Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

O Brasil fala ao mundo: Lula na ONU e o retorno à tradição diplomática

(Foto: Ricardo Stuckert/PR)

O discurso de abertura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da ONU, um rito que se repete anualmente, adquiriu este ano uma significação histórica profunda. A retomada de temas caros à tradição diplomática brasileira – o multilateralismo, o combate estrutural à desigualdade, a defesa intransigente da paz – marca uma virada radical após os anos de isolamento paranoico e submissão ideológica. Mais do que uma lista de prioridades diplomáticas, o discurso foi o epílogo político de um ciclo nefasto e a reafirmação solene de um projeto de nação. Como lembram Cervo e Bueno, a tradição diplomática brasileira sempre buscou “compatibilizar o desenvolvimento interno com a integração internacional, fazendo do multilateralismo uma ferramenta de soberania” (CERVO; BUENO, 2015). Lula, portanto, não improvisa: reinsere o Brasil em uma trajetória histórica de protagonismo internacional.

O sepultamento de um projeto político

A sombra dos eventos domésticos dos últimos dias pairou, sem ser nomeada, sobre cada palavra. A condenação judicial de Jair Bolsonaro e as massivas manifestações de domingo (21/09), que levaram milhões às ruas em defesa da democracia, não foram meros acidentes de percurso. Representam o atestado de óbito de um projeto político que se mostrou incapaz de governar, o sepultamento político da direita brasileira em sua forma mais grotesca e antidemocrática. O projeto bolsonarista, construído sobre o negacionismo, a polarização venenosa, o desprezo pelas instituições e o alinhamento submisso, revelou-se não apenas moralmente falido, mas judicialmente condenável e popularmente rejeitado. Como observa Esther Solano, esse fenômeno expressa a “transformação do ódio em política de Estado, sustentada por narrativas simplistas e ressentidas” (SOLANO, 2018), uma lógica que agora se encontra em franca desintegração.

O protesto histórico contra a anistia não foi apenas uma demonstração de força popular; foi a última pá de cal em um movimento em desintegração. A imagem de Lula na ONU é o retrato de um país que escolheu virar a página, sepultando não apenas um presidente, mas toda uma era de obscurantismo. Após anos de um governo que tratou a política externa como vassalagem a potências estrangeiras, hoje o Brasil ergue a voz para lembrar ao mundo que a soberania popular e a justiça social são antídotos necessários contra o avanço da barbárie.

A reconstrução da soberania e o legado diplomático

Foi precisamente sobre os alicerces da soberania nacional que Lula reconstruiu sua fala. Em seu discurso, Lula recupera a noção de soberania não como palavra de ordem isolacionista, mas como a capacidade de interagir com o mundo a partir de seus próprios interesses e valores, sem tutelas. Essa visão dialoga diretamente com a formulação da política externa ativa e altiva de Celso Amorim que preconizava a autonomia do Brasil na definição de suas prioridades, sem submissão a agendas de potências hegemônicas. O objetivo dessa política é projetar o país como um ator global, capaz de defender seus interesses e de contribuir para a construção de uma ordem internacional multipolar, onde o Brasil desempenharia um papel relevante.

Nesse ponto, é impossível não evocar o legado diplomático brasileiro que Lula busca resgatar. A tradição que vai de Rio Branco a Celso Amorim, passando por San Tiago Dantas, é a de um país que busca atuar como ponte, mediador e construtor de consensos. O discurso na ONU foi uma aula prática dessa escola. Ao abordar o conflito israelense-palestino, Lula não se limitou a condenações fáceis ou a tomar partido de forma simplista. Ele reconheceu o sofrimento israelense diante dos ataques do Hamas, mas foi enfático ao situar a raiz do problema na negação histórica de um Estado Palestino viável e soberano. Como já advertia Edward Said, “a Palestina não é apenas uma questão humanitária, mas a negação persistente de um povo ao direito fundamental de existir politicamente” (SAID, 2012). Ao resgatar esse princípio, o Brasil se reposiciona no campo do direito internacional e da justiça histórica.

Esta não é apenas uma manifestação de solidariedade; é um alinhamento estratégico com a maioria global e uma demonstração prática da multipolaridade em ação. A hegemonia dos EUA, incapaz de resolver conflitos como este, encontra-se em declínio, enquanto ganha força a voz do Sul Global. Como aponta Andrew Hurrell, o Brasil ocupa posição estratégica “como potência média, capaz de articular as demandas do Sul Global em um sistema internacional marcado pelo declínio da hegemonia unipolar” (HURRELL, 2003). Lula, ao vocalizar essa posição na ONU, alinha-se a uma mudança estrutural da ordem internacional.

A morte da extrema direita na América Latina não é uma vitória definitiva. A luta contra o autoritarismo é constante. Mas o retorno do Brasil ao palco global, a condenação de Bolsonaro e a mobilização popular são sinais inequívocos de que a maré está mudando. O Brasil que enterra um projeto de direita autoritária é o mesmo que se levanta para propor uma nova governança global, mais solidária e multipolar. O caminho é espinhoso, mas a mensagem foi enviada: a pátria de Darcy Ribeiro e Sérgio Vieira de Mello está de volta. O mundo, mais uma vez, precisa ouvir o Brasil. A palavra de ordem, que antes era a guerra, agora é a paz. E o Brasil, que era visto como um problema, reassume seu papel de solução.

Referências

AMORIM, Celso. A grande estratégia do Brasil: discursos, artigos e entrevistas da política externa (2003–2010). São Paulo: Benvirá, 2010.

CERVO, Amado Luiz; BUENO, Clodoaldo. História da política exterior do Brasil. Brasília: Editora UnB, 2015.

HURRELL, Andrew. Hegemonia, liberalismo e ordem global: qual é o lugar do Brasil?. Revista Brasileira de Política Internacional, v. 46, n. 1, 2003.

SAID, Edward. A questão da Palestina. São Paulo: UNESP, 2012.

SOLANO, Esther. O ódio como política: a reinvenção das direitas no Brasil. São Paulo: Boitempo, 2018.

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Mauricio Alfredo é Mestre em Educação, Professor de Geografia, Geopolítica e Atualidades no Ensino Médio e Superior. Autor de material didático junto à Editora Companhia da Escola.

Taís Alfredo é estudante de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp).