Quarta-feira, 28 de janeiro de 2026 ISSN 1519-7670 - Ano 2026 - nº 1372

Ética jornalística: o desafio de atrair estudantes, profissionais e públicos para a discussão

(Foto: Seej Nguyen/Pexels)

O uso de novas linguagens e plataformas pode ser um caminho promissor para instigar o debate a ir além da universidade, como mostra a série interativa “Escolhas” do podcast “Vida de Jornalista”, de Rodrigo Alves 

Embora a confiança no jornalismo siga caindo, o discurso ético da profissão se mantém nos slogans dos meios de comunicação; nos princípios editoriais e manuais de redação; nas falas de profissionais experientes ou iniciantes; no beabá de qualquer estudante de jornalismo; em livros e pesquisas acadêmicas. E isto não é novidade: ao longo de sua história, na medida em que se firma como instituição confiável para a divulgação de notícias, o jornalismo é cobrado em sua ética, que se torna uma espécie de fiadora de credibilidade. Para além dos usos e dos conceitos, a ética aplicada ao jornalismo é um imperativo, uma obrigação prevista no código da profissão.

Ante um cenário tão complexo de desinformação, polarização ideológica, precarização laboral, surgimento de novas tecnologias como a Inteligência Artificial, falta de regulamentação das plataformas digitais e crises política, econômica e climática no mundo inteiro, além de todas as transformações do próprio campo que afetam o fazer jornalístico nas redações e fora delas, falar de ética na profissão hoje é tão necessário quanto desafiador. Afinal, como tornar atraente e, ao mesmo tempo, interessante, qualificada e atual essa discussão não somente para quem está na universidade?

Para além de reafirmar valores clássicos do jornalismo como verdade, liberdade ou independência, de que maneira questões trazidas pelas demandas sociais do nosso tempo, como a diversidade, a igualdade de gênero ou a transparência, por exemplo, podem ser incluídas nesse debate e reunir mais participantes? Que abordagem de situações da prática profissional pode, efetivamente, ajudar a construir um quadro reflexivo para quem está em formação e, mais ainda, motivar revisões de conduta ou mobilizar novas escolhas entre aqueles que já estão na labuta noticiosa? São muitas as perguntas e este texto não tem a pretensão de dar as respostas; talvez, traga apenas mais inquietações.

Base analítica

Ainda que atravesse todos os estágios da carreira e não exclua nenhum dos atores do ecossistema profissional, o primeiro contato com a discussão ética no jornalismo, em geral, se dá nas faculdades, que costumam ter ao menos uma disciplina voltada ao tema em sua grade curricular. No curso da Universidade Federal do Ceará, onde fiz minha graduação, recordo as duas cadeiras sobre o assunto, uma no terceiro e outra no último período. Isto é, nas universidades brasileiras, no mínimo um semestre inteiro é dedicado a apresentar e discutir valores, princípios, normas, leis, manuais, instâncias autorregulatórias e outros elementos que constituem a ética e a deontologia da profissão — sem falar na abordagem transversal do conteúdo nas demais disciplinas.

É nesse momento, ainda nos bancos da universidade, que, antes mesmo de assinar um texto em um veículo de mídia qualquer, somos lembrados de que o jornalismo precisa ter um compromisso social anterior aos interesses comerciais, econômicos ou políticos das empresas. É quando, entre tantas definições possíveis, podemos aprender a de serviço público e que esta é a faceta mais valorizada, ainda hoje, pela audiência da qual tanto necessitamos.

Isto por si só não garante a qualidade do trabalho que será realizado por cada profissional mais adiante, é claro, nem significa sucesso de recepção entre os estudantes, que não raro esbarram na inexperiência. De alguma forma, porém, essa formação inicial imprime nos futuros jornalistas uma base analítica que, na trajetória profissional, deveria ser fortalecida e não suprimida pela rotina muitas vezes assediosa e massacrante do dia a dia das redações, levando ao chamado sofrimento ético (Lelo, 2019). Ou seja, é preciso criar condições estruturais para favorecer não só a discussão, mas a prática efetiva da ética jornalística.

Observatórios: ponte entre jornalista e público 

Por meio da crítica de mídia, os observatórios de imprensa também desempenham seu papel no aperfeiçoamento do jornalismo, em especial apontando a responsabilidade ética de empresas e profissionais, desde meados do século XX. Nesse esforço, avaliam o conteúdo dos meios e contribuem não só para chamar a atenção dos jornalistas, mas também para a capacitação do público. Os jornalistas Alberto Dines e Fernando Gabeira foram os pioneiros nessa prática por aqui, com os “Cadernos de jornalismo e editoração” publicados no Jornal do Brasil a partir de 1965, e inspiraram experiências que resistem até hoje, como o “Observatório da Imprensa”, fundado por Dines em 1996 (Huf e Batista, 2025). Segundo a Renoi, a Rede Nacional de Observatórios de Imprensa, em um censo realizado em 2021, há pelo menos 25 observatórios em atividade nas cinco regiões brasileiras.

Com uma história consolidada no país, os observatórios estão majoritariamente atrelados às universidades, como é o caso do SOS Imprensa, criado em 1996 como um projeto de extensão da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, e deste Observatório da Ética Jornalística – objETHOS, que no próximo dia 26 de setembro celebra 16 anos de atuação, ligado ao Departamento de Jornalismo e ao Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. Ao longo desse tempo, iniciativas como estas, para citar apenas alguns exemplos, vêm sendo realizadas de dentro das universidades para a sociedade e contam com o trabalho de dezenas de professores e pesquisadores. São projetos que realizam uma série de análises como este simples comentário a  teses, dissertações, relatórios, entrevistas, sites, guias, ações de educação midiática, entre outras atividades, abordando fundamentalmente a ética jornalística, em diferentes perspectivas. Um feito enorme que exige compromisso, dedicação e recursos públicos que só a universidade muitas vezes é capaz de fornecer.

“Escolhas”

O desafio de ampliar a discussão ética e levá-la a outros espaços e atores não é novo, mas tem encontrado em plataformas digitais outras possibilidades. Um exemplo internacional voltado para aproximar profissionais, pesquisadores e estudantes de jornalismo da América Latina é o “Consultório Ético”, da Fundação Gabo. Criado no ano 2000 como um espaço online para oferecer orientação sobre dilemas éticos enfrentados no jornalismo, teve um momento de experiência como podcast entre 2020 e 2021. Apesar de este ser um formato de mídia digital com cada vez mais espaço, aproximadamente 548 milhões de pessoas no mundo ouvem podcasts e a expectativa é que esse número chegue a 630,9 milhões até o final de 2025, a iniciativa colombiana, contudo, não deu continuidade ao formato.

No Brasil, a Associação Brasileira de Podcasters (ABPod) estima cerca de 31,94 milhões de ouvintes de podcasts, de acordo com o relatório da PodPesquisa 2024/2025 – Panorama do Podcast no Brasil: Desafios e Oportunidades. E, entre os gêneros mais valorizados, está o tipo narrativo por sua capacidade de engajar os ouvintes por mais tempo em formatos de episódios em séries e temporadas. Nesse cenário, um dos mais interessantes projetos voltados ao jornalismo na podosfera brasileira é o “Vida de Jornalista”, de Rodrigo Alves, no ar há mais de seis anos. Podcast narrativo/documental com bastidores e reflexões sobre o jornalismo, como é definido, o Vida já apresentou diversas temporadas de entrevistas com grandes repórteres e análises de importantes coberturas da imprensa nacional. A novidade deste ano foi a série “Escolhas”, justamente sobre ética jornalística.

Em formato interativo, ao fim de cada episódio, um caminho deve ser escolhido pelo ouvinte, que é acompanhado de comentários de alguns grandes nomes da profissão. Com roteiro de Rodrigo Alves e apresentação conjunta com Flávia Santos, a série aborda a questão ética a partir de casos hipotéticos inspirados em situações reais, com análises e diálogos que aproximam o ouvinte dos apresentadores e dos convidados, como é próprio dos podcasts, mas que também convidam a refletir sobre as transformações da profissão, a conhecer o código ético e a traçar outros cenários na trajetória como jornalista a partir de um raciocínio ético. Com uma linguagem e um formato acessíveis ao público geral, mas também rico em referências para estudantes e profissionais, “Escolhas” ilumina um caminho que ainda tem muito a ser desbravado nesse desafio de tornar mais abrangente e interessante a discussão sobre a tão cobrada ética jornalística.

Referências

HUF, Natália; BATISTA, Raphaelle. Crítica de mídia e observatórios de imprensa brasileiros: um debate a partir da prática. In: SANTOS, Marli dos; MUSSE, Christina Ferraz; TAVARES, Frederico de Mello Brandão (orgs.). Práticas e representações jornalísticas em contextos latino-americanos. Coleção Olhares Transversais. Belo Horizonte, MG: Fafich/Selo PPGCOM UFMG, 2025. p. 87-111.

LELO, Thales Vilela. O sofrimento ético no mundo do trabalho dos jornalistas. E-Compós, v. 23, p. 1-20, 2019.

Publicado originalmente em objETHOS.

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Raphaelle Batista é Jornalista, pesquisadora do objETHOS e doutoranda no PPGJor/UFSC