não se tinha a percepção da imagem como hoje se vê em telefones celulares que filmam em 4K. Mas essa distorção na qualidade de alguma forma também fez parte da produção da imagem e construiu a narrativa da presença do repórter. Antes da invasão do exército dos Estados Unidos ao Iraque, a cobertura das emissoras brasileiras, por exemplo, era feitas ao vivo pelo videofone com o repórter instalado em telhados de prédios no Kuwait. A velocidade da guerra, um tema caro a Paul Virilio, ganhou nova dimensão e leitura a partir do uso do videofone pelos jornalistas na Guerra do Iraque, instalados nos prédios do país vizinho ao conflito. Há um documentário muito interessante chamado War Feels Like War, do diretor Esteban Uyarra, sobre a presença dos jornalistas estrangeiros que aguardavam no Kuwait e produziam suas matérias das bordas do conflitos. O documentarista acompanha o trabalho dessas quase 2 mil pessoas, sobre o que reportam no entorno da guerra mas fazendo cobertura de guerra. O filme também mostra e discute como a entrada deles no Iraque, que acontece após a ocupação pelos soldados norte-americanos, vai modificando a percepção dos jornalistas. Em que circunstâncias, com que proximidade, em que situações a guerra provoca ou não impacto nesses profissionais que precisam enviar histórias, imagens, relatos da guerra.

Esse filme me provocou um bocado e me fez pensar muito a respeito dessa presença dos jornalistas, do uso da tecnologia, do atravessamento das instituições e pessoas que promovem e controlam a guerra, sobre a relação com a proximidade, com as vítimas e com o território. E como isso pode impactar o jornalista e a sua produção. Hoje, além do desenvolvimento tecnológico, que ainda mais aproxima ou simula a presença, há um componente crucial nesse processo que é a participação das pessoas. Se o celular permite aos jornalistas se aproximar ou pretender estar próximo, também proporciona registros, produção de informação e capacidade de propagação a quem está presente em territórios em conflito. Logicamente impactados pela precariedade de condições dessa produção, pela violência que atinge diretamente as populações e pelas restrições de toda ordem.

Mas é um elemento que tem sacudido a produção jornalística e o papel dos jornalistas mundo afora, em coberturas de guerra ou de temas mais diversos. Tem atingido o modelo de negócio, questionado modos de produção e proporcionado disputas pela atenção e pelo protagonismo das narrativas na sociedade. Mas também tem iluminado o desejo das comunidades e dos indivíduos por fazer parte, produzir suas próprias visões, cobrir lacunas, desafiar invisibilidades. E também, claro, produzir desinformação e estar a serviço de projetos políticos. Mas, sobretudo, vejo a configuração da participação e a movimentação em desafiar a mediação estabelecida pelo jornalismo da forma como ele esteve configurado e tem sido realizado por várias décadas. A cobertura de guerra continua sendo realizada porque as guerras continuam a ser produzidas. Hoje, com um novo vigor é o que parece. Vou comprar uma nova agenda pra tomar mais notas. Porque há novos relatos e outras articulações entre as narrativas, os espaços de poder e os modos de operar. As guerras contemporâneas e as produções discursivas em torno delas precisam de outros textos pra gente dar conta de pensar, por exemplo, a presença dos líderes mundiais dando declarações diretamente em redes sociais e produzindo uma articulação entre a voz oficial e a conversa de bar. Vou ali comprar minha agenda e já volto.

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Vanessa Pedro é jornalista, doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisadora associada do objETHOS/UFSC