Friday, 21 de June de 2024 ISSN 1519-7670 - Ano 24 - nº 1293

O evangelismo nacionalista norte-americano

(Foto: Connor Martin/ Pexels)

Alguns dias depois de publicado meu último texto, aqui no Observatório, sobre “a vitória da extrema-direita reacionária evangélica” no primeiro turno das eleições brasileiras, mostrando a influência dos evangélicos, vejo no jornal suíço Le Temps, um texto sobre o mesmo tema.

Trata-se da reportagem da correspondente nos Estados Unidos, Valérie de Graffenried, sobre as próximas eleições legislativas de meio mandato (midterm), como chamam os norte-americanos, que acontecem no dia 8 de novembro, uma semana depois da eleição do presidente brasileiro. E a matéria com entrevista, que ocupa uma das páginas da seção Internacional, é exatamente uma análise da influência dos evangélicos nessas eleições.

Não se trata de simples coincidência a publicação quase simultânea desses dois artigos, mas de uma preocupante realidade também existente nos Estados Unidos, onde os puritanos, os rigorosos anglicanos calvinistas, faziam parte do poder político ainda quando as colônias norte americanas se tornaram independentes da Inglaterra, no século 18. Foi só em 1802 que o presidente Thomas Jefferson, considerado um dos “pais da nação norte-americana”, lançou as bases do Estado laico, erigindo o muro, no seu próprio dizer, marcando a separação entre o Estado e a Igreja. Mas antes mesmo da Revolução Francesa, em 1786, Jefferson já defendia, no Estado da Virgínia, o direito à liberdade religiosa, no qual era implícita a ideia do Estado laico separado da Igreja.

É esse muro que os evangélicos norte americanos de hoje querem derrubar. Mas atenção, esta chamada é dirigida não só aos membros das igrejas e congregações evangélicas brasileiras como aos seus pastores: o grupo evangélico reconhecido nos EUA como representativo pelo Partido Republicano é o que reúne “evangélicos brancos”. Eles fazem parte do chamado nacionalismo cristão norte-americano, cujo líder é o ex-presidente Donald Trump, e constituem 25% da população.

O racismo contra negros e indígenas continua forte e não basta ser evangélico para se branquear ou alvejar. Na propaganda evangélica feita no Brasil em favor dos Estados Unidos, pintado como uma espécie de Israel bíblica, geralmente se esquecem de mencionar haver restrições, mesmo no que seria o reino dos céus, para quem nasceu mais escurinho ou tem origem menos branca.

A citada reportagem do jornal Le Temps faz mesmo uma chamada como destaque com os dizeres: “61% é a percentagem dos eleitores republicanos norte-americanos que consideram os Estados Unidos como uma nação branca e cristã”. Imagino que muitos imigrantes brasileiros não brancos evangélicos e trumpistas nos EUA, apoiadores da extrema-direita bolsonarista brasileira, já tiveram algumas más experiências.

Essa reportagem faz algumas observações nunca publicadas, entre elas sobre os evangélicos “born again” ou “nascidos de novo”. Para quem não tem acompanhado o desenvolvimento do evangelismo nos EUA e mesmo no Brasil, a expressão “nascido de novo” vem das grandes campanhas de evangelização e reavivamento de pastores como D. L. Moody e principalmente Billy Graham, feitas nos maiores estádios e teatros norte-americanos. No dizer desses evangelistas, “ao aceitar Cristo como seu salvador, a pessoa nascia de novo”.

Embora Billy Graham, que esteve diversas vezes no Brasil pregando mesmo num Maracanã repleto, fosse contra a segregação racial, outro importante evangelista, Jerry Falwell, foi assim definido pela correspondente do jornal português Público, Rita Siza, em Washington, por ocasião de sua morte em maio de 2007: ” Para uns, o paradigma do moralista; para outros, o maior reacionário da América. Jerry era contra a promiscuidade, a pornografia, a homossexualidade ou o aborto, a educação pública, o ateísmo, a separação entre a igreja e o Estado”.

Ora, voltando aos “nascidos de novo” ou, em outras palavras, cristãos em fase de fanatização, são justamente esses “born again” que misturam política com religião, desejam o fim do Estado laico para ser substituído por uma teocracia cristã. Em síntese, desejam o retrocesso para a democracia norte-americana, e, por tabela e imitação, é esse igualmente o desejo dos evangélicos brasileiros, mesmo não sendo brancos, o de transformar o Brasil numa teocracia de fato, formalizada por lei ou não (como já ocorreu em alguns setores do governo, como a Educação do ex-ministro pastor Milton Ribeiro por exemplo).

É importante saber, conta a jornalista do Le Temps, como o nacionalismo cristão se afirmou, nos anos 70, em reação à lei cortando subvenções às escolas religiosas evangélicas que não aceitassem alunos negros. E ainda em 1973, em reação a uma decisão da Suprema Corte, no caso Roe versus Wade, dando às norte-americanas o direito de abortar até a vigésima-segunda semana da gravidez.

Essa decisão foi derrubada este ano, 49 anos depois, pela Suprema Corte, onde os republicanos têm maioria desde o governo Trump, e o aborto voltou a ser ilegal. Vitória evangélica, mas cujo resultado tem sido o fortalecimento dos movimentos femininos pela opção quanto ao aborto e do Partido Democrata, onde o presidente Joe Biden, católico, já se posicionou em favor da opção feminina.

Completando seu texto, a correspondente do Le Temps entrevistou Michael Emerson, professor de sociologia na Universidade de Illinois-Chicago, cujo resumo pode ser: “o nacionalismo cristão é uma ameaça para a democracia”, tanto para a democracia norte-americana como para a democracia brasileira, podemos resumir, ajuntando que as eleições do 8 de novembro, nos Estados Unidos, mostrarão mais um avanço da extrema-direita evangélica com o lema nacionalista trumpista Faça a América Grande de Novo, primo-irmão do lema bolsonarista Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos.

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Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu “Dinheiro sujo da corrupção”, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, “A rebelião romântica da Jovem Guarda”, em 1966. Foi colaborador do Pasquim. Estudou no IRFED, l’Institut International de Recherche et de Formation Éducation et Développement, fez mestrado no Institut Français de Presse, em Paris, e Direito na USP. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil.