
(Foto: George Milton/Pexels)
No mundo acadêmico, é comum discutirmos as limitações e os desafios da mídia hegemônica. Com razão. Sabemos que ela reproduz desigualdades e nem sempre dá espaço a vozes periféricas, indígenas e negras. Por isso, valorizamos o jornalismo independente, que traz à tona pautas importantes que ficam fora do radar dos grandes veículos.
Mas, às vezes, esquecemos de olhar com mais atenção para o que também acontece dentro das redações tradicionais. Afinal, é desses espaços que saem muitos profissionais dedicados, que realizam investigações profundas e corajosas, denunciam violações, injustiças e contribuem para transformações sociais.
Posso trazer uma experiência pessoal para ilustrar essa conexão entre academia, jornalismo profissional e mudança cultural: em um período em que as discussões sobre a inadequação do termo “crime passional” para mortes em contexto de violência de gênero ainda eram recentes nos veículos de comunicação, participei de um encontro promovido pelo Instituto Patrícia Galvão, em São Paulo, com colegas da imprensa e especialistas da área para debater o tema. Na época, eu trabalhava nos jornais Diário Gaúcho e Zero Hora, no Rio Grande do Sul. Lembro de voltar à redação e compartilhar o que havia aprendido, explicando que esses crimes não são de amor, como o termo sugere, mas de ódio — uma violência grave que exige atenção e cuidado de quem cobre o assunto. É uma mudança de cultura que não acontece de um dia para o outro, mas que se fortalece justamente nesses diálogos internos. Nós, jornalistas, somos parte ativa desse processo de transição dentro das redações.
Uma forma interessante de perceber a diversidade e o impacto do jornalismo é observar os prêmios e reconhecimentos importantes no Brasil e na América Latina. No Prêmio Vladimir Herzog de 2023, por exemplo, o Metrópolis venceu a categoria Produção Jornalística em Multimídia com a série “Ouro Líquido”, sobre a exploração de populações negras e indígenas na produção de dendê.
No âmbito do Prêmio Gabo de Excelência em Reconhecimento 2025, a jornalista brasileira Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, foi homenageada por sua coragem e compromisso na defesa da verdade, em um cenário marcado por desinformação e ataques à imprensa.
Também posso citar profissionais como Amanda Rossi, do UOL, reconhecida por suas investigações, e Juliana Dal Piva, que já atuou no UOL e hoje está no ICL. Juliana foi a primeira brasileira a receber o “Prêmio Coragem no Jornalismo”, o que mostra o impacto do jornalismo brasileiro.
Rafael Soares, de O Globo, foi um dos premiados no Vladimir Herzog pelo livro Milicianos — Como agentes formados para combater o crime passaram a matar a serviços dele, uma investigação profunda sobre segurança pública e violência.
Não podemos deixar de valorizar os repórteres locais que passaram pela mídia tradicional em Santa Catarina e hoje atuam de forma independente, produzindo coberturas importantes sobre a Amazônia, como Fábio Bispo, que conquistou o 1º lugar no Prêmio INAC de Integridade pela reportagem “Transição energética gera corrida por minerais estratégicos com 5 mil requerimentos na Amazônia”, além de ter sido finalista do Sigma Awards 2025, e Hyury Potter, vencedor do Pulitzer Center’s Breakthrough Journalism Award e do Prêmio de Periodismo Rey de España, reconhecimentos que demonstram a força dos profissionais independentes que também iniciaram suas carreiras em veículos tradicionais.
Não se trata de ignorar as críticas necessárias à concentração midiática, longe disso. Mas é importante lembrar que as condições de trabalho dos jornalistas, especialmente nas grandes redações, têm se tornado cada vez mais desafiadoras, o que impacta diretamente a produção e a vida dos profissionais. Nos veículos independentes, os desafios não são menores: muitos profissionais atuam como pessoas jurídicas, e a busca por sustentabilidade financeira é constante, pois conquistar financiamentos duradouros é um processo complexo.
Claro que não podemos esquecer que a imprensa tradicional, por ter mais força e capital, muitas vezes absorve posicionamentos políticos por interesses próprios, o que exige um olhar crítico permanente.
Mas, ao mesmo tempo, talvez seja produtivo ampliarmos nosso olhar para reconhecer que o jornalismo de qualidade, que promove a democracia e os direitos humanos, acontece em diversos espaços, inclusive dentro da grande imprensa. O jornalismo vive em meio às adversidades, que vão das condições precárias de trabalho aos ataques à imprensa e à corrida contra a desinformação, porque há profissionais comprometidos em mantê-lo vivo todos os dias.
Fica o convite para pensarmos juntos: como podemos, na academia, fortalecer a conexão com o jornalismo profissional, ou melhor, com os jornalistas (pessoas) que precisam enfrentar tantos obstáculos na profissão, entendendo seus desafios?
Nesta semana, começa o 20º Congresso da Abraji, o maior evento de jornalismo investigativo do país, onde profissionais de diversos veículos se reúnem, compartilham experiências e apresentam reportagens de destaque. É uma ótima oportunidade para conhecer o que o jornalismo brasileiro tem feito de melhor.
Publicado originalmente em objETHOS
***
Schirlei Alves é jornalista freelancer, especializada em reportagens guiadas por dados e com foco em direitos humanos. É mestranda do PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS
